Tentativa do governo de leiloar 'boi pirata' fracassa

Frigoríficos, pecuaristas e produtores rurais não tiveram interesse na compra de gado criado irregularmente

Fabíola Salvador, da Agência Estado,

14 de julho de 2008 | 20h19

Fracassou a primeira tentativa do governo de vender 3.500 cabeças de gado criadas irregularmente numa área de conservação da Amazônia localizada em Altamira, no Pará, dentro da Estação Ecológica Terra do Meio. Frigoríficos, pecuaristas e produtores rurais não tiveram interesse na compra dos 45 touros, 2.100 vacas, 800 novilhos e 555 bezerros oferecidos por meio do sistema eletrônico da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).  O preço de abertura de todos os lotes somados foi de R$ 3,9 milhões. O dinheiro será destinado a projetos sociais coordenados pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), incluindo o Fome Zero. O governo fará uma nova tentativa de venda na próxima segunda-feira (21), mas deve fazer mudanças no edital. "Tinha comprador para todo o lote, mas o preço estava acima do mercado", afirmou o vice-presidente da Bolsa de Cereais de São Paulo, Reinaldo Rosanova, em nota distribuída pela assessoria do MDS.  Para Guilherme Minssen, leiloeiro e zootecnista que trabalha na região da Amazônia Legal, a dificuldade para retirar os lotes da fazenda Lourilândia, onde os animais eram criados, também contribuiu para o fracasso do leilão. "Não adianta só ter gado para comercializar. É preciso viabilizar a estrutura de transporte para compra e venda", explicou Minssen. Ele lembrou que a região da fazenda é de difícil acesso. "Os custos para transporte também precisam ser computados", comentou. O comprador é responsável pela retirada do lote, de acordo com o edital da Conab. Essas dificuldades serão consideradas pelo governo. Durante esta semana, o valor será reavaliado por técnicos que vão considerar a complexidade de retirada do gado da área, entre outros fatores. "O Ibama acredita que isso fará com que haja um deságio no preço inicialmente proposto", avalia o diretor de Proteção Ambiental do orgão, Flavio Montiel. O superintendente da Conab, João Cláudio Dalla Costa, disse que o resultado do leilão não surpreendeu o governo. "É uma reação normal do mercado, principalmente por se tratar de uma primeira operação de leilão desse gado", disse. Além da logística e do preço, fontes locais lembram que os pecuaristas da região podem ter "ignorado" o leilão do "boi pirata" num gesto de solidariedade ao proprietário do lote, Lourival Medrado Novaes dos Santos. "Se o lote é vendido rapidamente, o governo se anima para fazer novas apreensões na região", comentou uma fonte ligada aos pecuaristas e madeireiros do Pará. Desde 2005, a área da Estação Ecológica da Terra do Meio, no Pará, foi declarada de conservação e há um ano a Justiça determinou a saída dos criadores de gado do local. A interdição temporária do Frigorífico Industrial Altamira, que atua na região, também contribuiu para o resultado negativo do leilão de ontem. Segundo funcionários, o frigorífico, que abate 500 animais por dia, está interditado desde a última quarta-feira (9) devido a problemas ambientais apontados pelo Ibama.

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