Tesouro Nacional faz captação no exterior em reais

Abandonadas desde junho de 2007, emissões voltaram a ser usadas ontem, com venda de R$ 1 bilhão em bônus com vencimento em 2028

Adriana Fernandes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2010 | 00h00

Depois das medidas mais duras de novos aumentos do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para segurar a queda do dólar, a equipe econômica decidiu revigorar a estratégia de emissão de títulos da dívida externa atrelados ao real para diminuir o fluxo de recursos externos para Brasil.

Na primeira captação, o Tesouro Nacional já vendeu ontem no mercado internacional R$ 1 bilhão (cerca de US$ 597 milhões) em bônus da dívida externa atrelados ao real com vencimento em 2028.

A orientação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, segundo apurou o Estado, é que o Tesouro faça, a partir de agora, seguidas emissões no mercado internacional em reais com o objetivo de desestimular que o investidor estrangeiro ingresse com recursos no País para comprar títulos da dívida interna. O mercado da dívida interna para os estrangeiros cresceu nos últimos anos com estímulos tributários do Imposto de Renda e os ganhos elevados - associados ao baixo risco da economia brasileira - proporcionados pela taxa de juros elevada do Brasil.

Agora, com o cenário internacional desfavorável para o câmbio brasileiro, em que os países estão adotando medidas isoladas para desvalorizar as suas moedas e ganhar mais competitividade nas exportações, o governo resolveu "ressuscitar" as captações em reais.

Essas emissões foram abandonadas desde junho de 2007, quando o Tesouro lançou pela última vez um bônus em real, o BRL 2028, o mesmo papel vendido ontem. "A sinalização é clara. A medida está em linha com o novo IOF", disse um assessor do ministro Mantega.

Segundo a fonte, o governo quer fortalecer com as novas emissões de bônus em reais, no médio prazo, esse mercado para que as empresas brasileiras, que não têm receitas em dólar, possam se financiar no exterior emitindo papéis na sua moeda. Isso reduz o risco cambial para elas.

Taxa de retorno. Na emissão de ontem, o Tesouro vendeu o BRL 2008 com taxa de retorno para o investidor (yield) de 8,85% ano, maior do que a obtida na última captação, quando aceitou pagar 8,62% ao investidor.

De acordo com o Tesouro, a taxa mais salgada - embora a situação econômica do País seja melhor - se deve ao fato de o Brasil ter ficado muito tempo afastado desse mercado, e quando isso acontece pode ocorrer um aumento da exigência do investidor no momento do retorno.

O papel prefixado mais longo da dívida interna, as NTN-F com vencimento em 2021, tem sido vendido a uma taxa em torno de 11,8%. A demanda na emissão de ontem superou em três vezes a oferta do governo.

O papel vinculado ao real emitido no exterior é pago em dólares pelos investidores estrangeiros, mas traz mais vantagem para o investidor porque garante mais rentabilidade (quase um dobro) do que um bônus atrelado à moeda americana. Isso porque o investidor cobra uma espécie de prêmio para o risco de desvalorização do real.

Além disso, nos últimos meses, com o cenário externo de expectativa de taxas de juros mais baixas por tempo prolongado nos Estados Unidos e a política de afrouxamento monetário do Federal Reserve (Fed), a demanda de investidores por aplicações em moedas de países emergentes tem crescido. O aumento dessa procura foi verificado pelo governo brasileiro e a emissão do BRL 2028 também atende a essa demanda. / COLABOROU EDUARDO RODRIGUES

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