Johannes Eisele / AFP
Johannes Eisele / AFP

Tensão entre EUA e China levará à desaceleração do comércio internacional, alerta OMC

Entidade apresenta nova previsão e destaca impacto da guerra comercial entre as duas potências

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2018 | 07h43

GENEBRA - O comércio mundial já começou a ser afetado pelas medidas protecionistas e pela guerra comercial iniciada pelo governo de Donald Trump. Dados publicados nesta quinta-feira, 9, pela Organização Mundial do Comércio (OMC) apontam que o fluxo de exportação sofrerá uma desaceleração nos próximos meses. Para a entidade, a tensão política é a principal responsável.

Esta é a primeira vez que a OMC apresenta dados concretos sobre o impacto da tensão, desde que americanos e chineses passaram a impor sanções, elevar tarifas e recorrer ao protecionismo. Diversos dados publicados ao longo da última semana por outras entidades já haviam revelado como a guerra comercial desacelerou o volume de cargas transportadas e até as encomendas à indústria alemã.

No quarto trimestre de 2017, a expansão do comércio havia sido de 1,1%. Já nos três primeiros meses de 2018, o crescimento foi de apenas 0,2%. A OMC não traz uma previsão de quanto seria a taxa de crescimento ou de queda no segundo semestre. Contudo, admite que “a expansão comercial deve desacelerar ainda mais no terceiro trimestre de 2018”.

Para medir a tendência do comércio, a OMC criou um indicador que coleta dados de exportações, cargas e outros índices setoriais considerados alguns dos pilares da economia mundial. Uma taxa de 100 pontos significa uma estagnação do crescimento do comércio. Para o terceiro trimestre do ano, o resultado apontou para 100,3 pontos, o que significa uma expansão praticamente insignificante. No trimestre passado, a pontuação havia atingido 101,8.

“A perda de ritmo reflete a fraqueza de índices, como as encomendas de exportação e a produção e venda de carros, que podem estar respondendo às tensões comerciais”, alertou a entidade em um comunicado emitido em Genebra. “A tensão comercial cada vez maior coloca em risco as previsões do comércio e será monitorada de perto”, explicou a OMC.

Índices

Entre os índices, as encomendas por exportações caíram e chegaram a uma taxa de 97,2. O mesmo ocorreu com a venda de carros, com índices de 98,1. Os índices de carga aérea continuaram no campo positivo, assim como o dos portos e contêineres. Mas a OMC estima que “o crescimento parece ter passado seu ponto mais elevado”.

O que ainda continua acima da tendência média é o comércio de componentes eletrônicos. O comércio agrícola se recuperou de uma baixa no segundo trimestre e seguiu a tendência geral, com 100,1 pontos.

Antes da eclosão da guerra comercial, a OMC previa um crescimento importante das exportações em 2018 e 2019, ainda que admitisse que uma certa desaceleração iria ocorrer. Em 2017, a expansão do comércio internacional em volume foi de 4,7% e, em valores, chegou a 10,7%, o melhor desde 2011, e atingiu US$ 17 trilhões. Para 2018, a previsão original é de que ela poder ser de 4,4%. Em 2019, a previsão inicial apontava para 4%.

Agora, esta previsão pode ser revista para baixo, diante de uma nova desaceleração das exportações. Para a Organização Mundial do Comércio, os riscos são reais. Em colunas publicadas nesta semana em diferentes jornais internacionais, o diretor da instituição, Roberto Azevedo, deixou claro que “o comércio mundial está sob ameaça”. “Chame ou não a atual situação de guerra comercial, o que é certo é que os primeiros disparos foram feitos”, disse o brasileiro.

Segundo ele, os dados da OMC mostram uma “forte escalada no uso de medidas restritivas nos últimos seis meses”. “A situação é extremamente grave”, afirmou. “As restrições recíprocas ao comércio não podem se transformar na nova regra”, alertou em uma referência ao perigo de que as medidas adotadas pelos americanos sejam rebatidas pela China ou outros parceiros, com retaliações e novos muros ao comércio. “Essa escalada ameaça ter um impacto econômico importante, ameaçando empregos e o crescimento de todos os países.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.