Tendência atual é de fluxo cambial negativo, diz economista

Segundo Celso Grisi, da FIA, saldo comercial menor não conseguirá compensar saída de recursos financeiros

Giuliana Vallone, do estadao.com.br,

15 de outubro de 2008 | 20h04

A esperada redução no saldo comercial do País - com queda das exportações e importações no próximo ano - e saída de investimentos em decorrência da crise financeira geram uma tendência de fluxo cambial negativo nos próximos meses. A avaliação é do professor da Fundação Instituto de Administração (FIA), Celso Grisi. Além disso, segundo ele, com os problemas no crédito, os investimentos no Brasil devem cair, e podem voltar só com os recursos trazidos pelas reservas de petróleo no pré-sal.  Veja também:Consultor responde a dúvidas sobre crise  Como o mundo reage à crise  Entenda a disparada do dólar e seus efeitosEspecialistas dão dicas de como agir no meio da crise A cronologia da crise financeira  Dicionário da crise  Veja abaixo a íntegra da entrevista: A balança comercial vinha ajudando o País a conter o fluxo financeiro negativo, possibilitando um saldo positivo no fluxo cambial. Com o dólar alto, a tendência é de crescimento das exportações, mas, por outro lado, a crise financeira vem reduzindo o crédito ao exportador e a demanda mundial. Como todos esses fatores afetam o fluxo? O fluxo cambial reflete não só as exportações e importações do País mas também as operações financeiras em investimentos, em bolsas, em títulos, em empréstimos, inclusive empréstimos no mercado bancário.  O que está acontecendo é que as exportações continuam sendo maiores que as importações, até porque as importações tendem a cair em função do que se espera que aconteça no Brasil, que é um crescimento menor. Então nós vamos importar menos, para não deixar crescer os estoques na mão das empresas.  As exportações realmente tendem a ser beneficiadas pela desvalorização do real, e o fluxo do comércio acaba produzindo uma balança comercial favorável ao Brasil. O problema é que o fluxo cambial fica negativo porque o que sai muito dinheiro e o que entra é muito pouco. Está saindo muito dinheiro do investidor, que tinha dinheiro na Bolsa, em títulos do governo. Esse pessoal está deixando o País, por dois motivos: primeiro, pelo medo do Risco País, que está se apreciando, passou de 500 pontos; segundo porque eles precisam desse dinheiro para se socorrer lá fora, e socorrer prejuízos que eles tiveram em operações no exterior. Além disso, o Investimento Estrangeiro Direto, aquilo que vinha para o aumento da nossa capacidade produtiva, através das multinacionais que tinham projetos de expansão aqui dentro, também reduziu-se, em função da própria crise. Essas empresas preferem estar numa posição de liquidez mais confortável, preferem ter dinheiro em caixa do que investir nesse momento. E até porque os investimentos aqui começam a ser revistos, a gente está esperando uma redução do PIB no ano que vem. Mas nós não podemos esperar que a alta do dólar compense a queda nos preços internacionais ou a redução nas quantidades que eles vão importar de nós. É preciso esperar que haja uma redução efetiva do valor exportado brasileiro anualmente. Eu acho que nós podíamos pensar numa saldo comercial de US$ 10 bilhões ao final do ano que vem. O que vai acontecer então é uma redução no saldo comercial, com queda nas exportações e importações? A redução na atividade econômica derruba fortemente o valor das importações. E o valor das exportações também cai, por duas razões: se o mundo está em recessão os preços caem e as quantidades que o Brasil exporta também cai.  E essa redução esperada na balança comercial dificulta um saldo positivo no fluxo cambial daqui em diante? Nós vamos ter um saldo de balança menor não sei se ele conseguirá compensar o fluxo financeiro negativo. Eu temo, porque eu acho que a entrada de capitais no Brasil será muito modesta no ano que vem. A nossa grande esperança é que o pré-sal - reservas de petróleo encontradas em águas ultraprofundas pela Petrobras - possa trazer muito dinheiro para o País. É em cima disso que nós estamos imaginando que possa haver um momento mais positivo. Mas a gente tem medo. Então a tendência, até a chegada dos investimentos no pré-sal, é de um fluxo cambial negativo no País? É de se imaginar que o fluxo cambial seja negativo. Mas nós temos reservas internacionais, o que nos deixa numa posição muito confortável. Não é uma situação de desespero. Além disso, fluxo não será tão negativo, porque nós vamos compensar em alguma medida com as exportações. Mas de qualquer forma eu prevejo fluxo negativo, sim. O dinheiro que está saindo do País a cada mês através do fluxo financeiro, vai voltar para o Brasil? Quais os fatores que determinam ou não essa volta? No curto prazo, dificilmente. Ele pode voltar, mas em um prazo bem mais longo. Porque o capital que está saindo está socorrendo lá fora as confusões feitas nos Estados Unidos pelas empresas, pelos investidores internacionais. Até que eles se recuperem disso e se disponham a voltar ao Brasil para novamente aproveitar oportunidades de negócio, isso demandará algum tempo, e esse tempo não é pequeno. Se a cotação do dólar continuar neste patamar, o Banco Central terá que continuar usando as reservas internacionais do País para conter a alta? Olha, em primeiro lugar a ação do Banco Central tem sido muito feliz, porque tem garantido um conjunto importante de elementos, na liquidez interbancária, no fornecimento de crédito aos exportadores, de forma que a liquidez no sistema permaneça num determinado nível que garanta que o País não entre numa recessão. E ele está usando essas reservas de maneira muito prudente, sem expô-las a uma situação de perda. Ele está colocando as reservas no mercado, mas ele vai recuperá-las no futuro.  Em segundo lugar, o fato de ele estar usando as reservas dessa forma repercute muito positivamente na economia, inspira muita confiança no agente econômico que opera aqui dentro. Mostra que o BC tem uma percepção clara do problema mundial, que ele tem instrumentos para reagir, e que ele está suficientemente aparelhado para dar a resposta a tempo e a hora.

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