Tempo de desmonte

As projeções mais recentes, que apontam tanto menor crescimento quanto menor inflação para o fim de 2014, revelam agora, com mais nitidez, um quadro que começou a se delinear no segundo trimestre do ano. Era questão de tempo para que freios mais generalizados na atividade econômica produzissem efeitos nos índices de preços e também, apesar de uma certa resistência, nas taxas de emprego. Esse tempo parece ter chegado.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2014 | 02h04

A economia vinha perdendo fôlego desde o início do ano e acentuou a trajetória de queda no segundo trimestre. É possível que junho registre o fundo do poço do atual ciclo, mas a recuperação, no segundo semestre, se houver, se dará em pequena magnitude e ritmo lento. As projeções para a expansão da economia neste ano continuam a ser cortadas e começam a convergir para uma variação de apenas 0,5% no ano. Também as previsões para 2015 estão em processo de revisão para baixo, não só, mas também pela própria desaceleração de 2014.

Com perspectiva de queda, está prevista para o fim de agosto a divulgação pelo IBGE da variação observada do PIB no segundo trimestre. Mas já se terá uma ideia desse provável recuo com a divulgação pelo Banco Central, ainda nesta semana, do IBC-Br de junho. O índice de atividade econômica do Banco Central, que funciona como aproximação antecipada e mensal do PIB trimestral, de acordo com a grande maioria das projeções, reforçará as indicações de que a economia sofreu uma freada no segundo trimestre do ano, tanto em relação ao mesmo período do ano passado quanto na comparação com o primeiro terço de 2014.

Ainda parece longínqua uma onda de desemprego, mas as incertezas no mercado de trabalho são crescentes. Os números da criação de novos postos de trabalho formal estão em forte desaceleração e em segmentos importantes, como a indústria e o comércio, as demissões, nos meses recentes, começaram a superar as contratações.

Essas incertezas reforçam as tendências de contenção da demanda por pelo menos dois vetores. Um deles remete ao da redução direta do consumo, sobretudo de bens duráveis, em razão do comprometimento da renda com dívidas e de dúvidas em relação ao futuro do emprego. O outro se vincula ao canal do crédito, agora menos procurado pelos consumidores, mas já de algum tempo passando por restrições da parte dos bancos emprestadores.

Assim como a atividade econômica pode ter chegado ao fundo do vale em junho, os índices de inflação, que recuam desde abril, devem ter batido no chão em julho. Do mês passado em diante, as projeções apontam para altas mensais até pelo menos o início de 2015. De uma taxa em torno de 0,25% em agosto, as previsões para a variação do IPCA, nos meses seguintes, indicam uma escalada gradual até perto de 0,8%, em dezembro. Mesmo assim, está em curso uma relativa descompressão dos índices de preços, que poderá levar a inflação, no acumulado em 12 meses, a bordejar, nos próximos meses, o teto da meta, mas com tendência declinante, quando observada em período mais longo.

O quadro de contenção da demanda abre espaço, ainda que estreito, para a correção controlada de distorções produzidas pelo represamento de preços dos últimos anos. Na linha de frente, a lista inclui gasolina, energia, transportes urbanos e controle cambial. Manter o real valorizado frente ao dólar, como forma de conter a inflação, pela via dos swaps cambiais, por exemplo, já consumiu perto de US$ 100 bilhões e a ação vai ficando mais custosa, à medida que ajuda a impulsionar os déficits em conta corrente, o que torna mais vulnerável o lado externo da economia.

Transformadas em bombas-relógio, cujo desmonte será inevitável em algum momento, essas ações se mostram cada vez menos eficazes e se aproximam do esgotamento. Está mais do que na hora de verificar se a oportunidade de começar a desarmá-las já não estaria superando os riscos de mantê-las.

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