Tenebrário

O tenebrário é um enorme candelabro triangular usado pela Igreja Católica na liturgia do Ofício de Trevas da Semana Santa. Ao longo da cerimônia, suas 15 velas são progressivamente apagadas, até a treva total. O governo Dilma parece sugerir que esse é o formato do sistema elétrico brasileiro.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2012 | 02h06

No último sábado, o País sofreu o sétimo apagão de graves proporções em quatro meses. Foram atingidos oito Estados e população estimada em mais de 3,5 milhões de pessoas.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) avisou em nota oficial que as perdas de geração na usina de Itumbiara, administrada pela central de Furnas (grupo Eletrobrás), alcançaram 1.180 MW, mas os desligamentos sucessivos a partir desse epicentro interromperam o fornecimento de 8,2 mil MW - nada menos que 13,4% da carga total do Brasil.

A cada episódio, fuzilam-se os suspeitos de sempre: fatores naturais - como ventanias, raios, incêndios em pastagens ao longo das linhas de transmissão, coisas assim. Ontem, por exemplo, o diretor-geral do ONS, Hermes Chipp, apontou o dedo acusador para "descargas atmosféricas". Deveria bastar para demonstrar que o sistema é tremendamente vulnerável a tempestades tropicais.

Depois, também como sempre, o ONS convoca técnicos dos agentes envolvidos para averiguar as causas do problema, que, meses depois, aparecerão minuciosamente em taludos relatórios. Mas, antes, outras ocorrências de proporções similares terão provocado novos estragos e novos procedimentos equivalentes.

As autoridades da área lidam com os fatos como se fossem coisas que o brasileiro tem de aturar ou os usam para fazer seu jogo. Em outubro, o então ministro interino de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, insinuou que o apagão da ocasião poderia ter origem em atos de sabotagem das grandes companhias de energia - como reação contra a Medida Provisória 579, que obriga os fornecedores a derrubar em ao menos 20% as tarifas. Depois admitiu que, uma a uma, interrupções no fornecimento de energia elétrica têm a ver com falta de investimentos ou com descuidos de manutenção.

Às vezes, o governo Dilma parece ignorar o impacto desses problemas sobre a atividade econômica. Dá a impressão de desconhecer os prejuízos provocados pela paralisação das linhas de produção, pelo bloqueio das comunicações e pela enorme quantidade de produtos que se deterioram nas gôndolas dos supermercados, nos freezers e nas câmaras frigoríficas.

Que sentido fazem tantos apelos ao empresário para que mobilize seu espírito animal e despeje seu dinheiro em novos negócios, se o governo não garante suprimento regular de energia? Dá isenção de IPI à compra de geladeiras pelo povão, mas não dá importância para o estrago causado na economia familiar em perdas de alimentos provocadas por fatos assim.

A sucessão de apagões e apaguinhos indica que o sistema sofre de doença grave. Mas as autoridades a subestimam. De que adianta, por exemplo, insistir em preços baixos da energia (modicidade tarifária), se não há segurança de fornecimento?

Assim aumentam as dúvidas sobre a eficácia da nova política. A já mencionada MP 579 impõe que investimentos em manutenção dos sistemas não sejam repassados para as tarifas antes de serem submetidos aos burocratas da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). São eles que operam o tenebrário?

E-mail: celso.ming@estadao.com

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