Andrew Wong
Andrew Wong

The Economist: Mais velhos, mas ainda não ricos

Média de idade dos chineses logo vai ultrapassar a dos americanos, e a pressão demográfica pode ser o maior desafio para a economia do país nas próximas décadas

O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2019 | 04h00

Pouco depois das 9 horas, a casa de repouso para idosos do bairro começa a despertar para a vida. Um morador arrisca uma canção. Um senhor centenário senta-se à mesa de xadrez chinês à espera de um parceiro. Uma máquina de realidade virtual, que permite aos usuários embarcar em aventuras exóticas como fazer compras na mercearia ou viajar de metrô, repousa sem uso num canto. A grande atração é a rotina de exercícios matinais na qual umas 20 pessoas desenferrujam suas juntas cansadas.

Essa é a ponta visível do rápido envelhecimento da China, uma tendência que já começa a influir no potencial econômico do país.

Desde a inauguração da casa de repouso em Changning, área central de Xangai, um semestre atrás, mais de 12 mil pessoas da região já passaram por suas portas. A cidade lançou em 2014 esses centros que combinam entretenimento, clínicas de saúde, salões de visitas e moradia para idosos. A China planeja abrir 400 até 2022. “Não dá mais para esperar. Temos de fazer isso agora”, diz Peng Yanli, organizadora comunitária.

A pressão demográfica sobre a China vem aumentando. O próximo ano testemunhará uma conquista indesejada: a média de idade dos chineses vai superar a dos americanos em 2020, segundo projeções. Ao mesmo tempo, a renda média da China é de cerca de um quarto daquela dos Estados Unidos. Um medo muito evocado no país – de que a China vá envelhecer antes de se tornar rica – não é mais uma possibilidade teórica, mas uma realidade que se aproxima rapidamente.

Segundo uma projeção das Nações Unidas, nos próximos 25 anos a porcentagem da população chinesa acima de 65 anos vai dobrar, de 12% para 25%. Em contraste, os Estados Unidos vão levar um século para chegar a esse porcentual, e a Europa, mais de 60 anos. O ritmo de envelhecimento da China é semelhante ao do Japão e só um pouco mais lento que o da Coreia do Sul. Ocorre que quando esses dois países começaram a envelhecer rapidamente sua renda per capita já era três vezes maior que a chinesa.

Visto por outro ângulo, o envelhecimento da China é um sucesso do desenvolvimento. Um chinês nascido em 1960 podia esperar viver apenas 44 anos, menos que um ganense nascido no mesmo ano. Hoje, a expectativa de vida para os bebês chineses é de 76 anos, pouco menos que a dos bebês americanos. 

O envelhecimento mais rápido é também consequência da notória estratégia chinesa de controle populacional. Em 1973, quando o governo começou a limitar o número de nascimentos, as chinesas tinham em média 4,6 filhos cada uma. Hoje, têm apenas 1,6, e para alguns estudiosos mesmo essa estimativa é muito alta.

A propensão ao declínio da fertilidade começou à medida que a China se tornava mais rica, mas a política do filho único acentuou a queda. Mesmo com a China tendo adotado a política de dois filhos em 2016, e esteja prestes a elevar esse limite, a correção veio tarde demais. A população em idade de trabalho, que começou a diminuir em 2012, continuará declinando nas próximas décadas. Até meados do século, será um quinto menor do que é hoje. A China passará dos nove adultos em idade de trabalho para cada aposentado que tinha em 2000 para apenas dois em 2050.

Sistema previdenciário

O impacto econômico se faz sentir de dois modos. O mais óbvio é a necessidade de se cuidar dos idosos. O pagamento de aposentadorias supera as contribuições de trabalhadores para a previdência desde 2014. Segundo a Academia Chinesa de Ciências Sociais, o fundo nacional de previdência estará sem dinheiro por volta de 2035. O Ministério das Finanças vem tomando medidas pontuais para escorar o sistema: em setembro, transferiu 10% de suas ações em quatro empresas financeiras estatais gigantes para o fundo. Mas é preciso muito mais. O gasto governamental com aposentadorias e saúde é de cerca de um décimo do PIB, pouco mais da metade do que é usual em países mais ricos e de população mais velha – eles mesmos forçados a gastar mais à medida que a população envelhece.

O segundo impacto é no crescimento. Alguns economistas chineses – notadamente Justin Lin, da Universidade de Pequim – afirmam que o envelhecimento não tem necessariamente de frear o crescimento do país, em parte graças aos avanços tecnológicos. Mas há outra corrente, liderada por Cai Fang, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, que vem até agora ganhando a discussão. Segundo ela, uma oferta de mão de obra mais reduzida está fazendo subir os salários e, à medida que as empresas gastam mais em tecnologia para substituir trabalhadores, comprimem o capital para investimentos. O resultado, calcula Cai, é que a taxa potencial de crescimento da China caiu para cerca de 6,2% – quase exatamente o que é hoje.

A falta de mão de obra está atingindo não apenas empresas, mas cidades inteiras. De Xi’an, no norte, a Shenzen, no sul, prefeituras estão incentivando pessoas de nível universitário a se mudar para essas cidades, na esperança de atrair jovens trabalhadores.

A China poderia, em tese, mitigar os efeitos do envelhecimento da população impulsionando ao mesmo tempo o aumento da força de trabalho e a produtividade – isto é, trazendo mais gente para o mercado de trabalho e tirando mais gente dele. Nenhuma das duas iniciativas é fácil. A idade de aposentadoria é muito baixa na China (em algumas profissões, 60 anos para homens e 50 para mulheres), mas o governo resiste em elevá-la temendo reações. Como escreveu o economista George Magnus em Red Flags: Why Xi’s China is in Jeopardy, demografia não é destino e a China tem tempo de mudar de rumo. “A má notícia é que o tempo disponível está passando rapidamente, diz ele.

Uma boa notícia é que a China vem pensando criativamente em como fazer frente ao aumento do número de aposentados. Na China, tradicionalmente, espera-se que as crianças cuidem dos pais quando estiverem idosos, o que ajuda a explicar por que o investimento público em casas de repouso tem sido mínimo. Mas a maioria das famílias tem hoje apenas um filho, e esse filho está trabalhando.

Suzhou, uma cidade rica próxima a Xangai, mostra como a China pode tirar vantagem dessa situação. Em 2007, Lu Zhong, um empreendedor, fundou Jujiale, “uma casa de repouso virtual” que envia assistentes para residências particulares necessitadas deles. Jujiale tem hoje 1,8 mil funcionários que atendem a 130 mil aposentados. Lu diz que o empreendimento precisa crescer 15% ao ano para atender à demanda.

Há expectativas na China de atender a essa massa de grisalhos. Em 1.º de outubro, a China comemorou os 70 anos da República Popular. Quando chegar o centenário, em 2049, Xi diz que a China terá se desenvolvido a ponto de sua força ser visível ao mundo. Mas, como o destacado economista Ren Zeping observou sarcasticamente em um estudo recente, a média de idade na China em 2050 estará próxima de 50 anos, em comparação aos 42 dos Estados Unidos e aos apenas 38 da Índia. Isso levanta uma dúvida, escreveu ele: “Podemos confiar nesse tipo de estrutura demográfica? Um rejuvenescimento nacional?” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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