Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Tereza Cristina deixa Washington sem definição sobre reabertura dos EUA para carne brasileira

Mercado americano está fechado para a importação da carne bovina in natura brasileira desde 2017

Beatriz Bulla, correspondente, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2019 | 15h04

WASHINGTON - A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deixou Washington nesta quarta-feira sem uma definição por parte dos Estados Unidos sobre a reabertura do mercado americano para a importação de carne bovina fresca do Brasil. O pleito foi tema da reunião da ministra com o secretário de Agricultura dos EUA, Sonny Perdue.

Ao deixar o encontro, a ministra afirmou que os americanos dirão “em breve” se as informações prestadas pelo governo brasileiro são suficientes para retomar as importações de carne bovina in natura ou se os EUA enviarão uma nova missão ao País para avaliar as condições sanitárias. Os americanos, segundo ela, não se comprometeram com prazos.

“A carne é um assunto extremamente técnico. Eles estão terminando a análise dos dados que o Brasil enviou rapidamente na consulta que foi feita e eles vão, em algumas semanas, me dar qual será o próximo passo, se vão precisar ir lá (no Brasil). Se forem lá, (dirão) a data marcada, enfim, como é que vamos fazer daqui pra frente”, afirmou a ministra, ressaltando que espera uma resposta “em breve”.

Questionada se os americanos deram sinalização de quanto tempo essa análise pode levar, ela afirmou que “em breve pode ser esse mês, no mês que vem ou no ano que vem”. De Washington, a ministra viajou a Nova York, onde terá encontros com investidores estrangeiros antes de voltar ao Brasil.

O mercado americano está fechado para a importação da carne bovina in natura brasileira desde 2017, quando se iniciou uma longa discussão entre os dois países para superar questões sanitárias citadas pelos americanos como entrave para reabrir a possibilidade de compra do produto brasileiro.

Com a visita do presidente Jair Bolsonaro ao presidente americano, Donald Trump, em março, e o anúncio de uma “nova relação” entre os dois governos, os EUA concordaram em agendar uma inspeção em frigoríficos brasileiros - o que vinha sendo postergado pelo Departamento de Agricultura americano. A inspeção sanitária foi feita em julho, mas o relatório final só foi divulgado em outubro, com quatro pontos que ainda são obstáculo para reabrir o mercado.

O Brasil enviou a resposta aos questionamentos dos americanos e espera o aval final do país. Os EUA sugeriram agendar uma nova missão para tentar destravar a relação - mas a ministra pretendia dissuadir o governo Trump dessa ideia na reunião em Washington nesta quarta-feira. Ainda não há definição se os americanos insistirão na necessidade de uma nova visita. Parte do governo brasileiro avalia que o agendamento de uma missão pode jogar para o fim do primeiro semestre do ano que vem a reabertura de mercado.

O governo brasileiro tem sugerido nas reuniões que as imposições sobre o mercado de carne bovina parem de ser feitas “a conta gotas” e pedem que os Estados Unidos sinalizem de uma só vez o que falta ser feito para retomar as importações. De janeiro a março de 2017, último ano antes de os EUA fecharem o mercado para a carne brasileira, o Brasil exportou 11,8 mil toneladas de carne in natura para os americanos, o que representou US$ 49 milhões. Apesar de os EUA não serem os grandes importadores do produto, a venda para o país é vista como importante referência para as operações internacionais.

A ministra minimizou a importância da discussão sobre a carne bovina e a relevância da abertura do mercado americano. Segundo ela, esse foi “o último assunto” tratado na reunião com Perdue e o mercado está aquecido com exportações para a China. “Hoje temos um problema seriíssimo no Brasil, a arroba explodiu, o consumidor está lá dizendo 'ahhh subiu muito', todo mundo exportando carne para a China. É importantíssimo o mercado americano? É. Mas vamos fazer os trâmites com a maior tranquilidade. O que é que eles me prometeram? Que em breve eu terei notícia sobre a data e se as informações que passamos são suficientes ou não”, afirmou a ministra.

Os americanos aumentaram os testes de qualidade na carne in natura importada do Brasil depois da Operação Carne Fraca, em 2017. Três meses depois da repercussão internacional da operação, o Departamento de Agricultura dos EUA anunciou a medida, após testes de qualidade da carne brasileira que entra no país reprovarem a quantidade de abscessos presentes na carne bovina. Na época, os produtores brasileiros informaram que uma reação à vacina contra febre aftosa teria causado o problema. Desde então, o Brasil entrou em uma longa negociação e submeteu aos EUA uma série de formulários elaborados pela equipe americana para certificar a qualidade da carne bovina fresca.

Tereza Cristina deve voltar a Washington em fevereiro para tratar do AG5, grupo que reúne os ministros da Agricultura do Brasil, dos Estados Unidos, da Argentina, do Canadá e do México. Segundo ela, há a possibilidade de tornar o grupo o “AG7”, com inclusão de novos países que sejam importadores de grãos. “Marcamos uma data em fevereiro para estarmos juntos aqui, para falar sobre o AG5, que pode ser AG7, para tratar de padrões, novos produtos”, disse.

A ministra também debateu, na reunião com Perdue, negociações sobre etanol e trigo em uma “conversa muito amistosa”, segundo ela. O Brasil aceitou criar uma cota para importação de trigo de fora do Mercosul sem Tarifa Externa Comum (TEC) de 10%. Um volume de até 750 mil toneladas por ano foi aprovado no último dia 5 pelo Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex). No início do agosto, o governo brasileiro também atendeu a um pleito dos americanos para reavaliar a cota de importação de etanol imposta pelo Brasil.

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