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Beth Coller/ The New York Times
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The Economist: Escassez de matéria-prima ameaça transição para energia limpa

Investimentos estão em curso, mas problemas no lado da oferta têm sido desconsiderados; além disso, a aprovação de projetos voltados ao setor leva muito tempo, e riscos e retornos esperados ainda são opacos demais

The Economist*,

12 de junho de 2021 | 05h00

Enquanto a economia mundial desperta novamente, escassez de produtos e alta de preços afetam diversos setores, desde o fornecimento de chips taiwaneses até o preço do café da manhã na França. Mas um tipo de gargalo merece atenção especial: os problemas no lado da oferta, tais como escassez de metais e limitações de espaço, que ameaçam diminuir o boom no setor da energia verde. 

Longe de serem passageiros, esses gargalos arriscam tornar-se uma característica recorrente da economia mundial nos anos que se seguirão, porque a mudança para um sistema mais limpo de energia ainda está na infância. Governos devem responder a esses sinais do mercado, facilitando um enorme boom de investimento do setor privado ao longo da próxima década que aumente essa capacidade. Se não fizerem isso, terão pouca chance de manter promessas de zerar emissões.

Cientistas e ativistas preocupam-se há décadas com as mudanças climáticas. Recentemente, políticos têm dado mais sinais de comprometimento: países responsáveis por mais de 70% do PIB mundial e das emissões de gases de efeito estufa estabeleceram metas para zerar as emissões, em geral até 2050. 

E houve uma mudança dramática de atitude entre as empresas. Investidores estão exigindo que as corporações mudem o curso, estimulados pela nova realidade de que tecnologias limpas são mais competitivas em relação a custos. Os gigantes da era dos combustíveis fósseis, como Volkswagen e ExxonMobil, estão tendo de alterar seus planos de investimento, enquanto pioneiros da energia limpa aumentam as despesas de capital. A Orsted, que defende a energia eólica, planeja aumento de 30% este ano; a Tesla, fabricante de carros elétricos, elevação de 62%. Enquanto isso, US$ 178 bilhões foram injetados em fundos de investimentos amigáveis ao meio ambiente no primeiro trimestre.

Essa súbita mudança na maneira como os recursos são alocados está causando tensões e pressões, enquanto a demanda por matérias-primas aumenta e problemas ocorrem em relação aos poucos projetos com aprovação regulatória. Calculamos que o preço de uma cesta de investimentos composta por cinco minerais usados em carros elétricos e redes de transmissão de energia subiu 139% no ano passado. Máfias de madeireiros estão vasculhando florestas equatorianas para encontrar a madeira de balsa usada nas lâminas das turbinas eólicas. 

Visibilidade

Em fevereiro, um leilão britânico de direitos de uso do espaço marinho para instalar usinas eólicas captou até US$ 12 bilhões, porque empresas de energia se apressaram para obter visibilidade a qualquer custo. A escassez se estende às finanças: enquanto enormes quantias são aplicadas em poucas companhias de energia renovável, as avaliações se estenderam a um efervescente território. Apesar de o peso da indústria da energia renovável ainda ser pequeno nos indicadores de preços ao consumidor, alguns financiadores temem que a escassez em fornecimento ao longo dos anos poderia finalmente alimentar altas de inflação.

O que faz esses sinais de aquecimento excessivo tão marcantes é o fato de eles se materializarem mesmo enquanto menos de 10% da transição energética foi completada (medida com base na fatia de investimento cumulativo no setor necessário até 2050 que já foi alocada). 

As projeções para a próxima década chamam a atenção. Para se manter a caminho da emissão zero até 2030, a produção anual de carros elétricos precisa ser dez vezes maior do que no ano passado. A base instalada de geração de energia renovável tem de aumentar em três vezes. Companhias globais de mineração têm de elevar a produção anual de minerais essenciais para o setor em 500%. Talvez 2% do território americano tenha de ser coberto por turbinas eólicas e painéis de energia solar.

Tudo isso requererá um vasto investimento: aproximadamente US$ 35 trilhões ao longo da próxima década, equivalente a um terço do volume movimentado pela indústria global de gestão de fundos hoje em dia. O sistema mais bem equipado para isso é a rede internacional de cadeias de fornecimento e mercados de capitais, que revolucionou o mundo a partir dos anos 1990. Ainda assim, até esse sistema é insuficiente, com o investimento em energia em torno da metade do nível necessário e assimétrico em favor de países ricos e da China

A principal razão para a insuficiência de investimento é que a aprovação dos projetos leva muito tempo, e o risco e o retorno esperados ainda são opacos demais. Governos estão piorando as coisas usando a política climática como veículo de outros objetivos políticos. A União Europeia aspira a uma autonomia estratégica em relação a baterias, e sua agenda ambiental direciona parte de seu orçamento a áreas desfavorecidas. 

A China está considerando limitar preços domésticos de commodities nos próximos cinco anos. De maneira similar, o nascente plano para o meio ambiente do presidente Joe Biden prioriza empregos sindicalizados e manufaturas locais. Essa mistura de metas difusas e protecionismo brando tolhe o investimento necessário.

Pragmatismo

Governos precisam ser mais pragmáticos. Existe uma função crucial para um Estado ativista no apoio à construção de uma infraestrutura essencial, como linhas de transmissão, e em pesquisa e desenvolvimento. Mas a contundente prioridade deve ser catalisar o aumento do investimento privado de duas maneiras.

Primeiramente, suavizando regras de planejamento. Um projeto de mineração leva globalmente 16 anos para ser aprovado, em média; o típico projeto de usina eólica nos EUA leva mais de uma década para obter aprovações e concessões de exploração, o que é uma das razões para a capacidade de geração de energia eólica na costa do país representar menos de 1% da capacidade europeia. Rapidez exige decisões centralizadas, e isso com frequência significa decepcionar conservacionistas e habitantes de regiões que recebem essas instalações.

Em segundo lugar, governos são capazes de ajudar empresas e investidores a lidar com riscos. Governos ocidentais também têm a obrigação de prover financiamentos baratos para elevar o investimento em países pobres. Mas a chave é a introdução de preços de carbono que incorporem sinais de mercado em milhões de decisões comerciais diariamente e dão a empreendedores e investidores mais visão de um horizonte a longo prazo.

Atualmente, apenas 22% das emissões de gases de efeito estufa são compensadas financeiramente, e essas compensações não são unificadas. Gargalos ambientais são um sinal de que a descarbonização está pelo menos deixando de ser uma ideia abstrata e virando realidade. Um estímulo poderoso é necessário agora para fazer a revolução acontecer. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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