Tesouro dos EUA defende juro mais baixo para crédito ao 3º mundo

O secretário do Tesouro dos EUA, Paul O´Neill, afirmou que as instituições financeiras internacionais deveriam dar prioridade a ajudar os países em desenvolvimento a tomarem empréstimo, sem termos de grau de investimento, com taxas de juro baixas o suficiente para que os contribuintes possam suportar. "Desde quando eu consigo me lembrar, parece que nós aceitamos a proposição de que os países de renda baixa estão destinados a ter taxas de juro altas, em comparação com os países desenvolvidos. Essa proposição não é uma necessidade e não passa de uma prática à qual nos acostumamos", disse O´Neill no texto preparado para o discurso no Fórum Econômico Mundial, em Nova York.Para o secretário, existe uma "noção implícita" de que países de baixa renda têm menos credibilidade de crédito do que os mais ricos. "Nossas expectativas são cumpridas quando os países tomam empréstimos que aumentam o risco de default (calote). De fato, países de baixa renda poderiam ter dívidas nos termos de grau de investimento, se disciplinassem suas emissões, limitando-as a quantias sobre as quais possam pagar o serviço de forma confiável", acrescentou.O´Neill também disse que, à medida que os países se movam na direção de dívidas com grau de investimento, eles reduzirão o perigo de um colapso econômico e criarão um colchão amortecedor contra problemas futuros. "Isso não será fácil, mas deveria ser o nosso objetivo, porque, à medida que os países em desenvolvimento se movem na direção do status de grau de investimento, eles reduzem o perigo de um colapso econômico, criando, na prática, um colchão contra eventos inesperados," disse.O secretário disse ainda que os países desenvolvidos e as instituições financeiras internacionais deveriam repensar a proporção entre créditos e doações para países necessitados. "Vocês pensam que faz sentido conceder um empréstimo, mesmo um empréstimo em termos muito generosos, para um país que já está atolado até as orelhas em dívida, com poucas perspectivas de ser capaz de pagar o serviço de débitos já contraídos? Acho que não", disse O´Neill.Ele se referiu a economistas que defendem a continuidade da ajuda a países pobres por meio de empréstimos, e não de doações, porque eles teriam um componente "educacional". Para ele, porém, esforços recentes para ajudar países pobres e altamente endividados mostraram que essa pode não ser a melhor estratégia. "O processo de perdão da dívida dos países pobres e altamente endividados torna essa noção uma piada. Ao invés de agravar as dificuldades financeiras dos países em desenvolvimento com a adição de uma dívida cujo serviço eles não têm como pagar, nós deveríamos admitir abertamente que alguns países precisam de doações", declarou.O´Neill também disse que os países em desenvolvimento precisam de "investimento paciente", e não de capitais especulativos de alto risco. Esses países precisam mudar o foco de seus esforços para o fortalecimento de seus fundamentos econômicos, de modo a encorajar os passos necessários para isso, disse. "Se um país é visto como bem administrado do ponto de vista fiscal, investimentos pacientes do setor privado serão feitos ao invés dos depósitos volúveis que buscam riscos e retornos elevados de curto prazo", declarou. O´Neill disse ainda que as instituições financeiras internacionais desempenharam um papel importante no desenvolvimento econômico global e precisarão desempenhar um papel muito maior no futuro, e que a comunidade internacional precisa revisar os sistemas e as ferramentas de ajuda a países em dificuldades."Deixem-me usar a Argentina como exemplo. Esse país assumiu muito mais dívidas do que sua cadeia de receita poderia aguentar. Quando a situação foi examinada de perto, descobriu-se que o país abrira mão de seu direito de reestruturar. Nós deveríamos aprender com essa experiência e tentar convencer os países em desenvolvimento a não abrirem mão de uma flexibilidade fiscal importante em troca de alguns pontos-base de vantagem na próxima emissão de dívida", disse.O reconheceu a necessidade de "reestruturação controlada" para países que estejam diante de um desastre econômico. Referindo-se às propostas recentes para um sistema de falência de países, O´Neill afirmou: "Acredito que deveríamos levar essa discussão adiante o mais rápido possível, mas espero que vocês possam dizer, a partir do que eu disse, que, se fizermos um trabalho melhor no desenvolvimento econômico, não precisaremos usar essa ferramenta com frequência."

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