Kevin Light/Reuters
Kevin Light/Reuters

Quanto trabalho é necessário para uma pessoa ser feliz?

Estudo mostra que limite para se manter uma boa saúde mental é um dia por semana

The Economist,

06 de abril de 2021 | 10h00

A relação das pessoas com o trabalho é complexa. Apesar de todas as queixas de monotonia e burocracia, chefes obcecados por poder e colegas recalcitrantes, as pessoas necessitam da segurança de um emprego. Um século de pesquisa mostra que o desemprego é ruim para a saúde mental de um indivíduo, levando à depressão, ansiedade e uma queda da autoestima. Em média, ele tem até um maior impacto do que o divórcio.

Mas quanto trabalho você necessita fazer? Um estudo recente* feito pelo Centre for Business Research, da Universidade de Cambridge, aproveitou a oportunidade da pandemia para examinar o impacto do trabalho durante menos horas sobre o bem-estar das pessoas. Muitos empregados britânicos tiveram suas horas de trabalho reduzidas e seus salários foram subsidiados pelo governo. “Observamos que as pessoas que estão trabalhando menos horas ou de licença não estão com sua saúde mental mais prejudicada”, concluíram os autores. O que indica que o bem-estar social melhoraria se os governos adotassem esse sistema em futuras recessões, mesmo quando não desencadeadas por um vírus.

O que surpreende, particularmente, é como menos trabalho é necessário para deixar as pessoas felizes. O limite para uma boa saúde mental é de apenas um dia por semana, depois disso parece haver pouca diferença para o bem-estar das pessoas se elas trabalham oito ou 48 horas na semana. O estímulo para trabalhar surge claramente da sensação de missão cumprida, do status social que o trabalho cria e do espírito de equipe compartilhado com os colegas envolvidos nas mesmas tarefas.

Um pouco de trabalho é gratificante, mas o excesso de trabalho não. Um analista do Goldman Sachs fez uma pesquisa recente com seus colegas e elaborou seu relatório de pesquisa no estilo de uma apresentação do próprio banco de investimento. Seu estudo concluiu que os analistas na função há cinco anos haviam trabalhado 98 horas por semana desde o início de 2021 e só conseguiam dormir cinco horas à noite. E 77% deles haviam sido vítimas de abusos no trabalho, 75% queriam, ou pensavam, buscar aconselhamento e, em média, o grupo observou um declínio drástico da sua saúde física e mental. Como era de esperar, esses analistas achavam ser pouco provável que, dentro de seis meses, ainda estariam trabalhando no banco.

Para ser justo com o Goldman Sachs, o estudo foi feito com apenas 13 indivíduos. Trabalhadores descontentes foram os mais predispostos a responder à pesquisa. E a reação do banco foi reticente. “Um ano de covid e as pessoas compreensivelmente estão estressadas, por isso estamos ouvindo seus problemas e adotando várias medidas para resolvê-los”, disse um porta-voz da instituição.

Entretanto, a reação geral ao caso foi bem antipática. Aos olhos de algumas pessoas, os jovens analistas deveriam esperar ser tratados daquela maneira. Afinal por isso eram tão bem pagos. Veteranos do setor bancário de investimentos disseram que “era a mesma coisa na minha época e nunca me prejudicou”. Mas é difícil ver porque os jovens analistas do Goldman deveriam esperar sofrer abuso no ambiente de trabalho. Eles ingressaram num banco, não na Máfia.

Nem tem muito sentido manter os empregados trabalhando por tantas horas a ponto de conseguirem dormir apenas cinco horas por noite. Dificilmente eles trabalharão com total eficiência quando estão muito cansados. O melhor, certamente, é contratar mais analistas e pagar a eles um pouco menos. Dizer que esse grupo de profissionais mais jovens sempre trabalhou por longas horas não é uma boa explicação para serem levados ao máximo de estresse no início de carreira. É similar ao lendário provérbio da marinha, “As surras continuaram até o moral melhorar”.

Está claro que as economias não prosperam se todos trabalharem um dia por semana. Mas a necessidade de limitar as horas de trabalho excessivas remonta à época vitoriana. Durante grande parte do século 20 a duração média da semana de trabalho caiu ao passo que a produção continuou a subir.

Haverá ocasiões em que as pessoas têm de trabalhar até tarde ou levantar muito cedo para terminar um projeto (Bartleby escreveu certa vez que as necessidades da The Economist exigiram que ele acordasse às cinco horas da manhã). Trabalhar diariamente durante longas horas é ruim para a saúde do trabalhador. Algumas organizações podem ver o esforço de um funcionário para mostrar que é o melhor na função, como um sinal de que ele está disposto a colocar o trabalho à frente das suas famílias e amigos. Neste caso elas não necessitam ter empregados melhores. O que precisam é de melhores gerentes. /TRADUÇÃO DE TEREZA MARTINO

* “Cortar horas, não pessoas: nenhum trabalho, licenças, horário reduzido e saúde mental durante a pandemia de Covid no Reino Unido”, de Brendan Burchell, Senhu Wang, Daiga Kamerade, Loulia Bessa e Jill Rubery

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