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Tempo nublado

Os analistas vão se debruçar sobre as causas desse céu já não tão limpo que é a economia brasileira

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2018 | 21h00

Já não é mais aquele céu de brigadeiro. A economia passa por momentos mais carregados, há novas preocupações e menos tranquilidade.

Nesta quarta-feira, por exemplo, saiu o IBC-Br, o Índice da Atividade Econômica do Banco Central, do mês de março, que apontou para todo o primeiro trimestre uma queda do PIB de 0,13%. Não se trata, ainda, de número definitivo, mas esse indicador existe para antecipar o que as Contas Nacionais só vão revelar em 30 de maio e, como tendência, não costuma errar o alvo.

Esse PIB andando para trás ficou longe das estimativas feitas em janeiro, quando a expectativa era de avanço da atividade econômica, de pelo menos 3,0% no ano. As projeções, que já haviam sido revistas para a altura dos 2,5% a 2,7%, terão de recuar ainda mais.

Agora, os analistas vão se debruçar sobre as causas. Alguns dirão que a política de juros perdeu capacidade de provocar tração na economia e que, para fazer efeito, os juros teriam de cair ainda mais. Outros avaliarão que o cenário eleitoral opaco leva o consumidor a adiar compras e o empresário a adiar investimentos. Ou, ainda, que a falta de solução para o rombo das contas públicas está armando tempestade.

O outro foco de apreensões está na área do câmbio. As cotações do dólar dispararam 4,9% apenas em maio e 10,9% em 2018. Esse salto reflete a queda da oferta de moeda estrangeira, bem como o aumento da procura, movimentos acionados por certas doses de medo.

Por trás disso atuam alguns fatores: o aumento da inflação nos Estados Unidos, alavancada pela alta do petróleo; a necessidade do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) de puxar pelos juros e, nessas condições, de aumentar a força do dólar; e o impacto da alta do dólar sobre a economia e a moeda dos emergentes, especialmente Argentina, Turquia e, agora, Brasil.

No caso dos emergentes, em especial da Argentina, a síndrome é a do bêbado que balança à beira do precipício. A fuga dos capitais a portos seguros pode vir a ser o empurrão que falta para a vertigem fatal, que o Fundo Monetário Internacional ainda pode evitar.

Em princípio, nada haveria de errado em alguma desvalorização do real, fosse ela movimento natural, digamos assim. O preocupante é o ataque desses vírus que aumentam a vulnerabilidade da economia. E a percepção global de mais risco vem medida pelo aumento dos pontos cobrados nos contratos do Credit Default Swap dos títulos do Tesouro do Brasil de 5 anos: subiram de 162,6 pontos no final de dezembro para 187,5 pontos nesta quarta-feira. Ou seja, os investidores estão cobrando mais para ficar com títulos de dívida do Brasil (veja o gráfico acima). Sinal de desconfiança.

Como acontece em momentos de turbulência, sempre há boa dose de subjetivismo nas avaliações dos analistas. E agora pode ser um desses. Para o Brasil, o que se pode dizer contra esses maus agouros é que as contas externas estão sólidas, capitais de investimento ainda chegam, há US$ 380 bilhões em reservas externas e o País tem hoje uma inflação que se encaminha para padrões de Primeiro Mundo. O diabo são as contas públicas e essa empedernida resistência brasileira a reformas de base. E isso contamina quase tudo.

CONFIRA

» O Copom ficou por aí

Embora há semanas tivesse admitido novo corte dos juros, o Banco Central entendeu que não deveria mexer neles agora. Por trás dessa mudança de posição está o quadro adverso a que se refere o tema principal desta Coluna. É a economia brasileira “em arrefecimento”, a má condição das contas públicas, a falta de vontade política de promover as reformas. O quadro externo está mais hostil e pode apanhar a economia brasileira mais desequilibrada. Não há por que esperar por novo corte dos juros neste ano.

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