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Tendências do mercado de trabalho metropolitano

Segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) a taxa de desemprego em seis regiões metropolitanas do Brasil - Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre - saiu de 12,3%, em 2003, para atingir o seu nível mais baixo, 5,4%, em 2013. Queda contínua apesar da brusca parada no crescimento da economia em 2009 e de seu modesto desempenho nos anos recentes. A evolução do emprego nessas regiões não responde às flutuações da economia. A suposta escassez de mão de obra indicada pela combinação de pleno emprego com baixo crescimento demográfico tem sido citada como um dos fatores responsáveis pelo medíocre crescimento do PIB nos últimos anos.

Paulo Paiva*, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2014 | 02h07

Análise da evolução do mercado de trabalho metropolitano entre 2003 e 2013 pode ajudar a elucidar essas questões. Considerando o segmento de 15 anos e mais, a população economicamente ativa (PEA), que é constituída por ocupados e desempregados, cresceu menos do que a população em idade ativa (16,4% ante 18,2%), porque o contingente de desempregados reduziu-se em 49,3%, enquanto o total de ocupados cresceu 25,4%. Como a propensão ao desemprego é uma função da idade, a variação do total de desempregados resulta de mudança simultânea na estrutura etária da PEA e do emprego. Eliminando os efeitos demográficos pode-se aferir o impacto direto do emprego sobre a variação das taxas de desemprego. Por exemplo, se, em 2013, a estrutura etária da PEA fosse igual à de 2003, o desemprego no ano passado seria de 6,8% e não de 5,4%. Assim, a redução do contingente de desempregados teria sido de 35% e não de 49,3%; isto é, cerca de um terço da redução do desemprego ocorreu em razão de mudança na estrutura etária da PEA e dois terços pela criação de novos empregos.

Essas mudanças resultaram no envelhecimento do emprego nas regiões metropolitanas. O grupo cuja participação relativa no total dos ocupados mais ganhou no período foi o de 50 anos e mais, passando de 16,8%, em 2003, para 34,6%, em 2013. Na outra ponta, caiu a participação dos mais jovens (de 15 a 24 anos), indo de 18,9%, em 2003, para 14,4%, em 2013. Mudanças que tiveram impacto sobre a composição da taxa de desemprego porque o segmento dos mais velhos tem a mais baixa taxa de desemprego (2,1%), enquanto o desemprego dos jovens de 18 a 24 anos chega a 12,7% e dos de 15 a 17 anos atinge 24,6%.

Muito embora ocorra aumento no nível de emprego nas regiões metropolitanas e parcelas crescentes de jovens permaneçam nas escolas, o mercado de trabalho apresenta desemprego de jovens comparáveis às mais altas taxas exibidas pelos países europeus que foram atingidos pela crise financeira da última década. Observa-se, assim, uma heterogeneidade no mercado de trabalho metropolitano: em uma ponta, envelhecimento do emprego com a retenção dos mais velhos no mercado de trabalho, parte dos quais acumulando aposentadoria com outra atividade, e, em outra ponta, elevado desemprego de jovens. Em 2013, para cada mil jovens entre 15 e 24 anos no mercado de trabalho, 140 estavam desempregados, provavelmente constituindo o grupo dos chamados "nem-nem".

As atividades mais afetadas pela queda no crescimento da economia são as industriais que têm menor participação relativa nas regiões metropolitanas. A expansão do emprego aí se deu nos setores terciários e no emprego público (civis e militares), não afetados pela crise.

No futuro próximo, as restrições do mercado de trabalho sobre a expansão da economia ocorrerão pela soma de jovens sem qualificação com idosos sem suficiente escolaridade para os novos tempos.

A divulgação regular dos dados da Pnad Contínua, cuja abrangência oferece uma visão mais completa da dinâmica do mercado de trabalho no Brasil, será fundamental para avaliações sobre o comportamento do emprego e suas relações com o crescimento da economia.

Urge abandonar avaliações ufanistas sobre pleno-emprego no Brasil e cuidar de políticas que possam estimular a escolaridade dos jovens que se incorporarão à PEA nos próximos anos e de reformas para dar maior flexibilidade ao mercado de trabalho, ambos visando a garantir ganhos de produtividade. A oferta de mão de obra precisa ser incluída na agenda do crescimento econômico.

*Paulo Paiva é professor da Fundação Dom Cabral e foi ministro do Trabalho e do Planejamento e Orçamento no governo FHC.

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