Michaela Rehle/ Reuters - 7/10/2016
Michaela Rehle/ Reuters - 7/10/2016

The Economist: Os riscos de um governo ‘mandão’ para as empresas

Líderes agora querem dobrar as companhias à sua vontade

The Economist,

20 de janeiro de 2022 | 07h52

A relação entre governos e empresas está sempre mudando. Depois de 1945, muitos países procuraram reconstruir a sociedade usando empresas controladas e administradas pelo Estado. Na década de 1980, diante de uma esclerose no Ocidente, o Estado recuou para se tornar um árbitro que supervisiona as regras para as empresas privadas competirem em um mercado global – uma lição aprendida, de certa forma, pelo bloco comunista

Agora, uma nova e turbulenta fase de transição está em andamento, à medida que os cidadãos exigem ação dos governantes sobre os problemas, desde uma maior justiça social ao combate às mudanças climáticas. Em resposta, os governos estão orientando as empresas a tornar a sociedade mais segura e justa, mas sem controlar suas ações ou seus conselhos. Em vez de ser o proprietário ou árbitro, o Estado se tornou um espécie de condutor no banco de trás. Esse intervencionismo empresarial autoritário é bem-intencionado. Mas, em última análise, é um erro.

Os sinais dessa abordagem estão por toda parte. O presidente Joe Biden está buscando uma agenda de protecionismo brando, de subsídios industriais e de regulamentação justa, visando tornar o lar do livre mercado seguro para as classes médias. Na China, a repressão da “Prosperidade Comum” de Xi Jinping foi projetada para conter os excessos de seu crescimento econômico desenfreado e criar um ambiente de negócios mais autossuficiente, manso e obediente. 

A União Europeia está se afastando do livre mercado para abraçar uma política industrial e uma “autonomia estratégica”. À medida que as grandes economias mundiais fazem uma guinada, o mesmo acontece com as de médio porte, como Reino Unido, Índia e México. Crucialmente, na maioria das democracias, a maior intervenção do Estado tem apoio bipartidário. Poucos políticos gostam de disputar uma eleição com uma plataforma de fronteiras abertas e mercados livres.

Isso porque muitos cidadãos temem que os mercados e seus árbitros não estejam à altura do trabalho. A crise financeira e a lenta recuperação econômica amplificaram a raiva contra a desigualdade. Outras preocupações são mais recentes. As dez maiores empresas de tecnologia do mundo são duas vezes maiores do que há cinco anos e às vezes parecem se comportar como se estivessem acima da lei. O pano de fundo geopolítico está muito distante dos anos 1990, quando a expansão do comércio e da democracia prometiam andar de mãos dadas, e está distante também da Guerra Fria, quando o Ocidente e a União Soviética tinham poucos vínculos comerciais. Agora, o Ocidente e a China totalitária são rivais, mas economicamente interligados. Cadeias de suprimentos globais engessadas estão causando uma inflação alta, reforçando a percepção de que a globalização está sobrecarregada. E a mudança climática é uma ameaça cada vez mais premente.

Nova abordagem

Os governos estão redesenhando o capitalismo global para lidar com esses medos. Mas poucos políticos ou eleitores querem voltar à política da nacionalização em grande escala. Nem mesmo Xi está interessado em reconstruir um império de siderúrgicas comandadas por comissários que fumam sem parar, enquanto Biden, apesar de sua nostalgia pelos anos 1960, precisa apenas caminhar pelos congestionados portos da Costa Oeste dos Estados Unidos para lembrar que a propriedade pública pode ser caótica. Ao mesmo tempo, a pandemia fez com que os governos experimentassem novas políticas inimagináveis em dezembro de 2019, desde o despejo de US$ 5 trilhões ou mais em doações e garantias para as empresas, em resposta à crise sanitária, até orientações para padronizar o espaço ideal para os clientes nos corredores de loja e supermercados.

Essa abertura ao intervencionismo está se aglutinando em torno de políticas que não têm um único escopo. Um conjunto de medidas afirma aumentar a segurança dos países, de forma ampla. O tipo de indústria para o qual é legítimo ter uma interferência do governo por motivos de segurança nacional se expandiu além da Defesa para incluir setores como energia e tecnologia. Nessas áreas, os governos estão atuando como planejadores centrais de fato, investindo em pesquisa e desenvolvimento para promover a inovação dentro do próprio país e oferecendo subsídios para redirecionar a alocação de capital. Na indústria de semicondutores, os Estados Unidos propuseram um programa de US$ 52 bilhões em subsídios, uma das razões pelas quais o investimento da Intel deve dobrar em comparação com cinco anos atrás. A China busca atingir a autossuficiência em semicondutores e a Europa, em baterias. 

A definição do que é visto como estratégico pode se expandir ainda mais para incluir produtos e insumos como vacinas, ingredientes médicos e minerais, por exemplo. Em nome da segurança nacional, a maioria dos grandes países endureceu as regras para o recebimento de investimentos estrangeiros. A aplicação de sanções e os controles de exportação de tecnologia dos Estados Unidos envolvem milhares de indivíduos e empresas estrangeiras.

O outro conjunto de medidas visa aumentar o papel de outros segmentos da sociedade. Acionistas e consumidores não têm mais a preferência incontestável na hierarquia dos grupos que são atendidos pelas empresas. Os executivos devem pensar mais o bem-estar de outras pessoas e grupos envolvidos, incluindo os funcionários, os fornecedores e até os concorrentes. 

Mudança

A parte mais visível disso é uma ação voluntária, na forma de investimentos “ESG” (sigla para as preocupações com o meio ambiente, o social e a governança, em inglês) que classificam as empresas por, digamos, proteger a biodiversidade, a população local ou seus próprios trabalhadores. Mas essas obrigações mais amplas podem se tornar mais difíceis de serem evitadas pelas empresas. Na China, a empresa de tecnologia Alibaba prometeu uma “doação” de US$ 15 bilhões para a causa da Prosperidade Comum, do governo chinês. No Ocidente, ações nessa direção pode ser impostas pela burocracia. Bancos centrais e fundos de pensão públicos podem evitar investir em empresas consideradas antissociais. A agência antitruste dos Estados Unidos, que antes protegia apenas os consumidores, está ponderando outros objetivos, como ajudar pequenas empresas.

A ambição de enfrentar os problemas econômicos e sociais é admirável. E até agora, pelo menos fora da China, o governo mandão não prejudicou a confiança das empresas. O principal índice do mercado de ações dos Estados Unidos está operando 40% acima do nível que tinha antes da pandemia, enquanto os gastos de capital das 500 maiores empresas listadas do mundo aumentaram 11%. No entanto, a longo prazo, surgem três riscos.

Divergência

O primeiro risco é que o Estado e as empresas, diante de objetivos conflitantes, não conseguirão encontrar os melhores resultados de forma equilibrada. Uma empresa de combustíveis fósseis obrigada a preservar boas relações trabalhistas e empregos pode relutar em reduzir suas operações, prejudicando o clima. Uma política antitruste que ajude centenas de milhares de pequenos fornecedores prejudicará dezenas de milhões de consumidores que acabarão pagando preços mais altos. Boicotar a China por seus abusos aos direitos humanos pode privar o Ocidente de suprimentos baratos de tecnologias de energia solar. Empresas e reguladores focados em um único setor geralmente estão mal equipados para lidar com esses dilemas e não têm legitimidade democrática para fazê-lo.

A diminuição da eficiência e da inovação é o segundo risco. A duplicação de cadeias de suprimentos globais é extraordinariamente cara: as empresas multinacionais têm US$ 41 trilhões em investimentos internacionais. Mais prejudicial ainda a longo prazo é o enfraquecimento da concorrência. As empresas que se empanturram de subsídios tornam-se fracas, e aquelas que são protegidas da concorrência estrangeira são mais propensas a tratar os clientes de maneira mesquinha. Se você quer controlar o Facebook, o concorrente mais ameaçador é o TikTok, da China. Uma economia em que políticos e grandes empresas administram o fluxo de subsídios de acordo com o pensamento ortodoxo não é aquela em que os empreendedores florescem.

O último risco é o clientelismo, que acaba contaminando os negócios e a política. As empresas buscam vantagem tentando manipular o governo: mesmo nos Estados Unidos a fronteira é cada vez mais turva, com mais intromissões corporativas no processo eleitoral. Enquanto isso, políticos e autoridades acabam favorecendo determinadas empresas, tendo investido dinheiro e suas esperanças nelas. O desejo de intervir para amenizar cada choque é viciante. Nas últimas seis semanas, Reino Unido, Alemanha e Índia gastaram US$ 7 bilhões para sustentar duas empresas de energia e uma operadora de telecomunicações cujos problemas não têm nada a ver com a pandemia.

Mediador 

A Economist acredita que o Estado deve intervir para fazer os mercados funcionarem melhor, por meio, por exemplo, de impostos sobre a emissão de carbono para transferir o capital para tecnologias mais amigáveis ao clima; por meio de investimentos em pesquisa e desenvolvimento para financiar a ciência que não recebe atenção das empresas; e por meio de um sistema de benefícios sociais que protege os trabalhadores e os mais pobres. Mas o novo estilo de governo intervencionista vai muito além disso. Seus defensores esperam prosperidade, justiça e segurança. É mais provável que eles acabem estimulando a ineficiência, os interesses mesquinhos e o isolamento. 

©️ 2022 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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