'Tese da independência catalã não está ligada só à crise atual'

Para cientista, momento econômico atual se juntou às razões históricas, políticas e culturais

Entrevista com

PARIS , O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h09

O momento é o menos propício, mas a Espanha terá de lidar daqui para a frente com mais uma crise: a política. Não bastassem os problemas no sistema financeiro e a quebra do mercado imobiliário - dois esteios do crescimento do país ao longo dos anos 1990 e 2000 -, o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy agora terá de enfrentar o aumento da pressão popular pela independência da Catalunha.

O recado foi dado pelas ruas há 10 dias, quando uma multidão protestou em Barcelona pedindo sua independência. Os independentistas alegam que a transferência de recursos para Madri sustenta os excessos dos espanhóis e prejudica a economia catalã, uma das regiões mais endividadas do país.

Para entender o fenômeno, o Estado procurou a ajuda de um cientista político e filósofo. Josep Ramoneda é um dos intelectuais mais importantes do país e, em tese, é favorável à independência da Catalunha. Ele explica que, embora não seja o principal fator, a crise financeira se juntou às razões históricas, políticas e culturais que impulsionam o sentimento independentista. A seguir, trechos da entrevista.

As eleições antecipadas já foram convocadas. O sr. diria que estamos à beira da separação, como as manifestações nos fazem crer?

Não, longe disso. Muita coisa ainda deve acontecer. O processo só começou e será muito longo. A única coisa que aconteceu de concreto foi a convocação de eleições antecipadas e uma resolução parlamentar para convocar um plebiscito sobre a autodeterminação, em termos ainda não definidos, em um futuro também não definido. Se um partido independentista vencer as eleições com uma certa maioria, teríamos a convocação do referendo. Mas se o partido que representa a causa da separação não vencer, o cenário muda.

Centenas de milhares de pessoas desfilaram em Barcelona há alguns dias para pedir a independência da Catalunha. Significa que o 'Sim' vencerá?

É algo que saberemos no futuro. Até aqui, não podemos quantificar esse sentimento independentista, que será medido em um eventual referendo. O eixo central do nacionalismo político na Catalunha passou do nacionalismo conservador para a independência. Faz alguns anos, nos últimos seis ou sete anos, que o número de independentistas vem aumentando. Hoje 45% ou 50% dos catalães apoiariam a independência, segundo as pesquisas de opinião.

Em caso de vitória no referendo, estaríamos diante da independência inevitável?

Não. Em princípio, em uma Europa democrática ninguém ousaria intervir na independência. Mas, do ponto de vista constitucional, o governo da Espanha teria seus direitos. Entraríamos em um processo de negociações complexo. De toda forma, como disse, ainda é algo distante. O governo espanhol já adiantou que não autorizará o referendo pela independência. O Parlamento também terá de autorizar, o que não acontecerá.

Qual é o papel da crise econômica no aumento desse sentimento independentista?

Eu creio que a crise econômica não é o ingrediente mais importante, e sim um deles. O mais importante, a meu ver, é a geração atual, que tem mais presente esse sentimento. A segunda é o fracasso do Estatuto de Autonomia da Catalunha de 2006, que o Conselho Constitucional adiou para 2010 (o documento estabelece as competências da administração regional). E o terceiro ingrediente é a crise econômica. A Catalunha está em dificuldades. Se a crise se agravar, isso poderá provocar novos sobressaltos no caminho. A Espanha e a Catalunha enfrentam um momento difícil no cenário econômico. Mas a tese da independência é um fenômeno mais complexo do que podemos imaginar e não está ligada só à crise atual.

Quem perderia mais em termos econômicos com a independência? Espanha ou Catalunha?

Essa é uma análise difícil de fazer. Sem o aporte econômico da Catalunha, a Espanha teria enormes dificuldades, é claro. Mas a Catalunha não teve a experiência de autogestão. Podemos imaginar que um país de 7,5 milhões de habitantes, com uma base econômica forte, não teria dificuldade de se situar na média de desenvolvimento dos demais países europeus. De toda forma, a eventual independência também geraria outras questões, como assumir uma parte da dívida espanhola, do sistema de previdência, etc. Há muitos elementos complicados em jogo.

Os espanhóis estão a conscientes de que a crise econômica tem relação direta com os excessos cometidos pelo sistema financeiro e pelo mercado imobiliário. Há um certo mea culpa na sociedade. Os catalães pensam igual?

Sim, creio que essa consciência está muito clara na Catalunha. Sabe-se que foram feitos enormes excessos. França, Inglaterra e Itália juntas construíram menos casas do que a Espanha em determinado período.

Em outras regiões da Espanha, como Madri, há um sentimento de que o país deve sair da crise econômica unido. Esse sentimento existe em Barcelona?

Não. A ideia de que a relação econômica com a Espanha é negativa está muito bem estabelecida. Na Catalunha se tem a certeza de que poderíamos sair sozinhos da crise. Mas essa avaliação é feita muito mais do ponto de vista ideológico do que da análise econômica. / A.N.

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