Temporário ou fixo pode ser questão de desempenho

Trabalhos para épocas específicas, como Natal e carnaval, também são porta de entrada para o mercado e o início de uma boa carreira

LEANDRO COSTA, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h13

Aos 21 anos, com pouca ou quase nenhuma experiência Ricardo Sotero viu em um emprego temporário como vendedor de uma loja de artigos esportivos, a Centauro, a possibilidade de juntar um pouco de dinheiro no final do ano. Entretanto, com o bom desempenho apresentado, ele foi efetivado no cargo e hoje, passados 20 anos, continua na empresa. Mas agora é o gerente nacional da marca, uma das maiores da América Latina no ramo.

O caso de Sotero mostra que o trabalho temporário - Natal, carnaval, Páscoa - nem sempre é algo meramente transitório, como sugere a natureza do contrato. Historicamente, pelo menos 20% das pessoas contratadas nesta época do ano são efetivadas para suprir o crescimento dos quadros de funcionários das organizações. E, em alguns casos, como no de Sotero, representa mais do que uma porta de entrada para o mercado de trabalho, mas uma oportunidade consistente para a construção de uma carreira sólida.

Tentar entender o momento que a empresa atravessa e o que ela espera dos funcionários, tentar se adaptar rapidamente à cultura da empresa e à equipe, desenvolvendo bom relacionamento com as pessoas, além de levar o trabalho a sério, com disciplina e respeito são as orientações de Sotero para quem quer agarrar uma dessas oportunidades que surgem no final do ano. "Quem entra apenas com a mentalidade de ser um temporário pode deixar passar uma boa oportunidade. É preciso estar antenado, pois nesta época as empresas fazem substituições nas equipes. Então, é preciso estar antenado", alerta o gerente.

Foi o que fez o operador de supermercado Carlos Eduardo Ribeiro, contratado como temporário no Pão de Açúcar em setembro do ano passado, e efetivado logo após o término do contrato, em dezembro de 2011. "Sempre tentei dar o melhor de mim e me mostrar disposto a ajudar e aprender", afirma. Hoje, responsável pelo atendimento da lanchonete em uma das lojas da empresa, ele já cobiça uma vaga de padeiro. Para conquistá-la, irá se candidatar em um dos diversos cursos que a empresa oferece.

Conhecer. "Trabalho temporário é uma ótima oportunidade para entrar e conhecer uma empresa ou um setor e deve ser encarado da mesma forma que um emprego convencional, com carteira assinada", afirma a consultora Renata Maglioca, professora do curso de especialização em gestão de pessoas da FIA/USP.

Segundo Renata, o que mais as empresas observam na hora de efetivar um profissional contratado no final do ano são a capacidade de se adaptar à equipe de trabalho e o empenho para melhorar os resultados. "Aqueles que se empenham em ajudar o time, na busca por solucionar imprevistos, e que tentam sugerir melhorias nos processos diários com certeza vão de destacar", afirma ela.

O diretor comercial do ManpowerGroup, Sean Hutchinson, também tem esse pensamento. E salienta que. por serem, em sua maioria, vagas que não exigem experiência prévia, a vontade de aprender e a identificação com o trabalho vão fazer o profissional atrair o olhar das empresas. Hutchinson diz que atualmente o ManpowerGroup está recrutando quase 6 mil candidatos para preencheram vagas temporárias em diversas empresas.

"Observamos a entrega (cumprimento de tarefas), relacionamentos que o profissional construiu e, sobretudo, a afinidade da pessoa com o varejo", conta a gerente de atratividade e seleção do Pão de Açúcar, Rosângela Florio. Ela diz que dos cerca de 6 mil temporários contratados neste ano 20% devem passar a integrar o quadro efetivo de funcionários ao término do contrato.

Segundo Rosângela, para os que ficam as oportunidades de crescimento são diversas já que praticamente todas as promoções dentro das lojas ocorrem internamente. "Dificilmente contratamos alguém em cargos acima do nível de entrada."

O mesmo ocorre na Centauro, segundo Sotero. Este ano, dos 1,3 mil temporários contratados, 20% devem permanecer em janeiro de 2013, diz o gerente. "E as chances de carreira existem. Do total de gerentes de loja que temos em todo o País, 98% já eram funcionários da empresa. E há muitos que começaram como temporários", conta Sotero.

Não se identificar com a atividade desempenhada logo de cara não deve se motivo para desistência imediata, diz Renata, da FIA/USP.

"Muitas empresas oferecem possibilidades em outras áreas e é preciso estar atento a isso. Mesmo que a conclusão seja de que não há futuro, é preciso continuar encarando a oportunidade com seriedade, pois o mercado de trabalho é pequeno e deixar uma má impressão em um trabalho que não o profissional não quer mais pode prejudicá-lo no futuro, quando ele for pleitear uma vaga que realmente quer."

Renata ainda acrescenta que a experiência temporária pode ser um diferencial positivo em futuras seleções.

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