Tesouro dos EUA retifica declarações de O´Neill

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O´Neill, referia-se ao problema de fuga de capitais, particularmente agudo na Argentina e no Uruguai nos últimos meses, e não ao Brasil, ao manifestar sua preocupação de que créditos de organismos multilaterais aos países do Cone Sul acabem na Suíça. "O Brasil demonstrou sua capacidade de usar de forma eficaz a assistência (internacional)", afirmou Michele Davis, secretária do Tesouro adjunta para Informação Pública, em declarações ao Washington Post. "Apoiamos as conversações (dos brasileiros) com o Fundo Monetário Internacional (FMI)", afirmou ela, referindo-se às negociações que o secretário-executivo do ministério da Fazenda, Amaury Bier, iniciará amanhã com o Fundo para obter novos recursos, por meio de uma prorrogação do acordo "stand-by" em vigor, que termina em dezembro. Michele reiterou o apoio dos EUA "às políticas econômicas corretas" que o governo brasileiro vem seguindo.ExagerosEla disse que O´Neill nunca teve a intenção de fazer "qualquer tipo de inferência sobre corrupção ou algo do tipo" na declaração que deu à rede de televisão Fox, no domingo. Seus comentários "foram puramente sobre a eficácia da ajuda para fortalecer o sistema bancário (...), que devem vir acompanhado de políticas que aumentam a probabilidade de o dinheiro permanecer no sistema bancário". Numa clara demonstração de que o atual secretário do Tesouro não compreende ou não se importa com o impacto de sua palavras, Michele disse que os mercados exageram em sua interpretação dos comentários de O´Neill. "A pergunta foi se ele estava levando dinheiro novo" na visita que fará à América Latina (na próxima semana). "Era uma pergunta precisa e específica".Na entrevista à Fox, O´Neill respondeu: "Não, não, não", o que levou o mercado imediatamente a concluir que ele revertera a posição que manifestou em junho de se opor a nova ajuda do FMI ao Brasil. Os esclarecimentos prestados pela secretária, segundo os quais o Tesouro apóia as conversações entre o País e o Fundo elogia a política econômica brasileira e acredita que o Brasil usa de forma eficaz os créditos que recebe dos organismos internacionais, sugerem uma forte disposição de Washington de apoiar um novo crédito da instituição ao País.RepetiçãoA retificação veio após um protesto formal e público do governo brasileiro contra a desastrada declaração do chefe da equipe econômica americana, que provocou uma queda de 5% do real ontem e apressou a decisão das autoridades brasileiras de pedir novamente socorro ao FMI. Esta é a segunda vez que O´Neill contribui para a agravar a situação financeira brasileira com afirmações descuidadas e desnecessárias.No final de junho, ele disse que não apoiaria nova ajuda do FMI ao Brasil "porque o problema do País é político e não econômico". Diante de telefonemas irados de Brasília, O´Neill retificou a declaração. Duas semanas mais tarde, manifestou "apoio total ao Brasil", depois de receber o presidente do Banco Central, Armínio Fraga. InabilidadeTido como um secretário do Tesouro fraco, ele tem sido muito criticado como omisso e inepto diante da crise de confiança provocado pelos escândalos de corrupção corporativa nos EUA. Apesar de repetidas manifestações de apoio do presidente George W. Bush, democratas e republicanos consideram O´Neill o elo mais frágil do gabinete presidencial e um forte candidato a ser substituído depois das eleições legislativas de 5 de novembro."Ironicamente, os comentários que causaram a mais recente gafe aconteceu quando O´Neill estava se defendendo, nos programas de entrevistas domingo, das críticas de que ele não tem a habilidade de seu predecessor democrata, Robert E. Rubin, para acalmar os mercados", observou o Post.

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