Jabin Botsford/Washington Post
Jabin Botsford/Washington Post

The Economist: Estímulo de Biden é uma aposta para os EUA e o mundo

Pacote de US$ 1,9 trilhão é parte de um experimento econômico em 3 vertentes; perigo é de superaquecimento da economia americana

The Economist,

13 de março de 2021 | 05h00

Quando a pandemia surgiu foi natural temer a possibilidade de a economia mundial ficar estagnada por anos. Os Estados Unidos estão desafiando esse pessimismo. Tendo superado as sombrias expectativas de crescimento previstas em meados do ano passado, o país está jogando combustível de foguete fiscal em uma já inflamada mistura de políticas econômicas. O pacote de estímulos de US$ 1,9 trilhão do presidente Joe Biden, que ele deveria sancionar após o fechamento desta matéria, eleva a aproximadamente US$ 3 trilhões (14% do PIB anterior à crise) o montante de gastos relacionados à pandemia desde dezembro, e para cerca de US$ 6 trilhões o total gasto com a crise desde seu início. 

Segundo o planejamento atual, o Federal Reserve e o Departamento do Tesouro também injetarão aproximadamente US$ 2,5 trilhões no sistema bancário este ano, e as taxas de juros permanecerão próximas a zero. Por uma década, após a crise financeira global de 2007 a 2009, os formuladores de políticas econômicas americanos foram tímidos demais. Agora, estão trabalhando à toda.

O resultado provável é uma recuperação que seria impensável no segundo trimestre de 2020. Em janeiro, as vendas de varejo nos EUA já estavam 7,4% mais altas do que no ano anterior, enquanto a maioria dos americanos recebia os cheques de US$ 600 do governo, como parte da rodada anterior de estímulos. Presos em casa e incapazes de gastar o que gastariam normalmente em restaurantes, bares e cinemas, os consumidores acumularam US$ 1,6 trilhão em poupança excedente durante o ano passado. 

O estímulo de Biden dará para a maioria dos americanos outros US$ 1,4 mil. De uma maneira incomum para um país rico, uma grande porção dessa pilha de dinheiro será poupada pelas famílias pobres, que deverão gastar apenas quando a economia reabrir totalmente. Se as vacinas continuarem a chegar aos braços dos americanos e o país evitar um terrível encontro com novas variantes do vírus, a taxa de desemprego deverá cair confortavelmente abaixo dos 5% até o fim deste ano.

A boa nova não se restringe aos EUA. Pesquisas em produção mostram um quadro otimista mesmo em relação à zona do euro, que está atrás em termos de vacinação e na luta contra novas variantes – e está concedendo menos estímulos. Os gastos de Biden vão elevar ainda mais a demanda por mercadorias. O déficit comercial dos EUA já está mais de 50% maior do que antes da pandemia, enquanto a economia do país consome itens importados. 

Mas o restante do mundo não acompanhará o ritmo alucinante do Tio Sam. Em 9 de março, a OCDE, um clube de países ricos, previu que, no fim de 2022, a economia americana será maior do que a entidade previu antes da pandemia – a única entre as grandes economias a apresentar tal resultado. De abril a setembro, os EUA provavelmente crescerão mais do que a própria China, que está endurecendo sua política monetária e cuja Bolsa de Valores sofreu uma queda de 9% desde meados de fevereiro.

Triunfo

Ascender após uma crise que em seu momento mais grave cortou o número de pessoas empregadas em 15% será um triunfo para os EUA, e contrastará com a fraca recuperação após a crise financeira. O pacote de estímulos de Biden aliviará aqueles cujas vidas foram viradas de ponta-cabeça – atualmente, 9,5 milhões de postos de trabalho cortados pela pandemia ainda não foram recuperados. Graças ao dinheiro extra concedido à maioria dos pais, a persistente e disseminada pobreza infantil cairá drasticamente.

Ainda assim, apesar de os atuais formuladores de políticas terem garantido seu lugar na história da economia, talvez não sejam vistos como heróis. Isso porque os EUA estão aplicando um imprevisível experimento econômico em três vertentes que apresenta níveis históricos de estímulos fiscais, uma atitude mais tolerante do Fed em relação a picos de inflação maiores que os previstos e enormes poupanças, que ninguém sabe se os consumidores acumularão ou gastarão. Não há paralelo para um experimento desse tipo desde a 2.ª Guerra. O perigo para os EUA e para o mundo é que a economia superaqueça.

Esse é um risco que os investidores estão avaliando. Os pagamentos de obrigações com vencimento em dez anos da dívida dos EUA, que se movimentam na razão inversa à dos preços, aumentaram cerca de 1 ponto porcentual desde meados do ano passado, diante da expectativa de inflação em alta e taxas de juro mais elevadas. 

Em razão do papel crucial dos EUA no sistema financeiro global, sua expectativa de política monetária repercute além das fronteiras. Nas semanas recentes, o banco central da Austrália teve de aumentar suas compras de obrigações para evitar uma elevação excessiva nos rendimentos. O Banco Central Europeu estava decidindo se realizaria uma intervenção similar. Mercados emergentes com grandes déficits, como o Brasil, ou com grandes dívidas em dólar, como a Argentina, têm motivo para temer um endurecimento nas condições financeiras globais após a virada na política monetária americana.

O Fed está inflexível em sua decisão de manter baixa a taxa de juros e continuar a comprar ativos até que a recuperação da economia esteja bem mais garantida. A inflação aumentará, enquanto a queda nos preços das commodities ocorrida no início da pandemia seria um ponto fora da curva em comparação com o ano anterior, mas o Fed vai ignorar esse movimento. Sob seu novo regime de “meta de inflação média”, adotado no ano passado, está buscando trazer a inflação para uma meta de 2%, para conseguir compensar déficits passados. Isso é particularmente desejável porque, na maior parte da década passada, o problema da economia mundial era inflação baixa demais, não o contrário. Mesmo se a economia acabar superaquecendo, Jerome Powell, presidente do Fed, argumenta que isso também será temporário. A dinâmica de inflação a longo prazo, argumenta ele, “não muda em nada”.

Mas será que eles poderiam recusar trilhões de dólares? Não temos razão para duvidar dos planos a curto prazo do Fed, mas nem o banco central americano nem os mercados são capazes de prever o resultado final do experimento dos EUA. O Fed pode ter de jogar um balde de água fria na economia, elevando a taxa de juros para reduzir a inflação. Isso seria constrangedor, dada a tamanha ênfase que o banco deu à sua obrigação de buscar fortalecer de maneira “ampla e inclusiva” o mercado de trabalho. Uma taxa de juros mais elevada prejudicaria os mercados de ativos e também precipitaria um conflito com o cada vez mais endividado governo.

Todas as fichas no vermelho

O pacote de estímulos de Biden é uma grande aposta. Se for vencedora, os EUA evitarão a triste armadilha da baixa inflação com juros baixos em que o Japão e a Europa parecem empacados. Outros bancos centrais podem copiar a nova meta do Fed. Estímulos fiscais maciços podem se tornar a resposta normal para recessões. O risco, porém, é que os EUA acabem com dívidas crescentes, problemas com a inflação e um banco central submetido a um teste de credibilidade.

Os autores desta matéria preferem um pacote menor de estímulos. Lamentavelmente, a conturbada política americana não permite uma sintonia fina em se tratando da elaboração de políticas, e os democratas quiseram tudo que podiam conseguir. A aposta de Biden é melhor do que a inação. Mas ninguém deve subestimar o tamanho dessa aposta. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

© 2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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