Teste de resistência dá alívio aos bancos

Os testes de resistência nos principais bancos se revelaram um fator importantíssimo no alívio da pressão exercida sobre os mesmos. Como um paciente que se entrega à euforia após receber o resultado negativo de uma biópsia, as ações dos bancos tiveram considerável valorização, impulsionando uma recuperação nos mercados.Mas a importância dos testes de resistência vai além. Eles respondem a pergunta que deixa perplexos a todos: Quando o sistema financeiro superar esta crise, como podemos evitar que ele sofra nova implosão? Depois de serem feitos os vilões da vez, os financistas devem evitar os riscos excessivos por um tempo. Mas a memória dos banqueiros é curta, e a crise pode acabar nos induzindo a correr riscos. Os sucessivos resgates revelaram que a dívida das grandes instituições financeiras é garantida pelo governo: se estas instituições falirem, os credores e detentores dos títulos da sua dívida não perderão dinheiro, o que poderia levá-los a financiar eternamente o risco. Wall Street foi toda transformada em Fannie Maes e Freedie Macs, as gigantes do ramo hipotecário cuja garantia implícita do governo os conduziu à ruína.Precisamos de mecanismos sérios para o controle do risco. Houve uma época em que os governos limitavam o risco assumido pelos bancos por meio da regulamentação da sua estrutura. Os bancos que recebiam depósitos não tinham autorização para garantir valores mobiliários e nem para ultrapassar fronteiras. Esta abordagem dificilmente será retomada. Organizar o funcionamento de bancos que se tornaram nacionais e globais é uma tarefa que está além da competência governamental.A partir da década de 1980, quando os antigos controles estruturais começaram a ruir, o governo sugeriu obrigar os bancos a manter algum capital em suas reservas. A ideia parecia elegante: o capital seria a grande garantia universal contra todo tipo de risco assumido, seja no comércio com moeda estrangeira ou nos empréstimos comerciais simples. Mas qual seria a quantidade certa de capital? Respostas equivocadas a esta pergunta explicam a maioria dos colapsos financeiros.A abordagem original adotada pelos reguladores na década de 1980 consistia em exigir dos bancos que mantivessem nas suas reservas uma quantidade de capital proporcional aos empréstimos. Mas o volume de empréstimos é uma medida absurdamente tosca do risco assumido pelos bancos. Um banco que empresta US$ 1 milhão a uma empresa estrangeira pode com isso assumir um risco maior do que um banco que empresta US$ 2 milhões, mas não incorre nos riscos associados ao câmbio. Ou um banco que empresta US$ 3 milhões e também divide seu dinheiro entre múltiplos tomadores de empréstimo. Ou um banco que empresta US$ 4 milhões enquanto se protege dos riscos do câmbio, diversificando entre seus clientes e usando outros truques das finanças modernas para se garantir contra a inadimplência.As limitações da proporção entre capital e empréstimos adotada pelos reguladores levaram à adoção de uma nova proporção: entre capital e risco. Os bancos de investimento e os fundos de hedge foram os pioneiros no método; pouco antes da crise atual, os reguladores bancários abençoavam este mecanismo. Os emprestadores deveriam planejar os altos e baixos de suas holdings, levando em consideração fatores como o risco cambial e outros, descobrindo assim qual seria a maior perda que poderiam sofrer; eles manteriam então esta quantia acrescida de uma pequena margem de segurança nas suas reservas de capital. Mas este método tem seus próprios lapsos: altas e baixas anteriores não são capazes de dar uma ideia do que pode acontecer no futuro. Por exemplo, os modelos elaborados a partir de padrões históricos no mercado imobiliário levaram muitos mutuários a manter reservas insuficientes de capital contra o risco da inadimplência nas hipotecas.Se o volume de empréstimos e os modelos de quantificação do risco com base no passado não são a medida correta, qual seria uma alternativa melhor? A resposta foi compreendida, mas não foi devidamente implementada por Wall Street durante pelo menos uma década. Trata-se da mesma resposta encontrada pela administração Obama: testes de resistência para antecipar problemas futuros.Em vez de se debruçar sobre como os seus portfólios teriam se comportado na história recente, os bancos devem obrigar-se a imaginar como os seus portfólios responderiam a choques futuros. Um banco racional busca uma administração razoável do risco, mas quanto maior o capital mantido por ele, menor a sua previsão de lucros. Isto o levará à tentação de ignorar as tempestades potenciais.Os testes de resistência realizados pela administração são o protótipo desta nova abordagem. A pergunta é se a administração vai obrigar os bancos a obter o capital de que necessitam, mesmo que signifique pôr fim ao processo de valorização - e então se a administração vai tornar os testes de resistência um traço permanente da regulamentação bancária.*O autor é bolsista do Conselho de Relações Exteriores

Sebastian Mallaby, The Washington Post*, O Estadao de S.Paulo

09 de maio de 2009 | 00h00

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