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Fábio Alves
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Testando o novo Banco Central

Há razões técnicas tanto para elevar os juros em 2019 quanto para adiar para 2020

O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2018 | 05h00

Elogiado pelos seus pares pelo currículo e perfil técnico, Roberto Campos Neto, que está deixando a posição de diretor de Tesouraria do banco Santander para assumir a presidência do Banco Central, em substituição a Ilan Goldfajn, terá que estabelecer, de imediato, a credibilidade da política monetária sob sua gestão, como todo novo ocupante desse cargo.

Mas a tarefa pode ser mais complicada do que parece em 2019, uma vez que a política monetária encontra-se em pausa, numa transição entre o ciclo de corte e o de alta de juros. Os analistas e investidores estão cada vez mais divididos sobre quando a taxa Selic deve começar a subir de novo, diante de uma economia em recuperação, mas ainda com elevados níveis de desemprego e ociosidade.

Na mais recente pesquisa Focus, do BC, a mediana das projeções dos analistas aponta para uma taxa Selic encerrando 2018 a 6,50%, mas subindo para 8,0% ao fim de 2019. Todavia, é crescente o número de importantes instituições financeiras apostando num adiamento do início do ciclo de alta de juros para apenas 2020, entre elas os bancos Safra, Itaú, Fibra e o Santander.

Num cenário em que as razões técnicas sobre o início de um novo ciclo de aperto monetário têm mais tons de cinza do que justificativas claras, Campos Neto terá mais trabalho em termos de condução das expectativas a fim de evitar possíveis críticas. Quem não se lembra das acusações a Ilan Goldfajn, no início do seu mandato, de que ele foi demasiadamente conservador?

Na primeira reunião do Copom que presidiu, em julho de 2016, Goldfajn manteve a Selic inalterada em 14,25%. Foi cortar os juros apenas no Copom de outubro, em 0,25 ponto porcentual. Acelerou o ritmo de corte apenas em janeiro de 2017, em 0,75 ponto, para 13,0%. Mas esse conservadorismo no início estabeleceu a credibilidade da política monetária de Goldfajn, que conseguiu, com sucesso, trazer a Selic para a mínima histórica de 6,50%.

O ciclo de afrouxamento monetário terminou em março deste ano, quando a taxa Selic foi cortada pela última vez, de 6,75% para 6,50%. Desde então, o BC manteve a Selic inalterada nesse patamar, mas durante a eleição presidencial, quando o dólar disparou frente ao real, ultrapassando o patamar de R$ 4,20, o mercado cogitou até uma alta de juros logo após o segundo turno.

Com o recuo forte do dólar após a vitória de Jair Bolsonaro na eleição presidencial, além de surpresas para baixo no IPCA, o índice oficial de inflação, não somente as apostas de alta de juros ainda em 2018 se dissiparam, como também cresceu a corrente dos que esperam o início do ciclo de aperto monetário apenas em 2020.

Há quem acredite que Campos Neto precise mostrar pulso firme logo na largada. “Achamos que seria um bom sinal para o futuro presidente do BC, Roberto Campos Neto, elevar os juros na sua primeira reunião do Copom, em 6 de fevereiro”, diz o analista para mercados emergentes da Brown Brothers Harriman, Win Thin.

O economista-chefe para mercados emergentes da consultoria Capital Economics, William Jackson, não acredita que a troca no comando do BC marcará uma mudança na política monetária, mas diz que, na margem, “a nomeação de Campos Neto aumenta a probabilidade de uma alta de juros na sua primeira reunião do Copom para estabelecer suas credenciais ortodoxas”.

Tony Volpon, economista-chefe para Brasil do banco suíço UBS, não crê que Campos Neto deveria subir os juros apenas para estabelecer credibilidade, mas explicar bem qual a sua estratégia de política monetária e, obviamente, segui-la. Volpon aposta que o BC elevará os juros já em meados de 2019, encerrando o ano com uma Selic a 9,0%. Para ele, a inflação deverá ser pressionada em razão da diferença acumulada entre preços administrados e livres, o que pressiona as margens das empresas. “Em um ambiente de demanda se recuperando, as empresas vão repassar esse custo para frente”, diz.

Na fotografia de hoje, há razões técnicas tanto para elevar os juros em 2019 quanto para adiar esse ciclo apenas para 2020. Assim, Campos Neto corre o risco de ser acusado de demasiado conservador ou de um leniente sem autonomia. O segredo vai estar na qualidade da sua comunicação com o mercado.

 

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