Robert Stolarik|NYT
Robert Stolarik|NYT

Tempos difíceis na ‘cidade dos sutiãs’

Cidades-polo abasteceram o boom de exportações da China, mas têm enfrentado dificuldades com mão-de-obra mais cara

The Economist

21 de abril de 2016 | 05h00

Na confecção de roupas íntimas Honji Underware, em Gurao, cidade da província de Cantão, no Sul da China, cada operário tem a seu lado uma pilha de sutiãs. O ambiente é dominado pelo ruído incessante das máquinas de costura, operadas por funcionários que executam a mesma e única tarefa, antes de passar a peça de vestuário para a próxima pessoa na linha de produção. A maioria dos 22 mil sutiãs produzidos diariamente na fábrica é absorvida pelo varejo de moda chinês. Nesta “Cidade das Lingeries”, como alardeia o governo local, há milhares de confecções semelhantes à Honji. Gurao produz por ano 350 milhões de sutiãs e 430 milhões de calcinhas e tops destinados ao mercado interno e externo. As roupas íntimas representam 80% da produção industrial da cidade.

Espalhados pelas ruas, outdoors exibem mulheres de seios volumosos – geralmente estrangeiras –, vestindo as peças de lingerie que fazem a riqueza de Gurao. No entanto, muitos nesse e em outros distritos industriais dos arredores de Shantou, uma cidade portuária situada 400 quilômetros ao norte de Hong Kong, estão preocupados com o futuro. Os custos têm aumentado, mas os clientes não se dispõem a pagar mais, diz June Liu, da Pengsheng Underwear, que confecciona lingeries e moda de praia. No ano passado, vários proprietários de confecções fizeram as malas e desapareceram de Gurao, deixando um rastro de dívidas e salários atrasados. O mesmo aconteceu em Chendian, outra cidadezinha das redondezas, também especializada na confecção de lingeries.

Nas três últimas décadas de crescimento econômico acelerado, muitas cidades de uma indústria só, como Gurao e Chendian, surgiram ao longo da costa leste da China, com frequência em áreas antes ocupadas por arrozais. Com investimentos de Hong Kong e Taiwan, e mão de obra farta – resultado da chegada em massa de migrantes do interior –, elas abasteceram o boom de exportações do país. Atualmente, a região conta com mais de 500 pequenas cidades desse tipo, produzindo itens como botões, gravatas, calçados de plástico, pneus, brinquedos, enfeites natalinos e vasos sanitários.

Sutiãs para o mundo inteiro. Gurao é um dos vários polos confeccionistas de roupas íntimas que fizeram da China a maior produtora mundial de lingeries. O país produziu 2,9 bilhões de sutiãs em 2014, 60% do total confeccionado mundialmente, segundo a consultoria Frost & Sullivan. Em diversos setores, o agrupamento de empresas similares numa mesma área cria uma massa crítica de bons fornecedores e trabalhadores devidamente treinados. As cidades-polo chinesas são responsáveis por 63% da produção mundial de calçados, 70% da de óculos e 90% das de lâmpadas de baixo consumo de energia.

Essa expansão toda teve um custo ambiental. Em 2010, o Greenpeace divulgou relatório informando que as tinturarias de Gurao haviam poluído gravemente o rio que corta a cidade. Mas os fabricantes de sutiã locais estão muito mais preocupados com a concorrência externa do que com ambientalistas.

Foi graças a seus preços baixos que os bens de consumo chineses conquistaram enorme fatia do mercado mundial. Essa vantagem é cada vez menor. Desde 2001, os salários registram elevação de 12% ao ano. Tailândia e Vietnã, onde a mão de obra é mais barata e a carga tributária, menor, agora confeccionam lingeries para marcas globais, como Victoria’s Secret e La Senza. Maior confecção de lingeries da China, a Regina Miracle vai inaugurar duas fábricas no Vietnã este ano. E pretende construir outras duas até 2018. Camboja e Birmânia estão entrando na briga. Desde 2013, a japonesa Wacoal confecciona lingeries nos dois países, e no ano passado inaugurou mais uma fábrica na Birmânia.

Gurao ainda tem vantagens, como suas excelentes cadeias de suprimentos. A cidade também parece se aproveitar de uma legislação frouxa sobre marcas registradas. Algumas cuecas estampam em suas cinturas dizeres como “Calven Klain” e “Oalvin Klein”, na tentativa de faturar com o renome de marcas famosas.

Para as autoridades de Gurao, com atualização tecnológica e uma maior automatização da produção será possível superar as dificuldades. No entanto, atrair o capital e a mão de obra especializada necessários a tal transformação será tarefa mais árdua que a enfrentada pelo empresário local que, em 1982, inaugurou a primeira confecção de lingeries da cidade, numa época em que empreendimentos privados ainda eram mal vistos na China.

Sempre foi difícil, até para as maiores fabricantes chinesas de roupas íntimas, arrancar de seus clientes contratos de fornecimento de longo prazo. Isso as tornou refratárias a realizar investimentos em pesquisa ou tecnologia. A maioria continua atrasada tecnologicamente e faz uso intensivo de mão de obra.

Em razão da predominância do setor privado em lugares como Gurao, é possível que essas cidades se adaptem com maior agilidade às atuais mudanças nas condições de mercado na China do que os polos de siderurgia e carvão do país – que devem perder 1,8 milhões de postos de trabalho nos próximos anos. Em 2013, os migrantes eram quase a metade da população de 161 mil habitantes de Gurao. Com baixa qualificação profissional, muitos mudam constantemente de emprego, mas sempre se dedicando à costura do mesmo fragmento de sutiã. A maioria não concluiu o ensino médio e não tem condições de se requalificar para trabalhar no setor de serviços, onde o governo chinês espera que sejam criados empregos em número suficiente para compensar as demissões na indústria. 

Algumas das cidades-polo chinesas talvez acabem desaparecendo do mapa, deixando pouca coisa para trás, além das carcaças de concreto de suas fábricas e o solo poluído. Gurao e cidades similares produziram uma riqueza extraordinária em regiões até então miseráveis do país. Para prosperar no futuro, terão de mirar mais alto e além das necessidades mais básicas e íntimas.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

Tudo o que sabemos sobre:
theeconomist

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.