Alberto Pezzali/AP Photo - 13/12/2021
Alberto Pezzali/AP Photo - 13/12/2021

The Economist: Aumento global de pedidos de demissão não é atípico

É difícil detectar, no mundo rico, uma grande debandada de trabalhadores insatisfeitos com seus empregos

The Economist

13 de dezembro de 2021 | 15h54

Conforme os efeitos da gripe espanhola diminuíam em 1919, os trabalhadores de Seattle ficaram inquietos. Muitos estavam fartos dos expedientes longos e dos salários ínfimos, sobretudo em um momento de alta inflação. Os trabalhadores dos estaleiros entraram em greve, levando outros a largarem suas ferramentas em solidariedade. Os jornais estavam cheios de histórias de maquinistas, bombeiros e pintores pedindo demissão. Os acontecimentos em Seattle desencadearam a inquietação trabalhista pelo restante dos Estados Unidos e até mesmo em boa parte dos países ricos. Os patrões temiam que aqueles das classes menos favorecidas tivessem se tornado “preguiçosos anticapitalistas”.

Seattle mais uma vez parece o marco zero para uma grande mudança nas relações de trabalho. Em outubro, o sindicato local de carpinteiros terminou uma greve que durou semanas e pedia melhores salários e condições de trabalho. Os hotéis e as lojas continuam sem funcionários suficientes. As empresas locais de tecnologia, com medo de perder profissionais, aumentaram os salários médios em aproximadamente 5% desde 2020. Uma delas, a Microsoft, afirmou em abril que 46% dos trabalhadores do mundo estavam planejando fazer “uma grande mudança ou transição de carreira”.

Seattle parece ser um exemplo do que Anthony Klotz, da Universidade A&M do Texas, chamou de “great resignation” (“a grande debandada”, expressão que se refere ao alto número de demissões nos EUA). Este termo memorável rapidamente se tornou a palavra da moda do mundo corporativo, sendo repetido em reuniões de resultados e em festas. Ele também ganhou força na Internet. Um painel de mensagens “antitrabalho” da rede social Reddit está cheio de longos textos contra as demandas de chefes gananciosos. O fórum atualmente gera mais comentários de usuários por dia do que o subreddit “WallStreetBets”, que impactou as bolsas de valores no início deste ano.

O termo é flexível, mas, em suma, sugere que a pandemia provocou uma mudança cultural que faz os trabalhadores repensarem suas prioridades. As pessoas em empregos de status inferiores não vão mais aturar salários ruins ou condições de trabalho precárias, enquanto funcionários de colarinho branco zombam da ideia de trabalhar muitas horas. Algumas se tornaram mais preguiçosas ou sentem que merecem coisas melhores; outras querem experimentar algo novo ou desejam menos dinheiro porque passaram a apreciar os prazeres de uma vida mais simples. Isso, supostamente, está levando a um tsunami de pedidos de demissão e abandono de empregos. Só há um problema: a teoria tem poucas provas concretas que a corroborem.

A tese da grande debandada parece mais forte nos EUA e no Reino Unido. Em outubro, 4,2 milhões de americanos pediram demissão, o equivalente a quase 3% do total de pessoas empregadas, quase um recorde. No terceiro trimestre de 2021, quase 400 mil britânicos mudaram de emprego após entregarem seu aviso prévio, a maior marca de todos os tempos. Os empregadores também podem estar reagindo à ameaça de perder mais funcionários. Dados reunidos pelo banco Goldman Sachs sugerem que o aumento dos salários nos EUA e no Reino Unido é excepcionalmente considerável. Um fraco relatório de empregos nos EUA, divulgado em 3 de dezembro, parecia confirmar o quão difícil se tornou contratar profissionais, mesmo com o número elevadíssimo de vagas. A maior economia do mundo adicionou apenas 210 mil empregos em novembro, abaixo das expectativas dos economistas de 550 mil.

No entanto, em outras partes do mundo rico, é mais difícil de detectar uma grande debandada. Sem dúvida, é verdade que milhões de pessoas deixaram seus empregos. Mas nosso melhor palpite é que a mão-de-obra nos países ricos está 3% menor do que estaria sem a covid-19, um déficit de 20 milhões de pessoas. Mesmo assim, fora dos EUA e do Reino Unido, há poucos sinais de que isso signifique que mais pessoas estão pedindo demissão.

Em novembro, 107 mil canadenses que haviam deixado seus empregos no ano anterior tomaram essa decisão porque estavam “insatisfeitos”, um número inferior à marca de 132 mil um pouco antes da pandemia. No Japão, o número de pessoas desempregadas que pediram demissão de seus antigos trabalhos está próximo da mínima histórica. Há sinais de um pequeno aumento de pedidos de demissão na Itália, mas, em toda a União Europeia, o número de pessoas que não está trabalhando é menor do que antes da pandemia. Os dados da Nova Zelândia sobre entradas e saídas no mercado de trabalho parecem completamente corriqueiros. E em muitos lugares há poucos sinais de que os trabalhadores estejam ficando inquietos, o que poderia ser considerado como um presságio de um aumento nos pedidos de demissão. O número de conflitos laborais na Austrália continua com tendência de queda. As ações coletivas estão “em extinção”, de acordo com uma edição recente da publicação Japan Labour Issues. Se a pandemia mudou o ponto de vista dos trabalhadores sobre o mundo, eles estão disfarçando muito bem.

Outros fatores, então, provavelmente ajudam a explicar a redução da mão-de-obra. Muitas pessoas ainda dizem estar com medo de se contaminarem com a covid-19 e talvez, por isso, estejam evitando espaços públicos, por exemplo. Os imigrantes têm retornado aos seus países de origem.

Mesmo que uma onda de pedidos de demissão seja em grande parte um fenômeno anglo-americano, há alguma prova de que as pessoas que deixaram seus empregos fizeram isso porque se tornaram preguiçosas? Deixando as postagens do Reddit de lado, este não parece ser o caso. No Reino Unido, um décimo dos trabalhadores afirma que gostaria de ter um emprego com expediente mais curto e menor salário - mas isso corresponde à média de longo prazo. Um estudo recente da Gallup, nos EUA, sugere que o “engajamento do funcionário”, um indicador aproximado da satisfação no trabalho, está perto de sua máxima histórica: é difícil colocar isso lado a lado com a ideia de que muito mais pessoas estão desesperadas por uma saída.

Isso sugere duas explicações mais prosaicas para as taxas crescentes de pedidos de demissão. Uma diz respeito às vagas. Quando há muitas vagas disponíveis, as pessoas se sentem mais confiantes em entregar seu aviso prévio, mesmo que gostem de seu trabalho. Elas também podem estar sendo “roubadas” por outras empresas. Há um grande número de vagas nesse momento, em parte, porque a pandemia levou ao aumento da demanda em novos setores (como armazéns para vendas realizadas na Internet). Uma análise dos EUA por Jason Furman, da Universidade Harvard, e do Reino Unido, por Pawel Adrjan, da Indeed, um site de busca de empregos, sugere que os pedidos de demissão estão no nível esperado, dado o número de vagas.

Contudo, as análises de Furman e Adrjan talvez subestimem o quão comum é o aumento de pedidos de demissão. Tanto nos EUA como no Reino Unido os pedidos de demissão diminuíram durante o pior momento da pandemia em meados de 2020. Muitas pessoas que gostariam de ter deixado seus empregos no ano passado talvez tenham tido coragem de fazer isso apenas agora. Considere esses pedidos de demissão como “reprimidos” e o recente aumento parece ainda menos fora do comum.

Poderia surgir uma verdadeira “grande debandada” em algum momento? Isso provavelmente exigiria mudanças culturais mais radicais. As famílias precisariam decidir, em massa, que as necessidades de consumo futuras delas e as rendas necessárias para atendê-las fossem consideravelmente menores. Isso significaria o fim de férias no exterior, menos jantares fora de casa e menos eletrodomésticos. Também significaria menos presentes de Natal. Qualquer pessoa que visitou uma liquidação da Black Friday este ano, em Seattle ou em outro lugar, deixaria rapidamente de acreditar que a ideia de uma mudança tão radical esteja próxima. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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