Teto de vidro

O debate sobre a igualdade de gêneros vem ocupando espaço crescente aqui e no mundo

Ana Carla Abrão*, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2018 | 04h00

As mulheres são a maioria do eleitorado e 60% dos indecisos, segundo a última pesquisa XP/Ipesp. Isso se reflete nas campanhas e nos debates com os candidatos a presidente, que agora acenam com discursos e ideias na tentativa de atrair essa valiosa parcela de indecisas. Pena não ter se refletido também em propostas concretas nos programas de governo. Afinal, há sim política pública que pode ajudar a acelerar a inclusão e o desenvolvimento das mulheres no mercado de trabalho.

O debate sobre a igualdade de gêneros, a valorização da mulher no mercado de trabalho e sobre a necessidade de garantir igualdade de oportunidades entre homens e mulheres vem ocupando espaço crescente aqui e no mundo. Pesquisas, estudos acadêmicos, novas práticas, políticas internas de empresas e novos critérios de representação política vêm ganhando relevância. Percebe-se, com uma clareza inédita, que talentos femininos têm sido perdidos no meio do caminho – ou nunca aproveitados. E há hoje, mais do que nunca, uma vontade de mudar isso.

Mas a distância a ser vencida ainda é grande – e no Brasil, ao contrário de outros países, ela vem se ampliando. Embora sejamos um país igualitário nos quesitos de acesso à educação e saúde, continuamos com grandes disparidades no mercado de trabalho e na representação política. As mulheres são menos valorizadas nos seus empregos, têm mais dificuldade de acesso e ascensão profissional e estão sujeitas a uma legislação trabalhista que amplifica a desigualdade. Além disso, ainda temos políticas públicas pouco eficazes em reduzir a desigualdade e ampliar as oportunidades, em particular para mulheres de menor renda.

Mesmo levando em conta o nível educacional, as mulheres brasileiras ganham 25% a menos que os homens. Em empresas do setor financeiro, apenas 16% da diretoria executiva é composta por mulheres. Nas eleições federais de 2014, mulheres representaram apenas 11% dos candidatos eleitos. Nas de 2018, o número de candidatas não evoluiu em relação a 2014, apesar de cotas e critérios específicos de destinação dos recursos do fundo partidário. Estas são apenas algumas evidências de um desequilíbrio indesejável, no qual o talento das mulheres não é alavancado em todo seu potencial.

Em relatório recém divulgado pela Oliver Wyman, descrevemos o “Ciclo de Vida do Gap de Gêneros” que começa na infância e ganha força na vida adulta. Fizemos o diagnóstico do que nos leva a perder mulheres competentes e talentosas, que deixam de enxergar o mercado de trabalho como uma opção atrativa. E a resposta é clara: as mulheres enfrentam dificuldades que são impulsionadas por normas sociais e culturais; por baixa confiança e aspiração na escolha da carreira; pela cultura e condições do ambiente de trabalho e por vieses inconscientes. Junte-se a isso um processo de seleção e progressão de carreira desigual, a baixa representatividade na liderança e as diferenças salariais, temos aí o ciclo de vida que torna o mercado de trabalho mais difícil – e, portanto, menos atrativo para mulheres na meia idade.

Para quebrar esse ciclo é necessário, por um lado, multiplicar as poucas práticas empresariais que abrem oportunidades para que mais mulheres possam se desenvolver profissionalmente e assim ocupar posições de liderança. Por outro lado, é fundamental que sejam implementadas políticas públicas que garantam apoio e gerem condições de igualdade de direitos e deveres entre mulheres e homens no Brasil. Essas são as únicas formas de se romper com um padrão cultural que relega às mulheres uma divisão de tarefas desequilibrada e nos impõe obstáculos que reforçam a desigualdade de gênero.

Para que superemos esses obstáculos é necessário que se desenvolvam políticas ativas que provoquem mudanças comportamentais na sociedade e no ambiente de trabalho e promover iniciativas de conscientização estabelecendo metas. Mas, acima de tudo, há que se investir em políticas públicas que permitam que mais e mais mulheres possam entrar – e permanecer – no mercado de trabalho, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social brasileiro e para um país mais igualitário e justo.

*ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN

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