Terror para empresas aéreas brasileiras é o dólar

O refluxo de passageiros após os atentados a Nova York e Washington há um ano quase quebrou as companhias aéreas norte-americanas. No Brasil, a saúde financeira das empresas do setor piorou, mas o verdadeiro terror aqui foi a oscilação do dólar. Menos de 1% dos brasileiros desmarcaram seus vôos por medo de um novo ataque, calculam analistas do setor. A explicação é que pressão da moeda norte-americana se faz sentir em 50% dos custos operacionais das companhias e nos juros das dívidas. É também a sua alta que está impedindo o crescimento das viagens internacionais. Depois dos ataques, a partir de outubro de 2001, a taxa de câmbio ficou desfavorável e os custos se multiplicaram. Segundo o analista do Banco Itaú, Alexandre Torrano, o efeito mais imediato foi o aumento no seguro das aeronaves, calculado em dólar, e a criação do seguro contra terrorismo. Os custos do querosene de aviação e do leasing são o que mais pesam nos custos operacionais das aéreas. Cobrados em moeda norte-americana, representam hoje cerca de 27% e 22%, respectivamente, no custo das companhias, segundo o analista do setor, Carlos Albano. Segundo Torrano, além da taxa de câmbio desfavorável, um fator negativo para o Brasil foi a retração da economia. Em 2001, o Brasil enfrentou a crise energética e sofreu os efeitos da crise econômica argentina, um de seus principais mercados para exportação. O cenário influenciou um menor crescimento do PIB. O pacote de medidas para a indústria aérea, criado pelo governo na semana passada, pretende aliviar as companhias de algumas despesas por assumir o seguro contra atos terroristas e isentar o pagamento de imposto de renda sobre o leasing. Mas o setor ainda não está satisfeito e aguarda ansiosamente um aporte de capitais que não entrou no pacote. As empresas fizeram seus ajustes e tentam voltar à normalidade, o que não significa uma recuperação total. A Varig foi beneficiada pela falência da Transbrasil, que operava algumas rotas internacionais, e pelo recuo da TAM na disputa por esse mercado. Em julho, a Varig registrou uma participação de 87,47% no mercado dos vôos internacionais. Apesar disso, dados do relatório anual da empresa mostram que em 2001 houve uma redução de 3,1% no volume de passageiros por km em relação ao período anterior, graças à influência negativa do câmbio sobre os preços das passagens. Na comparação dos primeiros trimestres, houve uma diminuição de 3%. Isso se refletiu na recuperação das freqüências de vôo. Atualmente, a Varig possui 64 vôos semanais com destino a Nova York, Miami e Los Angeles, saindo do Rio e São Paulo. Antes dos atentados, ela operava 70 saídas e, em dezembro de 2001, em resultado dos atentados, registrava 56 vôos. Apostando nas rotas internacionais, a Varig lança em outubro um vôo semanal direto de Paris para Salvador e outro vindo de Frankfurt. A inibição das viagens internacionais por causa da desvalorização do real e a instabilidade pôde ser sentida no primeiro trimestre, o número de passageiros foi 31% menor do que o do mesmo período do ano passado, segundo a Travel Industry Association of America (Tia). Analistas são unânimes em afirmar que essa queda foi motivada pela alta do dólar, e não pelo medo de voar.A TAM, logo após os atentados, mudou sua estratégia e se voltou para o mercado interno. Eliminou os vôos para Frankfurt e Zurique e reduziu as saídas para a Argentina. Em 2001, registrou um crescimento de 31% na participação do mercado doméstico. Atualmente, possui vôos internacionais somente para Miami e Paris. Em julho, comemorou uma ocupação de 72% nos vôos para Paris, considerada surpreendente pela própria empresa. No mundo, o balanço pós-atentado não é animador. O tráfego de passageiros, segundo a International Air Transport Association (Iata), de janeiro a julho, registrou um movimento 7,5% menor do que no ano passado. Segundo a associação de transporte aéreo norte-americana, os efeitos do 11 de setembro ainda são sentidos pelas maiores companhias aéreas, principalmente as norte-americanas. A Iata acredita que uma recuperação da ordem de 6% deva acontecer somente em 2003. Para este ano, prevê uma queda de 3% no tráfego de passageiros.A associação, que representa 280 companhias aéreas de todo o mundo, fala em um prejuízo total de US$ 18 bilhões para o setor e calcula a perda de 200 mil empregos. Os gastos com segurança e seguros também pesaram sobre as aéreas do exterior, trazendo sérios problemas financeiros. A US Airways pediu concordata no mês passado, e a United Airlines, segunda maior aérea norte-americana, já afirmou estar prestes a fazer o mesmo. Somente as norte-americanas devem ter um prejuízo este ano de US$ 5 bilhões.Nos oito primeiros meses do ano, o tráfego de passageiros da United apresentou queda de 14% em relação a igual período do ano passado. As principais concorrentes da United também registraram resultados ruins de tráfego em agosto. A US Airways teve queda de 17,3%, a American Airlines, de 9,3%, e a Continental Airlines, de 9,5%.

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