Tensão política respinga no leilão do Tesouro

O mercado de juros confirmou hoje que está mais cauteloso e, por conta disso, também mais sensível a notícias ou rumores negativos. Como já era esperado desde ontem, as instituições financeiras pediram - e levaram - taxas maiores de remuneração no leilão de títulos prefixados do Tesouro, em relação ao leilão da semana passada. Após a venda, as taxas para os mesmos papéis leiloados começaram a recuar no mercado secundário. Mas bastaram rumores de novos ingredientes na briga política no Congresso e de um resultado do IGP-M pior do que o esperado (primeira prévia de fevereiro, a ser divulgada amanhã), para que elas retomassem a alta. O boato do IGP-M terá de esperar amanhã para ser confirmado, mas em Brasília, de fato, o cenário estava ficando mais turbulento neste final de tarde. A bancada governista não conseguiu obstruir a votação do requerimento de retirada de pauta do projeto de lei complementar que amplia o cronograma de redistribuição do Fundo de Participação dos Estados e municípios - e o líder do PFL, Inocêncio Oliveira, encaminhou contra a retirada de pauta. O surpreendente é que a chamada base aliada desobedeceu à decisão de obstrução, tomada pelos líderes no início da tarde. Já de pé atrás com a briga em torno das eleições para as presidências da Câmara e Senado, o mercado deve olhar com preocupação para mais este sinal de desarticulação da base governista. A questão política é mais um ingrediente no conjunto de preocupações listadas pelas instituições financeiras - encabeçado pela forte desaceleração econômica dos EUA - para justificar a alta das taxas nesses últimos dias e no leilão de hoje. No leilão, o Tesouro vendeu o lote integral de 1,5 milhão de LTNs de 364 dias, com vencimento em 6/2/2002, a juro máximo de 15,87% ao ano e médio de 15,86%. No leilão anterior (30/1), o mesmo papel teve juro máximo de 15,49%. Ao final do dia de hoje, o spread para este mesmo título, no mercado secundário, já alcançava a casa dos 15,93%/15,91%, muito além do resultado do leilão. O Tesouro também vendeu 1 milhão de LTNs de 511 dias, com vencimento em 3/7/2002, a juro máximo de 16,16% e médio de 16,11%. No leilão da semana passada, a mesma LTN teve juro máximo de 15,62%. Foi vendido também o lote integral de 1 milhão de LFTs (pós-fixados) de 1.834 dias, com vencimento em 15/2/2006, com deságio de 0,04%. A cautela assumida pelo mercado está minando também as apostas mais otimistas para a Selic, o juro básico da economia. O mercado está mais propenso a acreditar que o Comitê de Política Monetária (Copom), na sua reunião do dia 14, reduzirá a Selic em apenas 0,25 ponto porcentual ou manterá a taxa nos atuais 15,25%. Contribui para a cautela o fato de que, no mesmo dia 14, há a eleição na Câmara e no Senado. Há duas semanas, o otimismo reinava e a aposta majoritária era de redução em 0,50 ponto porcentual. O mercado começou mesmo a reverter sua opinião após a queda dos juros dos EUA (31/1), em 0,50 ponto porcentual. O tamanho e a velocidade da queda (a segunda nesta proporção no mês de janeiro) induziram as instituições financeiras a acreditarem que a situação da economia dos EUA é pior do que se imaginava. O secretário-adjunto do Tesouro Nacional, Rubens Sardenberg, acha que justamente a situação dos EUA é o motivo maior da cautela atual do mercado. Em entrevista à jornalista Adriana Fernandes, da Agência Estado, o secretário afirmou que a alta nas taxas do leilão de hoje reflete muito mais o "desconforto" do mercado com a situação da economia norte-americana do que uma preocupação maior com o cenário político brasileiro e a votação para as presidências do Senado e da Câmara. "Honestamente, o cenário político não foi o mais importante nessa abertura das taxas. O ruído político é residual", disse o secretário.

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