Justin Lane/ EFE
Justin Lane/ EFE

The Economist: Para onde vai o mercado de ações em 2021

Várias coisas podem atrapalhar a louca marcha ascendente no preço das ações, mas, olhando mais de perto, nenhuma parece muito temível

The Economist, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2021 | 05h00

Em um mundo em rápida mudança, os banqueiros de investimentos de Wall Street e da City de Londres se apegaram a certos rituais. Um deles é o “panorama” anual, que traça o caminho que a economia e os mercados financeiros devem tomar no ano seguinte. Esses documentos pesados começam a aparecer nas caixas de entrada algumas semanas antes do fim do ano.

Em meados de novembro, o estrategista de um banco tinha acabado de estabelecer suas perspectivas com toda satisfação. Sua aposta nas ações para 2021 era “construtiva”: a conversa em Wall Street é “de alta, mas não sem razão”. Alguns dias depois, porém, ele estava se sentindo um pouco menos satisfeito consigo mesmo. Sua perspectiva não era particular. Todos os estrategistas rivais também estavam sendo construtivos.

Não é difícil ver o porquê. O fim da pandemia de covid-19 está à vista. Os governos do mundo rico estão redescobrindo as alegrias do incentivo fiscal. As taxas de juros reais estão tão baixas que mesmo as ações com preços nas alturas parecem baratas. Em suma, as condições parecem maduras para novos ganhos no mercado de ações. Tão maduras, de fato, que um pensamento persistente continua surgindo na cabeça dos estrategistas: o que impedirá que os preços das ações em todo o mundo entrem em uma corrida realmente maluca?

Várias coisas podem atrapalhar a escalada do mercado. Uma delas é a economia. Desde abril, os mercados têm olhado além dos danos da covid-19, para a recuperação pós-pandemia. A descoberta de vacinas viáveis parecia trazer esse mundo para mais perto. No fim de 2020, os indicadores econômicos para EUA e China estavam surpreendentemente fortes. Mas a pandemia não está indo embora sem transtornos. Cepas mais virulentas de covid-19 forçaram lockdowns mais rígidos em algumas regiões da Europa. O prejuízo à economia mundial provavelmente será mais prolongado do que se esperava.

Outro obstáculo é o sentimento de mercado em alta. A última vez em que os gestores de fundos estiveram tão otimistas sobre a dimensão dos ganhos do mercado de ações foi em janeiro de 2018, de acordo com uma pesquisa mensal do Bank of America feita em dezembro. A grande maioria pensa que a economia mundial está na fase de “ciclo inicial” (ou seja, que há uma longa trajetória de crescimento pela frente).

Paradoxalmente, o sentimento positivo costuma ser visto como um motivo de cautela e de que os investidores estão se precipitando. Na verdade, 2018 começou com muita conversa sobre uma subida no mercado, mas terminou com pesadas perdas.

Muito do atual otimismo se baseia na ideia de que a política continuará ajudando a economia. Mas e se os formuladores de políticas mudarem de direção? O apoio fiscal contínuo requer ação política e acordos – o que nem sempre é fácil de se conseguir. Uma preocupação natural é que o estímulo possa ser retirado abruptamente, como aconteceu depois de 2010. Até agora, porém, há poucos sinais disso. Nos EUA, o pacote fiscal de US$ 900 bilhões aprovado depois do Natal adicionará dois pontos porcentuais ao crescimento do PIB em 2021, avaliam economistas do JPMorgan Chase. A perda da maioria republicana no Senado pode abrir a porta para novas flexibilizações fiscais. Na Europa, o impulso do fundo de recuperação de € 750 bilhões (US$ 920 bilhões) deve começar a ser sentido a partir do meio do ano.

Um outro risco – que vem tirando o sono de alguns adeptos do mercado em alta – é o ressurgimento da inflação. Lockdowns e transferências fiscais deixaram os consumidores do mundo rico com economias extras e muito combustível para queimar com demanda reprimida em uma farra de gastos pós-pandemia. Ao mesmo tempo, a recessão também minou a capacidade de oferta: muitas pequenas empresas (e algumas grandes) faliram. Com uma certa quantidade de gargalos, o aumento nos gastos pode gerar inflação. Uma dinâmica desse tipo está ocorrendo nos mercados de commodities: a retomada da demanda industrial (principalmente na China) por cobre e minério de ferro esbarrou nas restrições de oferta e ocasionou uma alta nos preços.

Um surto temporário de inflação parece bem plausível. Uma explosão sustentada de inflação mais alta – que force os bancos centrais a aumentar abruptamente as taxas de juros – nem tanto. Tampouco se sabe se os mercados de títulos reagirão de forma tão violenta a ponto de minar fatalmente o preço das ações. Os rendimentos dos títulos vêm subindo há meses: esta semana, o rendimento do título de dez anos do Tesouro americano ultrapassou 1% pela primeira vez desde março de 2020. 

Mas é preciso considerar outros efeitos da ressaca da pandemia. Um grande problema é a dívida. As empresas tomaram muito dinheiro emprestado para garantir que tivessem caixa suficiente para suportar as perdas de receita com os lockdowns. O aumento da carga de dívida vai prejudicar as finanças das empresas e pode, por sua vez, pesar no preço das ações. Mas talvez não seja um peso muito pesado. A compra de títulos corporativos pelos bancos centrais manteve os custos de financiamento extremamente baixos para empresas com acesso a mercados de capitais no atacado. 

Então, olhando mais de perto, muitos dos obstáculos para a marcha ascendente do mercado de ações não parecem assim tão temíveis. Um ano terrível para a economia ainda produziu retornos positivos em muitos mercados de ações. O fato de a recessão ter prejudicado muito mais as pequenas empresas não listadas do que as grandes empresas listadas é uma parte da história. A outra parte é a escassez de rendimentos em oferta de títulos. 

Manter ações a esses preços depende de juros baixos. Trata-se de uma condição global. Então, por que os preços das ações não subiriam em outros lugares? Talvez as previsões de Wall Street para 2022 venham a analisar os destroços de uma quebra do mercado de ações nos EUA. Mas parece plausível que os estrategistas aplaudam os preços em picos mais altos – de forma construtiva, é claro. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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