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José Roberto Mendonça de Barros
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Teremos novo superciclo de commodities?

Mesmo com as vacinas, mundo continuará bem complicado

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

21 de fevereiro de 2021 | 05h00

Nas últimas semanas, vários artigos começaram a discutir a possibilidade de estarmos entrando num ciclo de alta de preços de commodities, semelhante àquele ocorrido no início deste século. Razões para essa hipótese não faltam: em relação a março do ano passado, quando boa parte do mundo parou por conta da pandemia, os preços em dólar do minério de ferro estavam 90% mais elevados, os do aço, 118%, os da soja, 54%, e os do milho, 60%.

Os defensores dessa tese aliam três grupos de observações. 

Na última década, os preços das mercadorias foram relativamente baixos, fazendo com que os investimentos em nova capacidade produtiva fossem se reduzindo. Assim, em muitos casos não há folga disponível na oferta e, dado o fato de que novos projetos levam bastante tempo para se completar, teríamos uma situação na qual há uma baixa elasticidade de resposta da produção frente a um aumento da demanda no curto prazo.

O segundo ponto destacado nessas análises projeta uma forte elevação da procura por esses bens nos próximos meses, uma vez que o avanço da vacinação em massa nos países ricos do hemisfério norte deve liberar o relacionamento social ao longo do segundo semestre. Neste momento, a vontade reprimida de consumir, os recursos poupados durante o distanciamento social e a continuidade das políticas expansionistas alavancarão uma rápida expansão dos mercados. Isso se somará ao crescimento que já ocorre na China e em outros países asiáticos. 

Ao lado disso, mudanças induzidas e reforçadas pelo período de pandemia levarão a um maior consumo de certos materiais, especialmente metais.

Falo aqui de digitalização, de energia renovável, de carros elétricos e baterias, e do processo de descarbonização em grandes complexos industriais. 

Em outras palavras, a pressão de demanda seguiria forte. 

O terceiro fator relevante neste processo resulta da gigantesca liquidez internacional, que está levando a uma explosão de compra de certos ativos que representem esses setores: mercados futuros, ações e bônus. Em vários casos, existem posições vendidas que podem gerar, frente a uma elevação da demanda, uma situação de short squeeze, nos moldes do que ocorreu recentemente com a ação da GameStop.

Ativos financeiros representando os segmentos de commodities podem subir muito, completando o caso a favor de um novo ciclo. 

Temos aqui uma disputa entre uma recuperação cíclica e a consolidação de uma nova tendência.

Vale dizer que o exposto até aqui já nos diz que os preços de todas as mercadorias continuarão fortes neste ano. Alimentos, metais e petróleo continuarão trazendo para os países produtores, como o Brasil, o pacote completo: ganho de renda (termos de troca), fartura de divisas, tensões nas cadeias produtivas e pressões inflacionárias. 

E o que se pode dizer das tendências para os próximos anos? 

Como o espaço é muito pequeno, aqui vai apenas um breve resumo.

Petróleo: os preços estão subindo apenas porque Opep e Rússia conseguiram organizar a substancial redução na produção. Existe, pois, capacidade ociosa no sistema. Entretanto, fatores de curto prazo, como a atual tempestade no Texas e os movimentos do mercado financeiro, poderão elevar os preços acima de US$ 70. Por outro lado, elevações de produção em outros países, como o Brasil, o crescimento da energia solar e da eólica, a entrada de veículos elétricos e a maior eficiência no sistema produtivo não parecem sustentar uma tendência mais persistente de alta de preços. 

Alimentos: a situação estatística dos mercados de grãos e proteínas está bastante apertada, tendo como pano de fundo a crise na produção de suínos na China. Eventuais problemas climáticos terão um efeito amplificado sobre os preços. Entretanto, boa parte do mundo sairá mais pobre da pandemia e a oferta agrícola tende a ser razoavelmente elástica num prazo de dois anos à frente. Como no caso do petróleo, teremos problemas garantidos no curto prazo, mas tenho dificuldades de ver um boom de preços consistente a médio prazo. 

Minérios e metais: talvez seja o caso mais consistente. Pacotes de investimento em infraestrutura, como o do Presidente Biden, e novos equipamentos e tecnologias farão a demanda crescer significativamente. O longo tempo de maturação de novos projetos também contribuirá para tornar o equilíbrio mais distante.

Mesmo com as vacinas, o mundo continuará bem complicado.

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

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