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The Economist: Crescimento global está desacelerando, mas não há recessão à vista - ainda

As preocupações com a guerra na Ucrânia, lockdowns na China e aumento dos juros em todo o mundo estão crescendo

The Economist, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2022 | 10h00

Desde 1900, a economia global tem entrado em recessão, definida como uma redução ano a ano no PIB por pessoa, em média, cerca de uma vez a cada década. Em 2020, o mundo passou pela desaceleração mais intensa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Apenas dois anos depois, outra recessão está a caminho?

As preocupações estão sem dúvidas crescendo. A guerra na Ucrânia provocou a alta dos preços de alimentos e da energia, que prejudicaram a renda disponível das famílias. Os lockdowns na China estão causando transtornos nas cadeias de suprimentos. E os bancos centrais estão aumentando rapidamente as taxas de juros para controlar a inflação.

Os temores sobre a situação da economia mundial abalaram os mercados financeiros. No mês passado, as bolsas de valores dos países ricos caíram mais de 10%. Ativos de risco, entre eles ações de tecnologia e criptomoedas, sofreram um golpe severo. Enquanto isso, os economistas estão reduzindo de forma contínua suas previsões para o crescimento global. Até que ponto os temores de uma recessão já estão se tornando realidade? Uma análise dos dados dá motivos para um otimismo cauteloso – por enquanto, pelo menos.

É verdade que em muitos lugares as pessoas soam como se a recessão já estivesse por aqui. Em toda a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), um grupo formado em sua maioria por países ricos que representam mais de 60% do PIB global, a confiança do consumidor está atualmente menor do que quando surgiu o novo coronavírus. Neste mês, um indicador do sentimento do consumidor criado pela Universidade de Michigan caiu para seu nível mais baixo em uma década, de acordo com uma estimativa preliminar. Os entrevistados estavam mais pessimistas quanto às próprias situações financeiras; poucos deles acreditavam que era um momento propício para comprar bens duráveis por causa da inflação. Se os consumidores frearem os gastos, a economia desacelerará.

No entanto, até agora, o que as pessoas dizem e fazem parecem ser coisas diferentes. As solicitações no site OpenTable, que faz reservas em restaurantes em diversos países, continuam acima do padrão anterior à pandemia. Nos Estados Unidos, as vendas no varejo ainda estão aumentando e a ocupação dos hotéis permanece melhorando. Uma medida de alta periodicidade dos hábitos de consumo dos britânicos, elaborada pelo Instituto Nacional de Estatísticas Britânico e pelo Bank of England, mostra poucos sinais de que as pessoas estejam evitando atividades sociais ou compras que poderiam ser adiadas.

Os consumidores provavelmente poderão continuar com os gastos durante um tempo, mesmo que a inflação reduza o poder de compra. As famílias em toda a OCDE ainda têm aproximadamente US$ 4 trilhões em economias (equivalente a 8% do PIB) acumuladas durante a pandemia, de acordo com nossas estimativas. E, ao contrário do que se costuma supor, nem todo esse dinheiro está nas mãos dos ricos. Nos EUA, as contas bancárias das famílias de baixa renda ainda estavam 65% mais recheadas no final do ano passado do que em 2019.

As empresas também parecem resilientes por enquanto. As despesas crescentes estão impactando os lucros de alguns varejistas. Mas a medida de confiança das empresas da OCDE permanece estável. Dados do site de empregos Indeed sugerem que as vagas nos países ricos talvez tenham parado de aumentar – porém continuam abundantes. Ainda há apetite para investimentos também. Analistas do banco JPMorgan Chase calculam que as despesas de capital globais aumentaram 7,6% no primeiro trimestre, em comparação com o mesmo período do ano anterior – o dobro do registrado no final de 2021.

Alguns países parecem mesmo enfraquecidos. O banco Goldman Sachs desenvolve um “indicador de atividade atual”, uma medida de alta periodicidade do crescimento econômico com base em uma combinação de pesquisas e dados oficiais. A economia russa desacelerou nitidamente desde que os países ocidentais impuseram sanções em resposta à invasão da Ucrânia. E na China, onde a estratégia do governo de tolerância zero com a covid-19 levou aos lockdowns mais rígidos desde o início de 2020, a economia talvez também esteja encolhendo.

Mas a maioria dos lugares está mais fortalecida. Adaptando uma série semanal de PIBs de 45 países, entre eles Índia, Indonésia e integrantes do G7, criada a partir de dados de busca na internet por Nicolas Woloszko, da OCDE, calculamos que o crescimento do PIB global tenha se mantido estável nas últimas semanas. No geral, a medida de atividade econômica do Goldman está menor do que no início de 2021, quando as economias reabriram, mas ainda é aceitável.

 Contudo, os dados podem mudar – se a Rússia fechar as torneiras do gás para a Europa, a China tornar mais rigorosas ainda as restrições de seu lockdown ou os bancos centrais forem obrigados a aumentar as taxas de juros de forma mais rápida do que esperam atualmente. Quando o mercado de trabalho americano esteve aquecido assim no passado, observa o JPMorgan, uma recessão tendeu a surgir no “médio prazo”. Mas a 12ª recessão global desde 1900 não parece ter começado ainda. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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