Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters
Adriano Machado e Rodolfo Buhrer/Reuters
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Tempo de decisão

Os ânimos se acirraram e produziram o capitão Bolsonaro porque o PT não reconheceu suas mazelas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 Outubro 2018 | 05h00

Numa luta selvagem entre dois cães basta que um deles exponha ao outro sua jugular para que a ferocidade se dissipe logo em seguida.

O clima de polarização e revanchismo destas eleições está acirrado não propriamente porque o PT comandou mensalão, petrolão e outras grossas roubalheiras ainda sem apelido. Nem porque o governo de Dilma Rousseff produziu incomensuráveis desastres na condução da política econômica. Os ânimos se acirraram e produziram o capitão Bolsonaro porque o PT não reconheceu suas mazelas, não expôs sua jugular. Em nenhum momento deixou claro que tudo será diferente e isso sugere que pode repetir tudo o que fez. Assim, a agressividade cresceu.

Em matéria de política econômica, tanto o que se sabe das propostas do capitão Bolsonaro quanto as que foram manifestadas pelos dirigentes do PT são largamente inconsistentes.

Desde Juan Domingo Perón sabe-se que o governante tem de ser violonista. Tem de tomar o governo com a esquerda e tocar com a direita, orientação repetida desde então mundo afora por inúmeros líderes políticos. Por isso, sempre se espera que documentos e declarações de campanha se restrinjam a fins eleitorais para os quais foram feitos. Depois, na hora da tomada de decisões, qualquer autoridade à frente de um governo não poderá fugir demais do que determinam os manuais, independentemente da ideologia que a ajudou a chegar lá.

O problema é que um presidente não governa sozinho. Os parças estão sempre por lá, entupindo-lhe os ouvidos com doses de disparates. A presidente Dilma, por exemplo, fez o que fez com as contas públicas e com a política monetária porque se deixou enredar nas práticas heterodoxas do seu secretário do Tesouro, Arno Augustin, e nas suas próprias esquisitices teóricas dos tempos de faculdade.

Nessas horas é preciso lembrar do que dizia nos anos 70 o ministro Octávio Gouveia de Bulhões. Sempre que saía de uma reunião do Conselho Monetário Nacional que decretara alguma decisão estranha, ele dizia aos jornalistas que esperavam pelas novidades: “Ainda não foi hoje que levaram o Brasil para o buraco, porque o Brasil é maior do que o buraco”.

Depois disso, o Brasil quebrou várias vezes, recorreu ao Fundo Monetário Internacional e foi obrigado a renegociar sua dívida externa com uma comissão de banqueiros. A moeda nacional mudou de nome nada menos do que sete vezes, quase sempre com cortes de zeros (18 no total), e, no entanto, com as dores e as cicatrizes já conhecidas, chegamos a estas eleições.

A economia está desarrumada e as contas públicas, seriamente desequilibradas. O desemprego atinge 12,7 milhões de brasileiros, enquanto a atividade econômica segue emperrada. Educação, saúde e segurança estão em petição de miséria, como está todos os dias no noticiário.

Mas, entre tantos buracos e tropeços, pelo menos dois setores estão prontos para mudar muita coisa, produzir tração e grandes riquezas no Brasil, desde que o governo não atrapalhe. Trata-se do petróleo e do agronegócio.

A era do petróleo está no fim. A partir dos anos 2040, o consumo mundial, hoje à altura dos 100 milhões de barris diários, recuará inexoravelmente. Se as jazidas brasileiras não forem exploradas em regime de urgência, será enorme o risco de que essa riqueza permanecerá para sempre no fundo da terra e se torne inútil. Nos cálculos do diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Décio Oddone, o potencial de geração de renda “nos próximos anos” é de R$ 2,5 trilhões. Mas é preciso acabar com essa postura paralisante de que há tempo de sobra. 

O agronegócio, por sua vez, conta com enorme demanda de proteína vegetal, não só pela China, mas, também, pelos novos emergentes da Ásia. Em pouco mais de 10 anos, a atual produção anual de 240 milhões de toneladas de grãos do Brasil pode dobrar, sem deterioração ambiental. Mas, para isso, é preciso contar com mais do que apenas o sol e a chuva na hora certa. É preciso investir em infraestrutura e deixar que as coisas andem sem a politicagem que tanto emperra a vida nacional.

O resumo da ópera é de que um grande número de incertezas continua aí, a inibir o investimento e a criação de empregos. Mas o Brasil não é um país subsaariano, sem energia, sem perspectivas e sem estratégia. A saída da crise e a redenção estão ao alcance dos brasileiros. Mas é preciso uma grande arrumação que, apesar da divisão nacional, pode começar a ser pautada hoje.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.