Tesouro aceita deságio para colocar títulos

Um lote de R$ 2 bilhões em Letras Financeiras do Tesouro (LFTs) foi colocado no último leilão, realizado na semana passada, no qual o governo aceitou pagar um pequeno deságio sobre o valor de face dos papéis. A operação sinalizou uma mudança na administração da dívida, seja porque foram vendidos títulos que o Tesouro não gosta de colocar no mercado, seja porque os investidores demonstraram algum desconforto ao tomar os papéis.

O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2014 | 02h03

As LFTs são títulos pós-fixados, em que a remuneração acompanha o juro básico, ou seja, o custo é pouco previsível para o Tesouro Nacional. Os títulos foram colocados por 99,99% do seu valor de face. Deságio baixíssimo, é certo, mas não ignorado pelos especialistas, por indicar uma piora na percepção dos investidores quanto à condução da política fiscal.

O leilão foi realizado dois dias depois de a agência de classificação de risco Moody's ter rebaixado a perspectiva da nota brasileira de "estável" para "negativa", com risco de redução no curto ou no médio prazos. Os temores da agência ao reduzir a perspectiva do risco Brasil são semelhantes aos dos investidores em títulos públicos: deterioração da atividade econômica; mais dificuldades na política fiscal, pois cairão as receitas extraordinárias para sustentar o superávit primário; e tendência de elevação do custo da dívida, em razão da alta dos juros e da desconfiança dos aplicadores. O custo médio das emissões de LFTs passou de 8,22% ao ano, em dezembro de 2013, para 10,04%, em julho - mesmo sem incorporar toda a alta do juro básico.

Outros sinais de maior pressão sobre a dívida pública já vinham surgindo nas últimas semanas. Em julho, houve diminuição de R$ 30 bilhões do estoque de papéis federais em poder dos investidores, enquanto crescia a participação dos aplicadores externos. Estes estariam preferindo adquirir papéis de prazo mais curto, o que teria contribuído para a decisão do governo de colocar LFTs, cujo prazo médio, no último leilão, foi de 71 meses, maior que o dos papéis prefixados.

A atratividade dos papéis brasileiros depende das perspectivas para a política econômica, no médio e no longo prazos. Se o próximo governo se comprometer com a melhora da situação fiscal, haverá estímulo para os investidores, pois os papéis tenderão a se valorizar. Mas, ao contrário, se o problema fiscal não for enfrentado, os papéis públicos poderão dar prejuízo aos aplicadores.

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