Terceirização indiana completa ciclo

Milhares de indianos vão ao campus da Infosys Technologies, em Mysore, para aprender as mais refinadas técnicas de programação. Ultimamente, no entanto, bandos de estrangeiros circulam pelo gramados bem aparados.Muitos são americanos recém-formados - e alguns até recusaram vagas em empresas como a Google. Em vez disso, aceitaram um desafio proposto pela Infosys, a gigante tecnológica indiana: fazer um treinamento de seis meses em Mysore e voltar para trabalhar nos escritórios da companhia nos EUA.A Índia está terceirizando a terceirização. A transferência de tarefas - e empregos - para a Índia é uma velha tendência da economia global. Mas os salários em alta e a moeda mais forte na Índia, a demanda por trabalhadores que falem outras línguas que não o inglês e a concorrência de países que tentam imitar a Índia como abrigo de escritórios administrativos - entre eles China, Marrocos e México - estão desafiando esse modelo.Muitos executivos na Índia reconhecem que a terceirização, até agora mais concentrada em seu país, espalhará cada vez mais tarefas pelo planeta. Para Ashok Vemuri, um vice-presidente da Infosys, o futuro da terceirização é ''''transferir o trabalho de qualquer parte do mundo para qualquer parte do mundo''''. Para competir nessa área em mutação e enfrentar os novos rivais, as companhias indianas estão contratando trabalhadores e abrindo escritórios em países em desenvolvimento antes que seus clientes o façam.Em maio, a Tata Consultancy Service, rival indiana da Infosys, anunciou um novo escritório em Guadalajara, México; a empresa já tem 5 mil empregados no Brasil, Chile e Uruguai. A Cognizant Technology Solutions, com a maioria das operações na Índia, agora abriu escritórios em Phoenix, nos EUA, e Xangai, na China.A Wipro, outra companhia indiana de serviços de tecnologia, tem escritórios de terceirização em vários países, entre eles Canadá, China, Portugal, Romênia e Arábia Saudita. E anunciou no mês passado a inauguração de um centro de desenvolvimento de software em Atlanta, Geórgia, que empregará 500 programadores em três anos.Numa reflexão poética sobre a nova face da terceirização, o presidente da Wipro, Azim Premji, disse neste ano a analistas de Wall Street que estudava a instalação de centros em Idaho e Virgínia, além da Geórgia, para aproveitar as vantagens dos ''''Estados americanos menos desenvolvidos'''' (a renda per capita da Índia é de menos de US$ 1 mil por ano).Já a Infosys está construindo um verdadeiro arquipélago de escritórios - no México, República Checa, Tailândia e China, além de regiões de baixo custo nos Estados Unidos. A empresa quer se tornar uma mediadora global da terceirização: quer ser chamada sempre que uma companhia precisar realizar tarefas em outro lugar, mesmo que seja na mesma rua.É uma ambição peculiar para uma empresa que simboliza o fluxo de tarefas do Ocidente para a Índia. Os 75 mil empregados da Infosys são na maioria indianos e estão na Índia. Respondem pela maioria das vendas de US$ 3,1 bilhões da empresa em 12 meses até 31 de março, para clientes como Bank of America e Goldman Sachs.''''A Índia continua sendo o lugar número 1 da terceirização'''', afirmou o executivo-chefe da companhia, S. Gopalakrishnan.Mesmo assim, a empresa abriu escritório nas Filipinas em agosto e, um mês antes, comprou escritórios na Tailândia e na Polônia, da holandesa Philips. Em cada centro de terceirização, os empregados locais trabalham com pouco suporte dos diretores indianos.A Infosys afirma que, com a experiência da terceirização na Índia, aprendeu a dividir um projeto, entregar cada parte a trabalhadores adequados, assegurar-se da qualidade e então exportar aos clientes um produto final remontado. A companhia argumenta que pode clonar seus escritórios indianos em outros países e treinar empregados chineses, mexicanos ou checos melhor do que as empresas de terceirização locais.''''Somos pioneiros nessa movimentação do trabalho'''', disse Gopalakrishnan. ''''Esses países não têm experiência nem maturidade para fazer isso. E é isso que estamos levando a esses países.'''' Alguns analistas comparam a estratégia com a penetração japonesa na indústria automobilística americana na década de 70. Assim como os japoneses aprenderam a fabricar carros nos EUA sem trabalhadores japoneses, os vendedores indianos estão aprendendo a terceirizar sem indianos, afirmou Dennis McGuire, presidente da TPI, consultoria de terceirização sediada no Texas.Embora o trabalho que não passa pela Índia ainda seja apenas uma pequena parte dos negócios da Infosys, ele está crescendo. A companhia é bastante sigilosa, mas executivos concordaram em descrever alguns dos novos projetos sem identificar os clientes.Num dos projetos, um banco americano queria um sistema computadorizado para administrar um programa de empréstimos para clientes hispânicos. O sistema tinha de operar em espanhol. Também precisava levar em conta variáveis específicas para os clientes hispânicos: muitos deles, por exemplo, enviam dinheiro a parentes no exterior, o que pode afetar seus saldos. O banco imaginou que uma equipe mexicana teria as habilidades lingüísticas e o conhecimento de nuanças culturais ideais para o trabalho.Em vez de procurar uma empresa mexicana ou uma empresa americana com operações mexicanas, contudo, o banco optou pelos serviços de três dúzias de engenheiros da Infosys, que acabara de abrir um escritório em Monterrey, México.Essa é a nova terceirização: uma companhia nos EUA paga uma empresa indiana a 11 mil quilômetros para que lhe forneça engenheiros mexicanos que trabalham 240 km ao sul da fronteira americana.Também na Europa algumas companhias agora contratam a Infosys para operar escritórios administrativos em seus próprios quintais. Quando uma fabricante americana, por exemplo, precisou de um sistema de administração de contas de vários fornecedores de suas fábricas em países europeus, recorreu à companhia indiana. As várias instalações da fabricante escaneiam as faturas e as enviam a um escritório da Infosys, onde cada conta é entregue à equipe que fala a língua correspondente. As equipes, conectadas ao sistema computadorizado do cliente, verificam as encomendas e enviam o pagamento aos fornecedores.Mais de dez línguas são faladas no escritório da Infosys em Brno, na República Checa. O programa americano em Mysore destina-se a manter aberto esse canal de diversidade. A maioria dos aprendizes não tem conhecimentos de software. Ensinando novatos, a Infosys economiza dinheiro e atrai funcionários dispostos a recusar vagas em companhias mais conhecidas para aproveitar a chance de aprender uma nova habilidade.*Anand Giridharadas escreve para o The New York Times

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