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Yara Nardi/ Reuters
Yara Nardi/ Reuters

The Economist: Uma nova era de bonança está chegando com a diminuição dos lockdowns

A rápida implantação de modelos de novos negócios pode ter lembrado executivos de que vale a pena investir; gigantes da tecnologia, como Apple e Samsung, já ampliam seus horizontes

The Economist*,

29 de maio de 2021 | 05h00

À medida que os lockdowns diminuem no mundo rico, as pessoas começam a sair e gastar. Os restaurantes da Austrália estão lotados há meses. Os shoppings dos EUA estão cheios de gente esbanjando cheques de estímulo. Os cinemas da Grã-Bretanha voltaram a encher. Mas, nos bastidores, está só começando uma outra bonança de gastos potencialmente mais significativa.

As empresas estão começando a investir números altos. Nos EUA, os investimentos em bens de capital (“capex”) das empresas vêm aumentando a uma taxa anual de 15%, tanto em coisas pesadas, como máquinas e fábricas, quanto em bens intangíveis, como softwares. Empresas de outras partes do mundo também estão aumentando os gastos. Analistas do banco Morgan Stanley preveem um “ciclo de capex intenso”. O investimento global, avaliam, ficará 21% dos níveis anteriores à recessão até o fim de 2022. A consultoria Oxford Economics e a IHS Markit corroboram essa visão.

O otimismo marca uma grande mudança em relação à norma pré-pandemia. Nos EUA, o investimento interno bruto das empresas como parcela do PIB estava baixo desde o início dos anos 1980. Depois da crise financeira de 2007-09, foram necessários mais de dois anos para que o investimento global recuperasse o pico anterior. Em contraste, embora tenha caído mais abruptamente no início da pandemia, o investimento desta vez se recuperou mais rápido. A perspectiva de explosão do capex oferece a promessa de que a economia global não enfrentará uma reedição da década de 2010, quando o crescimento da produtividade e do PIB permaneceu teimosamente abaixo das tendências anteriores à crise. Mas será que esse otimismo vai durar?

Para entender por que os analistas estão tão otimistas, pensemos nas empresas presentes no S&P 500, o principal índice de ações dos EUA. Juntas, elas respondem por cerca de US$ 1 a cada US$ 7 do total de capital corporativo do mundo rico. Em um relatório recente, o Bank of America analisa as divulgações de lucros dessas empresas desde 2006 e conclui que os executivos estão mais otimistas com o capex. A The Economist analisou as 25 maiores empresas não financeiras do S&P 500 e descobriu que as expectativas dos analistas para o investimento em 2021 aumentaram 10% no ano passado.

Por enquanto, a recuperação do investimento está concentrada em alguns setores. Empresas globais de tecnologia devem aumentar o capex em 42% este ano, em relação a 2019. A Apple vai investir US$ 430 bilhões nos EUA em cinco anos. A TSMC, de Taiwan, a maior fabricante mundial de semicondutores, anunciou recentemente que investirá US$ 100 bilhões em fabricação nos próximos três anos. Os analistas avaliam que o capex da Samsung aumentará 13% este ano, depois de subir 45% em 2020.

As empresas de tecnologia estão gastando assim tão livremente em parte porque a pandemia criou novas demandas. Mais compras estão ocorrendo on-line. O trabalho remoto está aumentando. E novos equipamentos e softwares são necessários para que tudo isso funcione sem problemas. Pesquisa recente de Nicholas Bloom, da Universidade de Stanford, e Steven Davis e Yulia Zhestkova, da Universidade de Chicago, descobriu um grande aumento no número de pedidos de patente para tecnologias de trabalho em casa. O banco UBS avalia que as remessas de computadores para uso comercial aumentarão quase 10% neste ano.

Mas o entusiasmo não resume à tecnologia. No primeiro trimestre, as empresas do S&P 500 de varejo aumentaram o capex em 36% em relação ao ano anterior. Empresas como Target e Walmart estão tentando acompanhar os gigantes online. A Marks & Spencer, respeitada varejista britânica, anunciou recentemente que havia lançado 46 novos sites em mercados como Islândia e Usbequistão. Outros varejistas investem freneticamente para expandir a capacidade, pegos de surpresa pelo aumento nos gastos das famílias. Está faltando tudo, de sofás a banheiras de hidromassagem. 

A Maersk, uma empresa de transporte marítimo, disse recentemente que compraria mais contêineres para diminuir os gargalos. A carteira global de encomendas de gigantescos navios subiu de 9% da frota existente em outubro para mais de 15% em abril.

Cautela

A grande questão é se esse boom de investimentos pressagia uma mudança ampla e duradoura em relação à fraca década de 2010. Nem todo mundo está impulsionando o capex: a análise da The Economist sugere que não se espera que cerca de metade das empresas do S&P 500 invista mais em 2021 do que em 2019. As empresas globais de petróleo e gás estão reduzindo um décimo em relação aos níveis pré-pandêmicos. As companhias aéreas também estão cortando os gastos. Muitos executivos, entre eles os de empresas de matérias-primas e bens industriais, continuam pregando a disciplina. 

Outra preocupação é a tendência de maior consolidação. Estudo do FMI sugere que empresas com mais poder de mercado podem estar menos interessadas em investir. Nos cinco anos anteriores à pandemia, por exemplo, o investimento empresarial americano em hotéis foi pouco maior do que nos cinco anos anteriores à crise financeira, embora a demanda estivesse muito maior.

Contrariando esse quadro, porém, as condições econômicas de hoje podem convencer as empresas relutantes a abrir a carteira. Em contraste com o período pós-crise financeira, as famílias têm muitas economias para gastar. Desta vez, uma resposta fiscal e monetária mais decisiva também permitiu que as empresas acumulassem caixa. A emissão de títulos por empresas americanas com classificação de investimento saltou para um recorde de US$ 1,7 trilhão em 2020, ante US$ 1,1 trilhão em 2019, de acordo com a S&P Global Market Intelligence.

Além disso, a realocação econômica provocada pela covid-19 e suas implicações serão sentidas por algum tempo. Os gerentes de certas indústrias, especialmente de semicondutores, já admitem que entraram na pandemia com pouquíssima capacidade ociosa e estão prometendo projetos plurianuais para compensar. E o mais importante, talvez: a rápida implantação de modelos de negócios inteiramente novos pode ter lembrado os executivos de que vale a pena investir. E o boom de investimentos pode estar só começando. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

*2021 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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