Coley / The New York Times
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A era dos produtos abundantes e baratos pode estar chegando ao fim

Com pandemia e guerra na Ucrânia, empresas estão repensando onde conseguir seus produtos e estocar reservas, mesmo que isso signifique menor eficiência e custos mais altos

Jeanna Smialek e Ana Swanson, The New York Times

16 de maio de 2022 | 10h14

Durante as três últimas décadas, empresas e consumidores se beneficiaram das conexões internacionais que mantinham a oferta contínua de eletrônicos, roupas, brinquedos e outros produtos tão abundante que isso ajudava os preços a permanecerem baixos.

Mas conforme a pandemia e a guerra na Ucrânia continuam a atormentar as relações comerciais, esse período de abundância parece estar passando por uma reversão parcial. As empresas estão repensando onde conseguir seus produtos e estocar reservas, mesmo que isso signifique menor eficiência e custos mais altos. Se continuar, tal mudança da globalização ajustada com precisão poderia ter implicações importantes para a inflação e a economia mundial. 

Os economistas estão debatendo se os recentes transtornos nas cadeias de suprimentos e os conflitos geopolíticos resultarão em uma reversão ou reconfiguração da produção global, na qual as fábricas que passaram a funcionar fora dos Estados Unidos voltam para o país e para outros que representam menor risco político.

Se isso acontecer, uma redução de décadas nos preços de muitos produtos pode chegar ao fim ou até começar a se comportar na direção oposta, possivelmente promovendo a inflação geral. Desde mais ou menos 1995, bens duráveis, como carros e equipamentos, reduziram a inflação, e os preços de bens não duráveis, como roupas e brinquedos, muitas vezes aumentaram apenas lentamente.

Essas tendências começaram a mudar no final de 2020, depois do início da pandemia, à medida que os custos com transporte de mercadorias subiram e a escassez bateu de frente com a forte demanda, elevando os preços de carros, móveis e equipamentos. Embora poucos economistas esperem que os aumentos vertiginosos de preços do ano passado continuem, a questão é se a tendência para produtos pelo menos um pouco mais caros continuará.

A resposta pode depender se um distanciamento da globalização acontecer.

“Sem dúvidas seria um mundo diferente – pode ser um mundo de inflação maior, talvez menor produtividade, porém mais resiliente, com cadeias de suprimentos mais robustas”, disse Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), em um evento no mês passado ao ser questionado a respeito de um possível distanciamento da globalização.

Entretanto, segundo Powell, não é óbvio o quanto os contextos mudarão radicalmente. “Não está claro que estejamos vendo uma reversão da globalização”, disse ele. “Está claro que ela desacelerou.”

O período de integração global que predominou antes da pandemia tornou muitas das coisas que os americanos compram mais baratas. Computadores e outras tecnologias tornaram as fábricas mais eficientes, e elas produziram tênis, mesas de cozinha e eletrônicos em um ritmo sem precedentes na história. As empresas reduziram seus custos de produção transferindo as fábricas para fora dos EUA, onde os salários eram mais baixos. A adoção de contêineres de aço para transporte e navios de carga cada vez maiores permitiu que os produtos fossem transportados de Bangladesh e da China para Seattle e Tupelo, no Mississippi, e para vários outros lugares por preços surpreendentemente baixos.

Mas essas mudanças também tiveram consequências para os trabalhadores das fábricas americanas, que viram muitos empregos desaparecerem. A reação política à globalização ajudou a eleger o ex-presidente Donald Trump, já que ele prometeu trazer as fábricas de volta aos EUA. As guerras comerciais dele e o aumento das tarifas incentivaram algumas empresas a retirar suas operações da China, embora normalmente elas acabassem indo para outros países de baixo custo, como Vietnã e México.

A pandemia também expôs o efeito bola de neve de cadeias de suprimentos altamente otimizadas: paralisações de fábricas e atrasos no transporte tornaram difícil conseguir alguns produtos e peças, inclusive semicondutores, cruciais para eletrônicos, eletrodomésticos e carros. As despesas com o transporte de mercadorias aumentaram em dez vezes em apenas dois anos, acabando com a economia de produzir alguns produtos fora dos EUA.

Desde o fim de 2020, os preços de máquinas de lavar, sofás e outros produtos grandes subiram acentuadamente conforme as limitações de produção entraram em conflito com a alta demanda.

Desde então, a inflação apenas acelerou. A invasão da Ucrânia pela Rússia atrapalhou ainda mais as cadeias de suprimentos, elevando os preços do gás e de outras commodities nos últimos meses e ajudando a disparar o índice de inflação observado atentamente pelo Fed em 6,6% ao longo do ano até março.

Esse é o ritmo mais rápido da inflação desde 1982, e os aumentos dos preços estão atingindo o nível mais alto em décadas em muitas economias avançadas, inclusive na zona do euro e no Reino Unido.

Muitos economistas esperam que a alta dos preços para bens duráveis diminua consideravelmente nos próximos meses, o que deve ajudar a acalmar a elevação geral deles. Dados de março sugerem que eles estavam começando a abrandar. O aumento das taxas de juros do Fed pode ajudar a moderar as aquisições, já que os empréstimos para comprar carros, máquinas ou equipamentos para melhoria de imóveis se tornam mais caros.

Mas ainda há dúvidas em relação a se – levando em conta que as empresas e os países aprenderam – os principais produtos voltarão a ter quedas constantes de preços, como costumava ser antes da pandemia.

Ainda não está claro até que ponto as fábricas estão voltando para os EUA. Um “índice de reshoring” publicado pela Kearney, empresa de consultoria de gestão, foi negativo em 2020 e 2021, indicando que os EUA estavam importando mais produtos manufaturados de países de baixo custo.

Entretanto, mais empresas relataram estar transferindo suas cadeias de suprimentos da China para outros países, e os executivos americanos têm se mostrado mais otimistas em trazer suas fábricas para os EUA.

A Duke Realty, que aluga armazéns e instalações industriais no país, espera que a mudança seja uma fonte de demanda nos próximos anos, embora a mudança talvez demore um pouco. Os clientes estão “neste momento, protegendo o futuro de suas cadeias de suprimentos”, disse Steve Schnur, diretor de operações da empresa, em uma reunião para divulgação de resultados na semana passada.

“Algumas fábricas estão voltando para o país – não tenham dúvida disso”, disse Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas os dados mostram que a maioria das empresas está mitigando os riscos aumentando seus estoques e encontrando fornecedores extras em países de baixo custo, disse Ngozi. Esse processo pode acabar integrando os países mais pobres da África e de outras partes do mundo às cadeias de valor globais de forma mais intensa, disse ela.

A secretária do Tesouro dos EUA, Janet Yellen, disse no mês passado que as cadeias de suprimentos se mostraram muito vulneráveis devido à pandemia e à guerra na Ucrânia, e pediu uma reorientação em torno de “um grande grupo de parceiros de confiança”, uma tática que ela chamou de “friendshoring” (algo como “amigoshoring”).

A estratégia pode resultar em alguns custos maiores, disse ela, porém seria mais resiliente, e com um grupo grande o suficiente permitiria que os países mantivessem a eficiência da divisão global do trabalho.

“Nossas cadeias de suprimentos não são seguras, nem resilientes”, disse Janet. “Essa é uma ameaça que precisa ser enfrentada.”

A Ford Motor, que tem lidado com problemas em sua cadeia de suprimentos devido à pandemia, está trabalhando para fabricar suas próprias baterias – inclusive nos EUA. “A médio e longo prazo, garantir matérias-primas, processamento, precursor e refinamento, e configurar a produção de baterias aqui nos EUA e em todo o mundo é um grande projeto de trabalho para nós”, disse Jim Farley, CEO da empresa, em uma reunião para divulgação de resultados na semana passada.

As empresas também estão começando a encarar a pressão sobre o preço do verdadeiro custo das emissões de carbono com o transporte de mercadorias, o que poderia motivá-las a levar as fábricas para mais perto dos consumidores.

Scott N. Paul, presidente da Alliance for American Manufacturing, disse que os riscos econômicos e políticos, junto com os cálculos de custo das emissões de carbono, estavam incentivando as empresas a trazer gradualmente suas fábricas para mais perto dos EUA.

“Na minha opinião, isso só vai acelerar”, disse ele.

As mudanças populacionais de longo prazo também podem agravar os efeitos de uma desaceleração ou recuo na globalização, aumentando os preços ao tornar o trabalho mais caro. Em 2050, uma em cada seis pessoas em todo o mundo terá mais de 65 anos, de acordo com as estimativas das Nações Unidas, uma alta em comparação com a proporção de uma em cada onze, em 2019.

Esse envelhecimento significa que, depois de décadas nas quais o acesso a um leque global de mão-de-obra tornou os funcionários baratos e fáceis de encontrar, a recente escassez de trabalhadores pelo mundo pode durar. Isso poderia fazer os salários aumentarem, e as empresas talvez repassarem as despesas maiores com a mão-de-obra para os consumidores, aumentando os preços.

“A demografia e a reversão da globalização significam que muito disso provavelmente será permanente – sem dúvidas, não tudo”, disse Charles Goodhart, professor emérito da London School of Economics, a respeito das questões sobre preços e mão de obra durante a pandemia. Goodhart coescreveu um livro em 2020 no qual defende que o mundo está à beira de uma reversão demográfica.

“Haverá forças estruturais aumentando a inflação provavelmente nas próximas duas a três décadas”, disse ele.

Alguns discordam. Adam Posen, presidente do Instituto Peterson de Economia Internacional, destacou que muitos trabalhadores estavam disponíveis em partes do sul da Ásia, na África e na América Latina. E a inflação tem sido fraca no Japão há décadas, apesar de sua população estar muito mais idosa.

Assim como uma queda na globalização não necessariamente aumentaria a inflação a longo prazo, disse ele. Ao desacelerar o crescimento, isso pode levar a menor demanda e a alta de preços.

Mas a trajetória entrelaçada da globalização, dos preços bons das mercadorias e da inflação, de modo geral, será aquela que os economistas observam de perto.

“As pessoas costumavam dizer que isso era a pergunta de um milhão de dólares, mas acho que hoje em dia é a questão de bilhões ou trilhões de dólares”, disse Carlos Viana de Carvalho, ex-economista do Fed de Nova York e atual chefe de pesquisa da Kapitalo Investimentos, empresa de gestão de ativos. É possível, mas não está claro, disse ele, que o mundo esteja se encaminhando para uma nova era econômica marcada por uma inflação mais alta em meio às mudanças na integração global e à intensificação da preocupação com o clima.

“Essas coisas são muito difíceis de se identificar em tempo real”, disse ele. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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