Terras raras da China e tolices diplomáticas

Disputa com o Japão mostra o quanto a China está perigosamente ansiosa para deflagrar uma guerra comercial

Paul Krugman The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2010 | 00h00

No mês passado, um navio pesqueiro chinês operando em águas controladas pelo Japão colidiu com duas outras embarcações da Guarda Costeira japonesa. O Japão deteve o capitão do pesqueiro; a China respondeu com o corte do fornecimento de matérias-primas cruciais ao Japão.

E não havia mais ninguém a quem recorrer: a China controla cerca de 97% das reservas mundiais de terras raras, minerais que desempenham um papel essencial em muitos produtos de alta tecnologia, entre eles peças de equipamento militar. É claro que o Japão libertou o capitão pouco depois.

Não sei quanto a você, mas essa história me parece muito perturbadora, tanto por causa do que ela revela a respeito da China quanto pelo que revela a nosso respeito. Por um lado, o episódio sublinha a frouxidão dos governantes americanos, que nada fizeram enquanto um regime irresponsável consolidava seu controle sobre materiais fundamentais.

Por outro lado, o incidente mostra um governo chinês perigosamente ansioso para apertar o gatilho, disposto a se lançar numa guerra comercial ao menor sinal de provocação.

Um pouco de contextualização histórica: os metais de terras raras são elementos cujas propriedades únicas desempenham um papel central em aplicações que vão de motores híbridos até a fibra ótica. Até meados da década de 80, sua produção era dominada pelos Estados Unidos, mas então a China entrou no jogo.

"No Oriente Médio há petróleo; na China, temos os terras raras", declarou em 1992 Deng Xiaoping, arquiteto da transformação econômica chinesa.

De fato, a China possui cerca de um terço das reservas mundiais de terras raras. Essa relativa abundância, combinada ao baixo custo de extração e processamento - que reflete ao mesmo tempo os salários baixos e os critérios ambientais precários desta exploração - permitiu aos produtores chineses praticar preços muito inferiores aos praticados pela indústria americana.

Temos de nos perguntar por que ninguém acionou o alarme enquanto isso estava ocorrendo, nem que seja simplesmente nos termos da segurança nacional. Mas os governantes simplesmente se mantiveram inertes enquanto a indústria americana de terras raras era fechada. Há ao menos um caso, em 2003 - época em que, de acordo com o governo Bush, considerações relativas à segurança nacional dominavam todos os aspectos das medidas americanas -, no qual os chineses literalmente empacotaram todo o equipamento de uma instalação de produção americana e o enviaram para a China.

Monopólio. O resultado foi uma posição de monopólio com a qual nem mesmo os tiranos do Oriente Médio que usam o petróleo para se manter no poder poderiam sonhar. E antes mesmo do incidente com o pesqueiro, a China se mostrou disposta a explorar ao máximo esse monopólio. Recentemente, o Sindicato Americano dos Metalúrgicos deu entrada numa queixa contra as práticas comerciais chinesas, intercedendo num âmbito em que as empresas americanas não estão dispostas a intervir por medo de uma retaliação chinesa. O sindicato colocou no topo de sua lista de queixas a imposição de taxas e restrições à exportação de terras raras por parte da China - medidas que conferem uma importante vantagem competitiva a empresas chinesas de vários setores.

Então ocorreu o episódio do pesqueiro. As restrições chinesas à exportação de terras raras já representavam uma violação dos acordos feitos pelo país antes de entrar para a Organização Mundial do Comércio. Mas o embargo à exportação de terras raras ao Japão foi uma violação ainda mais flagrante das leis comerciais internacionais.

Ah, e os representantes do governo chinês não melhoraram as coisas ao insultar nossa inteligência, afirmando que não houve embargo oficial.

Eles dizem que todas as exportadoras chineses de terras raras - algumas das quais pertencem a estrangeiros - decidiram simultaneamente interromper as vendas ao Japão por causa de seus sentimentos pessoais em relação ao país. Certo.

Que lições podemos aprender com a rixa dos terras raras? Primeiro, obviamente, o mundo precisa desenvolver fontes desses materiais fora da China. Há vastos depósitos de terras raras nos Estados Unidos e em outros países. Entretanto, a exploração desses depósitos e a construção das instalações necessárias para processar a matéria prima exigirão tempo e apoio financeiro. O mesmo pode ser dito a respeito de uma alternativa importante: a "mineração urbana", também conhecida como reciclagem dos metais de terras raras e outros materiais presentes nos dispositivos eletrônicos usados.

Segundo, a resposta da China ao incidente do pesqueiro é - sinto dizer - mais uma prova de que a mais nova superpotência econômica mundial não está preparada para assumir as responsabilidades que acompanham tal status.

Normalmente, percebendo que têm uma participação importante no sistema internacional, as grandes potências econômicas se mostram muito hesitantes em recorrer à guerra econômica, mesmo diante de sérias provocações - basta reparar em como os governantes americanos agonizaram e contemporizaram em relação ao que fazer frente à grosseira política chinesa protecionista de manipulação da taxa de câmbio. A China, no entanto, não demonstrou nenhuma hesitação em usar sua força comercial para alcançar seus objetivos numa disputa política, numa clara - apesar de não admitida - violação das regras comerciais internacionais.

Somando o caso dos terras raras ao comportamento chinês em outras frentes - os subsídios estatais que ajudam as empresas do país a obter contratos importantes, a pressão exercida sobre as empresas estrangeiras para que mudem suas instalações para a China e, acima de tudo, a política de distorção cambial -, o resultado é o retrato de uma superpotência econômica imprevisível, que não se dispõe a jogar pelas regras. E a questão é: o que o restante de nós vai fazer a respeito disto? TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

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