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Tentativa e erro

Todos os dias aparece alguém para dizer que a oposição não tem discurso, não tem proposta de política econômica que possa se contrapor ao que está aí. Nada mais verdadeiro. As análises dos cartolas da oposição são episódicas, descosturadas, sem estratégia.

CELSO MING, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2013 | 02h10

Mas o oposto também é verdadeiro. O governo não sabe como consertar o que está errado. Vai sendo surpreendido todos os dias com novos estragos na economia. O mais recente é a surpresa do estouro das despesas com seguro-desemprego, em R$ 47 bilhões neste ano, paradoxalmente, num ambiente de pleno emprego. Igualmente surpreendente é a falta de proposta para resolver o problema.

Quando faz andar uma solução, quase sempre casuística e parcial, o governo produz novas distorções. Mas, para não dar o braço a torcer, repete mecanicamente que está tudo bem e que melhor ficará, sem explicar como.

Em meados do ano passado, havia convicção dentro do governo de que era preciso derrubar determinantemente os juros, não só para acelerar a atividade econômica, mas, também, para reduzir as despesas com o serviço da dívida. Uma dívida mais baixa, por sua vez, deixaria recursos para mais políticas de renda. Em vez do crescimento econômico pretendido de 4,0% a 4,5% ao ano, os números obtidos foram medíocres: avanço do PIB de 2,7% em 2011 e de 0,9% em 2012. Para este ano, mais do que 2,5% é uma possibilidade tão remota quanto a ocorrência de uma tempestade de neve em Brasília.

Para a recuperação da indústria, um a um, os economistas do governo recomendaram uma forte desvalorização cambial (alta do dólar) e uma política de desoneração de encargos sociais. Tão logo começou o processo de desvalorização do real, a inflação empinou com a arrancada dos preços dos produtos importados e o Banco Central foi obrigado a voltar a puxar os juros para cima e a vender dólares para evitar uma alta cambial maior.

A desoneração foi afinal parcialmente implementada, mas vai produzindo novos furos e novos desequilíbrios. O furo mais evidente é o que aparece na arrecadação: perda de receitas de R$ 60 bilhões em 12 meses. Apesar dessa bondade oficial, a indústria continua prostrada e esse é outro objetivo frustrado. Como é um processo que parou a meio caminho, os setores que ficaram de fora desfrutam de menos vantagens para operar do que os beneficiados.

Outra ideia-força do governo foi trabalhar com políticas anticíclicas: gastar mais quando a economia está emperrada, para deixar a austeridade para os dias radiantes. As tentativas de políticas anticíclicas esbarraram com fortes limitações fiscais: as laranjas foram espremidas e não há de onde tirar mais suco.

Houve um momento em que nossos dirigentes entenderam ter sido um erro pretender acionar a economia apenas com estímulos ao consumo, porque a produção não acompanhou a procura. A decisão seguinte foi dar ênfase ao investimento e às concessões públicas. Foi uma decisão sábia que, no entanto, chegou um pouco tarde e enfrenta o problema do baixíssimo nível de poupança do brasileiro (coisa aí de 17% do PIB).

Depois que falhou a tal Nova Matriz de Política Macroeconômica, o governo segue no escuro, na base da tentativa e erro, sem estratégia clara de saída e sem saber o que fará para reconquistar a confiança do produtor.

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