Terremoto

O rebaixamento dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos (conhecidos por treasuries) por uma das mais importantes agências de classificação de risco, a Standard & Poors (S&P), deve agora provocar um terremoto no mercado financeiro global, de consequências nem um pouco previamente mensuráveis.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2011 | 00h00

Este é um acontecimento sem precedentes na história financeira global. O título do Tesouro americano ocupou até agora o posto de referência internacional em excelência de ativo. Não é mais. Um punhado de países (Alemanha, Canadá, Suiça, Holanda, Áustria, etc) terá uma dívida melhor do que a dos Estados Unidos.

A perda do primeiro A no conjunto de três equivale a admitir que passou a haver certo risco de calote da principal economia do mundo. Essa é consequência da insustentabilidade técnica da dívida do Tesouro americano, agora acima de US$ 14,3 trilhões, e da velocidade com que vai crescendo. O que a S&P está dizendo é que a atual equação entre receitas e despesas públicas do governo federal dos Estados Unidos não garante plena capacidade de que a dívida seja honrada.

Se a lei ou disposições estatutárias forem observadas, grande número de instituições não poderá agora manter treasuries rebaixados em carteira. São bancos centrais, fundos de pensão, seguradoras e fundos conservadores. Os treasuries também entram como garantia (colateral) em operações de recompra de outras dívidas. Por essas razões, deveria começar agora uma impressionante desova desses ativos. O problema é que não há com que substituí-los. Isso sugere que todo o mercado deverá agora adequar-se a uma situação nova. Além disso, muitas instituições só começarão essa operação de troca de ativos financeiros se mais de uma agência importante de classificação de risco rebaixar a qualidade do ativo.

De qualquer maneira, o dólar deverá perder valor nos mercados em relação ao ouro e às outras moedas fortes. Sempre que isso acontece, as commodities (especialmente petróleo e alimentos) aumentam de preço, em geral fixado em dólares. Por aí já se antevê forte potencial inflacionário que só poderá ser relativizado se a recessão derrubar a procura.

Uma rejeição em massa dos treasuries deverá aumentar seu rendimento (yield), porque menos dinheiro comprará o mesmo título, que paga juros fixos. Sempre que isso acontece, ficam estabelecidas condições para alta dos juros.

É preciso ver agora como reagirá o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), que recentemente avisou que um rebaixamento da qualidade da dívida americana seria "inadmissível e insustentável". Coincidentemente, terça-feira, reúne-se o Comitê de Política Monetária do Fed, já sob o impacto desse rebaixamento. Ficou mais provável que anuncie nova rodada de recompra de títulos do Tesouro, nos moldes das operações de afrouxamento monetário quantitativo.

Estão agora reforçadas as condições para que mais moeda estrangeira procure refúgio em economias emergentes, entre os quais a do Brasil. Dependendo do volume do desembarque de dólares, novas pressões sobre o câmbio interno devem acontecer. A economia brasileira está em melhores condições para enfrentar o tranco. Mas não se sabe ainda qual será a magnitude das ondas de choque.

O mercado financeiro abrirá amanhã atordoado. Levará bom tempo para absorver e precificar todas as consequências.

CONFIRA

Esforço inútil

Os altos funcionários do Tesouro dos Estados Unidos tentaram de tudo até o início da noite de sexta-feira para convencer os diretores da Standard & Poors de que falta consistência técnica para esse rebaixamento.

S&P Tea Party

É provável que dirigentes e políticos redobrem as críticas às agências de classificação de risco. Foi também o que fizeram há algumas semanas o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi. Vão dizer que a Standard & Poors foi mais fundamentalista do que a facção Tea Party do Partido Republicano.

Elas erraram

As agências foram fortemente criticadas em 2008 e 2009, por ocasião do estouro da bolha das hipotecas, por terem anteriormente atribuído nota máxima a ativos que logo em seguida foram considerados lixo tóxico. Mas desta vez não há como atacá-las. Alguém tem de examinar e atestar a qualidade dos títulos de dívida, sejam eles emitidos por países soberanos (tesouros nacionais) ou por empresas.

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