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Temporada de tufões

PIB reage, mas crise fiscal se amplia e tempestade política volta a ameaçar

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2017 | 05h00

Começa uma semana decisiva para Temer. A frase, que já se aplicou a inúmeras semanas destes 15 meses e meio de governo Temer, mais uma vez tem sua razão de ser. Vem aí a segunda denúncia contra o presidente, na despedida de Rodrigo Janot da Procuradoria Geral da República (PGR), e respingos – ou seria uma chuvarada? - da delação premiada do doleiro Lucio Funaro, operador do PMDB. Lembram-se de quando a delação de Odebrecht era comparada ao fim do mundo? Pois é, o mundo não acabou, e ninguém se arrisca mais a prever o tamanho dos estragos quando um novo personagem dessa interminável crise resolve abrir a boca. E assim como das outras vezes, o temor é que a economia seja atingida por novo tufão da área política.

Como uma seguradora que faz o balanço do patrimônio do cliente a ser coberto pela apólice, vale conferir o estado das coisas na economia nesse novo momento de instabilidade política. Em primeiro lugar, a atividade econômica reage, desanuvia o clima geral, mas ainda precisa de todo cuidado para não desandar: tanto é que, ao divulgar o crescimento de 0,2% no PIB do segundo trimestre, a técnica do IBGE reconheceu que o ciclo é “ascendente”, mas insistiu que ainda não dá para falar em recuperação, contrariando a avaliação de vários economistas.

Em segundo lugar, a crise fiscal se amplia, e amplia também a desconfiança de que o rombo de R$ 159 bilhões previsto para 2017 e 2018 já esteja subdimensionado, diante da dura realidade das contas públicas: em julho, o pior mês da série histórica iniciada em 1997, o Governo Central, que reúne Tesouro, Previdência e Banco Central, registrou um déficit acumulado em 12 meses de R$ 183 bilhões, bem acima, portanto, da meta já revista e ampliada. E, pelo que se tem observado até agora no Congresso, daí não deve sair boa coisa para mudar o quadro fiscal. O próprio governo se enrosca na sua agenda econômica e na definição das suas prioridades, o Congresso tenta levar vantagem, como é de praxe, a “mobilizada” base parlamentar cochila, literalmente, antes de encerrar a votação da meta fiscal e o ajuste não anda. Ou pelo menos não anda com o sentido de urgência que a situação impõe.

Os analistas políticos não são unânimes na montagem do cenário pós-segunda denúncia de Janot. Há quem veja um Temer mais desgastado, além de uma base parlamentar mais desorganizada para defender o governo. Há, ao contrário, quem considere que, caso não se trate de algo assombroso, como foi a delação dos irmãos Batista, a tendência é de uma combinação de exaustão com conformismo – naquela linha de “política é assim mesmo” e o que resta é carregar Temer até 2018. Nos dois casos, porém, não se vislumbra um céu de brigadeiro para a tramitação das medidas fiscais no Congresso, já que Temer continuará submetido a pressões da base parlamentar, em maior ou menor medida, e já se sabe o que isso quer dizer. Além disso, há dúvidas sobre a agilidade na formatação de regras e modelos para o programa de privatizações. Quanto à reforma da Previdência, raros são os que mantêm a crença na aprovação ainda neste ano, mesmo num figurino minimalista.

Animados com o fato de que o PIB do segundo trimestre foi positivo, muitos analistas começam a refazer suas estimativas para 2017 e contam com um crescimento no ano mais para 1% do que para 0,5%, uma boa plataforma para um avanço maior no ano que vem. A esperança é que se consolide a reação do consumo, que sustentou o resultado do trimestre e se expressa tanto no aumento de 1,4% no consumo das famílias como na evolução de 1,9% no comércio. Para isso, contam com a continuidade da derrubada dos juros e com o alívio no quadro do desemprego, ainda que via aumento da informalidade, como vem ocorrendo até agora.

A crise fiscal, no entanto, põe um ponto de interrogação nas previsões mais para o médio prazo. A grande dúvida é o quanto o governo conseguirá empurrá-la com a barriga com medidas de emergência e evitar o impasse, levando em conta que a dívida pública deverá superar a marca dos 75% do PIB neste ano. E crise fiscal, obviamente, não combina nem um pouco com investimentos, públicos ou privados. Exatamente do que a economia depende para transformar a saída da recessão num novo e duradouro ciclo de crescimento.

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

 

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