Testes a bancos já tranquilizam mercados

Apesar das críticas, os resultados receberam ontem cautelosa aprovação dos investidores depois de a vulnerabilidade da dívida grega ter sido esclarecida

Jack Ewing THE NEW YORK TIMES / FRANKFURT, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

Como tantas outras tentativas das autoridades de acabar com a crise da dívida soberana do continente, os testes de estresse dos bancos europeus, cujos resultados foram anunciados na sexta-feira, foram considerados pelos críticos como tímidos, inadequados e desacreditados. Mas também como tantas outras iniciativas, na segunda-feira pareciam atender ao seu objetivo.

Apesar da enxurrada de críticas dos analistas, segundo os quais os testes sobre a capacidade de recuperação dos bancos foram manipulados de forma a permitir que a maioria das instituições passasse, os resultados receberam uma cautelosa aprovação dos investidores, que aplaudiram o esclarecimento adicional - embora imperfeito - sobre a vulnerabilidade do sistema financeiro ao calote da dívida da Grécia ou a outros possíveis choques econômicos.

No primeiro dia normal de operações das bolsas desde que as autoridades reguladoras europeias divulgaram os testes, as ações dos bancos se valorizaram. O juro que os bancos cobram entre si para empréstimos de curto prazo também declinou, indicando que os testes de estresse estavam ajudando a dirimir os temores das instituições a respeito da respectiva capacidade de crédito.

O relatório dos testes divulgado pela Comissão de Supervisores dos Bancos Europeus "contém poucas informações sobre a estabilidade do sistema bancário com respeito a uma crise da dívida soberana", escreveram onte, os analistas do Crédit Suisse em um relatório. "Entretanto, contém algumas informações sobre a capacidade de fazer frente a um cenário econômico mais adverso que poderão tranquilizar."

Vários analistas aprovaram as informações complementares sobre os bancos espanhóis, onde o volume da dívida do país e a situação de suas instituições de poupança são um grave motivo de preocupação.

"A Espanha precisa recuperar a credibilidade de certos segmentos do seu setor bancário, e as revelações adicionais constituem um primeiro passo importante", afirmaram os analistas da UnitCredit em uma nota.

Críticas recorrentes. As autoridades europeias enfrentaram uma avalanche de críticas semelhante em maio quando, com o derretimento dos mercados de bônus, prometeram 750 milhões, ou US$ 979 milhões, para garantir que a Grécia e outros países da União Europeia (UE) conseguissem refinanciar seus títulos do governo.

Os analistas ressaltaram que o empréstimo de novos recursos à Grécia não tornará o país mais solvente. No entanto, a demonstração de determinação acalmou os temores a ponto de o Banco Central Europeu (BCE) poder reduzir suas compras de emergência de bônus da dívida da Grécia e outros papéis. O BCE informou ontem que, na semana passada, comprou títulos da dívida em mercados abertos no valor de 176 milhões, em comparação com 16,5 bilhões em meados de maio.

O ceticismo ontem ainda era grande em relação à possibilidade de os testes de estresse cumprirem o objetivo proposto.

Richard Barwell, economista do Royal Bank of Scotland, disse que a alta nas ações dos bancos europeus observada pode simplesmente significar que os investidores se sentiram aliviados ao perceber que o número de bancos que teriam de levantar mais capital seria menor do que o esperado.

Se os bancos emitissem mais ações para reforçar seu balanço patrimonial - uma opção muito provável -, o valor das ações existentes seria diluído. "Isso provocaria efeitos muito prejudiciais", disse Barwell.

"Esses testes foram projetados para garantir a aprovação do maior número possível de bancos", disse ele. "No curto prazo, todos estão contentes. Mas, no médio prazo, é possível que voltemos à questão da vulnerabilidade do sistema bancário europeu diante de uma crise de endividamento soberano. Se isso ocorrer, estaremos de volta ao início da crise."

Num detalhe que ilustra como foi difícil coordenar os testes entre 20 agências europeias responsáveis pela regulação dos bancos e 91 instituições, um grande número de bancos alemães disse não ter recebido o documento segundo o qual deveriam revelar a parcela do endividamento europeu presente no seu balanço patrimonial. Dúvidas em relação a quais seriam os bancos detentores de tais títulos, que estariam portanto vulneráveis a um choque de endividamento, estiveram no centro dos problemas bancários do continente. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Falha

O espanhol Banco Popular afirmou que detectou um erro nos testes. Segundo o banco, potenciais perdas com ativos imóveis e empréstimos a incorporadoras seriam menores que o estimado.

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