Terra atingida por Chernobyl vai produzir etanol para a UE

Áreas contaminadas podem tornar produto competitivo com o brasileiro

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

15 de abril de 2008 | 00h00

Na próxima semana, o mundo marca os 22 anos do pior desastre nuclear do mundo, com a explosão da Usina de Chernobyl, na Ucrânia. Territórios inteiros do país, além da Bielo-Rússia e outros vizinhos, foram contaminados e a produção agrícola deverá ser retomada somente em 600 anos. Porém, a alta dos preços do petróleo e das commodities deve mudar a história. Uma empresa européia acaba de assinar um acordo com o governo da Bielo-Rússia para usar as terras contaminadas para produzir cereais que serão usados como matéria-prima do etanol. Na Ucrânia, alemães estudam investimentos parecidos nas áreas contaminadas para a produção do etanol.Para a usinas, utilizar a área contaminada pode ser a única forma de competir com o etanol brasileiro no mercado europeu. A primeira empresa responsável pela idéia foi a Greenfield Project Management, com sede na Irlanda. O objetivo da empresa é usar as vastas extensões de terras contaminadas, que não podem produzir alimento para o consumo, para cultivar produtos que seriam transformados em biocombustíveis. Pelas regras da União Européia, 5,75% do combustível usado nos países até 2010 terá de vir do etanol. Até 2020, esse porcentual será elevado a 10%.Com uma concorrência cada vez maior pela terra, a saída dos irlandeses foi negociar o uso da terra contaminada. Nos últimos anos, a região de Chernobyl e as florestas nos países vizinhos se transformaram em verdadeiros laboratórios a céu aberto. Isso porque, diante da contaminação, não foram tocadas por duas décadas. A vegetação passou a dominar, mas com mutações geradas pela radiação que jamais haviam sido encontradas pelos cientistas. O pior ocorreu na Bielo-Rússia, que tem a fronteira a poucos quilômetros de Chernobyl - 70% da nuvem radioativa foi levada para o país e 20% do território foi contaminado. O custo do desastre chegou a US$ 234 bilhões, além dos inúmeros casos de câncer na população.Mas a Greenfield aposta que, com tecnologia e medidas de segurança para os trabalhadores, a terra pode ser cultivada. Segundo a empresa, estudos realizados indicam que a recuperação da terra e a descontaminação serão mais rápidas se o cultivo voltar. "Acredito que alimentos poderão ser produzidos para consumo humano em 60 anos, se começarmos a utilizar a terra", disse ao Estado o porta-voz da empresa, Basil Miller. Segundo ele, uma primeira usina está em construção para produzir 550 milhões de litros de etanol, que seriam exportados à UE. Nos próximos meses, a usina fará os primeiros testes para saber qual o grau de radiação do combustível. A empresa plantará cereais e beterraba para extrair o etanol. Por enquanto, institutos de vários países, como a Suécia, Dinamarca e Estados Unidos, estão envolvidos no estudo. "Os primeiros testes foram encorajadores", disse Miller. Ele espera o sinal verde para a produção do etanol ainda neste ano.Miller admite que só produzindo nessas terras abandonadas é que o custo será equivalente ao do Brasil. "O etanol brasileiro é o mais competitivo do mundo e precisamos ser criativos para chegar ao mesmo ponto. O Leste Europeu é provavelmente o único lugar do mundo onde os custos de produção são parecidos com o do Brasil."

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