Marcelo Camargo/Agência Brasil
A ministra da Agricultura, Tereza Cristina. Marcelo Camargo/Agência Brasil

Tereza Cristina afirma que exportação agropecuária em alta não ameaça abastecimento interno

Segundo a ministra da Agricultura, acompanhamento dos estoques tem sido constante e cumprimento de contratos com parceiros internacionais garante confiança para o Brasil nas relações comerciais

Julliana Martins, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2020 | 12h40

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, afirmou nesta sexta-feira, 22, que o aumento das exportações agropecuárias do Brasil não ameaçam o abastecimento do mercado interno. Em transmissão ao vivo na internet sobre oportunidades e perspectivas do agronegócio no cenário da covid-19, promovida pelo Instituto de Engenharia, ela ressaltou que as exportações fluem bem e que o setor continua conseguindo abastecer com os mercados interno e externo.

Segundo ela, o governo federal acompanha com atenção questões relacionadas ao abastecimento e aos preços para o consumidor final. "Além de abastecer o mercado interno, ainda estamos cumprindo os contratos com os parceiros internacionais e isso traz confiança para o Brasil nas relações comerciais", disse.

A ministra acrescentou que todos os dias o ministério faz um diagnóstico para cada setor, na tentativa de prever o que pode vir no futuro, e afirmou que o acompanhamento dos estoques é fundamental para garantir a segurança alimentar do Brasil e o cumprimento dos contratos comerciais.

Nesse sentido, Tereza Cristina informou que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) está sendo reformulada para que também seja uma empresa de inteligência estratégica, controlando tanto os estoques internos quanto o que está disponível para ser exportado. "É óbvio que, se houver algum problema de abastecimento, o mecanismo que temos é fechar as exportações, como fez a Rússia com o trigo", afirmou, acrescentando que não há preocupação nesse sentido com nenhuma produto agrícola.

Com a pandemia do novo coronavírus, o País chegou a enfrentar problemas logísticos, mas os embarques não foram afetados significativamente e os gargalos já foram solucionados, com um trabalho integrado entre os ministérios da Agricultura e da Infraestrutura, envolvendo também os Estados e municípios, disse a ministra.

Segundo ela, o agronegócio brasileiro é um dos setores que estão mais preparados para contribuir com a retomada econômica do País no cenário pós-covid-19. Isso ocorre, disse, especialmente porque, como o novo coronavírus só chegou ao Brasil em fevereiro, o ministério teve tempo para se preparar, identificando os problemas que o setor poderia ter. "Criamos imediatamente um grupo de acompanhamento e esse trabalho conseguiu nos dar uma noção dos setores que seriam mais afetados."

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Desempenho do agronegócio na pandemia sustenta exportações brasileiras

Entre fevereiro e abril vendas de soja e carnes para o exterior cresceram 24% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as exportações em geral subiram apenas 0,7%

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2020 | 12h40

BRASÍLIA - Em pouco mais de três meses da crise global provocada pelo novo coronavírus, o agronegócio é o setor que apresenta os melhores resultados no Brasil, sustentando boa parte das vendas de mercadorias para outros países. 

De fevereiro a abril, as exportações de produtos em geral somaram US$ 52,822 bilhões, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia. Somente as vendas de soja e derivados e de carnes - dois dos principais itens da pauta brasileira - somaram US$ 16,438 bilhões no período, cerca de um terço do total.

As vendas de soja e derivados e de carnes no intervalo de fevereiro - quando os efeitos da covid-19 sobre o comércio global se intensificaram - a abril mostram um aumento de 24% em relação ao mesmo período do ano passado. Em comparação, as exportações em geral de fevereiro a abril subiram apenas 0,7%.

Para o economista Simão Davi Silber, doutor em Economia Internacional e professor da Universidade de São Paulo (USP), o desempenho positivo do agronegócio, mesmo neste momento de crise global, tem uma explicação simples. “A primeira necessidade é ‘comer’. E, para proteicos, o Brasil é fundamental”, afirma.

Mesmo assim, o avanço do coronavírus no Brasil começa a preocupar os compradores estrangeiros. A China já recomendou às empresas de alimentos que aumentem os estoques de grãos e oleaginosas. Uma das principais questões levantadas pelos chineses, segundo a agência Reuters, é como o avanço da pandemia no Brasil poderá prejudicar o envio de produtos como carne, soja e outros grãos. 

Os países da Ásia são os principais clientes do Brasil. Com uma população superior a 1,4 bilhão de pessoas, China, Hong Kong e Macau compraram de fevereiro a abril o equivalente a US$ 17,734 bilhões em mercadorias brasileiras - a maior parte do setor agrícola. De cada US$ 100 em vendas feitas pelo País, um terço (US$ 33,57) foi para a região.

Além da forte demanda dos países asiáticos, consumidores de alimentos, o agronegócio é favorecido pelo câmbio. A pandemia do novo coronavírus e a crise política que atinge o governo de Jair Bolsonaro fizeram o dólar disparar nos últimos meses em relação ao real. Na quinta-feira, 21, a moeda americana à vista encerrou a sessão cotada a R$ 5,5818. A alta acumulada em 2020 é de 39%. Para as companhias do agronegócio, isso significa mais reais no caixa para cada dólar de exportação.

Esse cenário faz o setor aparecer como uma espécie de “ilha de bonança” no Brasil, em meio à derrocada econômica na pandemia. Dados do relatório Focus, do Banco Central, mostram que os economistas do mercado financeiro projetam atualmente retração de 5,12% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020. Enquanto o PIB de serviços - fortemente afetado pelo isolamento social - deve despencar 4%, o PIB da agropecuária pode subir 2,48%, conforme as projeções dos economistas.

“É possível que a queda do PIB no Brasil seja menor por conta do PIB agrícola”, comenta a economista Vitoria Saddi, professora do Insper em São Paulo. Com a experiência de ter atuado em instituições internacionais como JP Morgan e Citibank, Saddi acredita que o comércio global após a pandemia poderá trazer oportunidades ao Brasil.

“Em momentos de crise profunda, como foi a da década de 1870 nos EUA (o Pânico de 1873) ou a Grande Depressão (iniciada em 1929), o mundo tende a se fechar”, alerta a economista. “É quase como um subproduto da crise o fechamento do comércio no mundo.”

Ainda assim, países com grande população a ser alimentada, como a China, precisarão continuar a acessar as cadeias globais de comércio. “Tendo a pensar que talvez os países venham a reprimir e impor sanções à China”, afirma Saddi. “Isso seria uma oportunidade para os produtos brasileiros.”

Guerra comercial       

Desde antes da covid-19, Estados Unidos e China vinham protagonizando episódios de guerra comercial, na esteira de uma política mais protecionista adotada pelo presidente norte-americano, Donald Trump. Nas últimas semanas, Trump elevou o tom das críticas contra a China e passou a culpar o país asiático pela pandemia.

No Brasil, esse cenário tem sido discutido pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Em comentários públicos, ele vem pontuando que, após a pandemia, o comércio global poderá passar por mudanças - não necessariamente positivas.

Na última quarta-feira, 20, porém, Campos Neto lembrou que o setor agrícola brasileiro se tornou uma potência ao longo dos anos. “No resto, ficamos para trás dos países que se inseriram na cadeia de comércio”, afirmou, durante evento ligado ao setor de infraestrutura.

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Brasil é ‘raia miúda’ na luta comercial entre EUA e China, diz economista

Para o professor da USP Simão Davi Silber, o País não deve escolher um lado na disputa entre os dois gigantes

Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2020 | 12h40

BRASÍLIA - A pandemia do novo coronavírus, que atinge a economia de todos os países ao redor do mundo, pode abrir espaço para um maior protecionismo no comércio global. Mas, para Simão Davi Silber, doutor em Economia Internacional e professor da Universidade de São Paulo (USP), o resultado pode ser negativo inclusive para as duas maiores economias do planeta: Estados Unidos e China.

Em entrevista ao Estadão/Broadcast, ele afirmou que o Brasil, nesse cenário, não deve escolher um lado na disputa dos dois gigantes. “Nós somos raia miúda. Quem dominará o mundo é a China ou os EUA”, afirmou.

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Para o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, depois da pandemia o comércio internacional será diferente do que vimos até hoje. O que o senhor visualiza?

Desde 2017, o número de conflitos comerciais já vinha aumentando. Isso bem antes do momento atual. Quem começou foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e as retaliações vieram da China, da Europa e do Canadá. Foi tiro para todo lado. O que a gente sabe é que, historicamente, depois de uma boa briga todo mundo se machuca e algum tipo de cooperação acaba surgindo. Como o comércio internacional vai ter uma queda muito significativa com a pandemia, teremos duas forças antagônicas funcionando, uma mais nacionalista e outra mais internacionalista. Mas existe um ditado popular que vale também para a economia: um péssimo acordo é melhor do que a melhor briga.

Há risco de aumento das barreiras comerciais?

Como os países estarão fragilizados, há essa possibilidade. Você tem duas forças, antagônicas, e se ocorrer o que vimos nos anos 1930, no meio da Grande Depressão, quando todo mundo se fechou ao comércio internacional, a crise mundial vai se estender por muito mais tempo. Porque o comércio internacional é um mecanismo muito grande de expansão de mercado. Ainda mais hoje, com as cadeias internacionais de suprimentos. Se a China parar, você não consegue montar celular no Vale do Paraíba. Então, a interdependência é de tal ordem que o custo econômico é gigantesco, comparado com o benefício político. Agora, se houver uma brutal irracionalidade, pode haver aumento do protecionismo.

Na década de 1930, ocorreu um fechamento de fronteiras ao comércio internacional.

Começou nos EUA e depois foi para todos os outros países. Na época, passou-se uma lei no Congresso americano multiplicando por 20 vezes o imposto de importação. Com isso, houve um segundo mergulho na depressão. Isso ocorre porque há o corte de uma válvula de demanda e de oferta. Há quem compre seu produto, e você depende da compra de produtos dos outros. A pessoa que mora no Polo Norte não vai produzir café, mas sim o Brasil, a África, a Colômbia. Não tem jeito. Na Grande Depressão, o que ocorreu foi que, quando ocorreram grandes turbulências e houve protecionismo, na sequência os países pararam e começaram a negociar.

Existe uma avaliação de que, por conta da pandemia, os países ficaram muito à mercê da China, grande produtora de equipamentos e insumos para saúde. Há ainda uma avaliação de que os países ficaram dependentes da Índia, que é um grande produtor do setor farmacêutico. Pode ocorrer algum movimento de fechamento comercial para setores específicos, como o de saúde? 

Acredito que não. É muito difícil você substituir, com custos razoáveis, uma produção que vem de fora. O grande problema da economia é que os recursos são escassos. Se um país começar a se meter a produzir muito aquilo que não sabe fazer, ele vai deixando de fazer o que sabe fazer direito. Pode ser que, em alguns setores onde o país consiga produzir um pouco mais, algo aconteça. Mas não vejo isso como um movimento importante, particularmente em países em desenvolvimento, que são pobres. Eles não podem se aventurar em áreas nas quais não têm a expertise.

Após a pandemia, o fato de o Brasil ser um país ainda muito fechado para o comércio será um impeditivo para a recuperação econômica? 

Sim. Hoje o Brasil não tem acesso à moderna tecnologia, para fazer uma divisão de trabalho mais eficiente. Ainda estávamos, até pouco tempo atrás, querendo produzir tudo aqui dentro. E ninguém consegue ser bom em tudo. Sem dúvida, o Brasil é um país muito fechado. Então, gradualmente, ele teria que ir nessa direção, de abertura, para ter acesso a máquinas, equipamentos e componentes modernos.

O setor agrícola será o mais importante após a pandemia? Ele vai liderar a retomada comercial do Brasil? 

Com certeza. Como haverá muita capacidade ociosa na economia, muito desemprego, a retomada será relativamente forte no ano que vem. E não tenha dúvida: a primeira necessidade é comer. E, para proteicos, o Brasil é fundamental. Agora, veja o seguinte: por que somos tão bons no agronegócio? Porque 50 anos atrás se fez a Embrapa . Foi estratégico. Isso é tecnologia. Não adianta querermos reinventar a roda. Se houver uma luta estratégica, será entre gigantes, não será com a gente. Nós somos raia miúda. Quem dominará o mundo é a China ou os EUA.

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