Teorias em xeque

O debate da economia tem sido frequentemente interditado, ou no mínimo empobrecido, por um excesso de engajamento político e ideológico

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2017 | 05h00

Não é de hoje que se observa a presença de um mal-estar entre os economistas de ponta, nos países maduros, diante da fragilidade das teorias dominantes na explicação da realidade e, sobretudo, das frustrações na superação dos obstáculos ao crescimento econômico. Registra-se uma crescente produção de pesquisas e estudos contestando as formulações vigentes e um esforço especial na busca de soluções novas e mais consistentes.

Na contramão dessa tendência, entre nós, o debate da economia tem sido frequentemente interditado, ou no mínimo empobrecido, por um excesso de engajamento político e ideológico. Contaminada pela mesma polarização que divide a sociedade, potencializada pelas redes sociais, a discussão sem preconceitos de novas construções teóricas capazes de produzir diagnósticos eficazes não tem encontrado muito espaço.

Alguma coisa, porém, parece estar começando a mudar nesse ambiente pouco estimulante. Análises menos apegadas a linhas estritas de pensamento e sugestões de políticas econômicas mais ecléticas têm sido divulgadas, com mais intensidade a partir do último trimestre do ano passado, quando ficou nítida a frustração com a evolução das perspectivas de crescimento em prazo não muito curto.

O rápido interesse produzido por um artigo do economista André Lara Resende, célebre coautor das teorias da inflação inercial brasileira, base do Plano Real, com a engenhosa solução da URV, publicado semana passada no jornal Valor, é o último e até agora mais contundente exemplar da nova safra de reflexões. Com uma pegada acadêmica e focado na tumultuada evolução das políticas monetárias desde o século passado, “Juros e conservadorismo intelectual”, texto do atual pesquisador sênior na Universidade Columbia, em Nova York, conclui, simplesmente, que a teoria monetária dominante nunca conseguiu compreender e dar soluções para as altas taxas de inflação crônica.

De acordo com Resende, a prescrição fundamental das políticas de juros – controlar a expansão da moeda e contrair a liquidez – “só provocou crises bancárias e recessões”. Se elevar juros deu no que deu, cortar juros também não teria dado em nada. Na verdade, subir a taxa de juros pode resultar em alta da inflação. Depois de mais de oito anos de intenso afrouxamento monetário nos Estados Unidos e Europa – e de três décadas no Japão –, a inflação permanece praticamente imóvel e o crescimento econômico claudicante. O experimento chegou ao que pode ser o seu fim de linha com a adoção, sem sucesso para romper com a deflação e impulsionar a atividade econômica, de taxas de juros negativas. Causa perplexidade específica o fato de taxas de juros negativas, no Japão, em lugar de estimular o consumo, acabaram reforçando a poupança.

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A política monetária conhecida só ‘provocou crises bancárias e recessões’, diz Lara Resende
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Essa reviravolta não é um fenômeno novo na história do pensamento econômico do pós-guerra. O sistema de metas de inflação, por exemplo, atualmente adotado em um número expressivo de países, inclusive o Brasil, e que para alguns é uma espécie de bíblia intocável na condução da política monetária, não passa apenas da última fórmula encontrada para enfrentar as fragilidades do sistema anterior – o das metas monetárias.

O controle da base monetária, por sua vez, substituiu a âncora cambial, estabelecida nos acordos de criação do Fundo Monetário Internacional, em Bretton Woods, Estados Unidos, em 1944, depois da derrubada da relação do dólar com o ouro, em 1971. Mas as próprias metas monetárias perderam função com as turbulências políticas e econômicas dos anos 70 e 80, notadamente as crises dos petrodólares, dando lugar, a partir do início da década de 90, às metas de inflação.

Menos de 20 anos depois, a política de juros que sustenta o sistema de metas de inflação é mais uma teoria em xeque. Lara Resende, por exemplo, agora inclina-se em acreditar que, em última instância, a âncora das “expectativas e da determinação da taxa de inflação é a política fiscal”.

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