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Terra sem lei

O que será deste Rio de Janeiro desgovernado, cujos candidatos para 2018 não são nada animadores?

Suely Caldas*, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2017 | 05h00

São 340 assaltos por dia no Estado, 14 só em Copacabana; 2.718 homicídios no primeiro semestre; 150 carros roubados diariamente, e seguradoras rejeitam operações de seguro; de tantos furtos, caminhoneiros recusam-se a entregar mercadorias na cidade; e bares e restaurantes fecham as portas por falta de clientes, que temem sair de casa à noite e serem assaltados. A população do Rio de Janeiro vive com medo, sobressaltada e tem múltiplas histórias de violência vividas e contadas. Com serviços públicos em colapso, o Estado falido e 276 mil servidores com R$ 973 milhões em salários atrasados e sem receber o 13º do ano passado, o governador Pezão resolveu gastar R$ 2,5 milhões para contratar um jatinho de luxo para servi-lo.

É a “terra sem lei”, como chamou a procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Uma terra de descalabro, abandono, mas também de revolta, muita revolta. Revolta contra quem deveria proteger a cidade contra o crime, mas são os primeiros a cometer os piores crimes de roubo, corrupção, desvio do dinheiro da saúde, da educação. Um escárnio com a população pobre que neles confiou o voto e os elegeu.

Três ex-governadores presos, o atual investigado, um ex-prefeito da capital e o atual sob suspeita, a cúpula do Poder Legislativo também presa, deputados, ex-secretários de Estado, empresários comparsas, todos reunidos no banho de sol do Presídio de Benfica, deliciando-se com a sala de cinema particular montada com telão de TV, aparelhos de som e DVD e dezenas de filme na prateleira – a sala foi desativada depois que a imprensa denunciou mais este vergonhoso privilégio.

Já condenado a 72 anos de prisão e réu em mais 13 processos, o ex-governador Sérgio Cabral montou no Rio uma rede de crimes e cumplicidade que superou em ousadia o PT do mensalão e do petrolão. Como o PT, tinha por objetivo financiar campanhas eleitorais e prolongar o tempo do grupo no poder. Para isso, ocupou funções-chave no Executivo, no Legislativo e no Tribunal de Contas do Estado (TCE). Este último levava propina para não ver as fraudes e aprovar as contas do governo. Dos 7 conselheiros, 6 foram presos. Hoje, estão soltos e afastados da função.

Mas o objetivo maior era enriquecer os integrantes do grupo. Só da Saúde e do Instituto de Traumatologia e Ortopedia a gangue desviou R$ 500 milhões, além de vender precatórios, isenções fiscais a empresários e desviar dinheiro de obras do Maracanã, do PAC das Favelas, do arco metropolitano e do Complexo Petroquímico do Rio. A cada passo das investigações, mais prisões, como as dos últimos dias, que lotaram o Presídio de Benfica com a mulher de Cabral, Garotinho e a mulher Rosinha, o chefe do Poder Legislativo, Jorge Picciani (PMDB), e seus dois filhos, mais dois deputados, ex-assessores de Cabral e empresários amigos.

Outro dia o ministro da Justiça, Torquato Jardim, foi obrigado a desculpar-se por ter denunciado sociedade entre o comando da Polícia Militar e o crime organizado no Rio. Pois bem, na quarta-feira foi escalado para chefiar o Centro de Comando das UPPs o major Alexandre Frugoni, o mesmo que foi preso em outubro, em flagrante (depois solto), com drogas e armas com numeração raspada encontradas na UPP do Caju, que ele comandava. Mais: em operação patética e destemida, o diretor do Presídio de Benfica libertou Picciani e os deputados Paulo Melo e Edson Albertassi (voltaram no dia seguinte) sem nenhum alvará de soltura expedido pela Justiça. Dias antes, Albertassi havia sido nomeado pelo governador Pezão conselheiro do TCE, também para não enxergar ilícitos nas contas do governo. Ou seja, mesmo presos e odiados pela população, eles continuam em ação.

O Rio só terá um novo governador em 2018. Falta um ano. Nada animadores, os candidatos são ou inexperientes ou investigados e comprometidos: Romário (PSB), Eduardo Paes (PMDB), Marcelo Freixo (PSOL), Bernardinho (Novo), Rodrigo Maia (DEM), Garotinho (PR) e Lindbergh Farias (PT). O que esperar deles?

Cidade de um povo amável e alegre, hoje revoltado e odiando os políticos, o que será deste Rio de Janeiro desgovernado?

* Jornalista

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