BETO NOCITI/BCB - 01/02/2017
BETO NOCITI/BCB - 01/02/2017

‘Houve estímulo demais, e a gente está vendo a consequência’, diz Tiago Berriel, ex-diretor do BC

Economista, hoje estrategista-chefe da gestora do BTG Pactual, afirma que os governos e os bancos centrais podem ter exagerado nos estímulos durante a pandemia, o que levou à inflação; agora, é preciso subir os juros e voltar à normalidade

Filipe Serrano, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 15h00

O sinal de que os bancos centrais dos países ricos devem aumentar os juros marcam o início de volta à normalidade da política monetária no mundo, depois da enxurrada de dinheiro despejada na economia pelos governos para conter os efeitos da crise sanitária. Essa é a visão do economista Tiago Berriel, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central e hoje estrategista-chefe do BTG Pactual Asset Management, a gestora de investimentos do banco de mesmo nome. 

Em entrevista ao Estadão, Berriel diz que a forte alta dos juros no Brasil nos últimos meses ajuda a evitar uma saída de capitais nesse ambiente de juros mais altos nos EUA e na Inglaterra, desde que o debate eleitoral no ano que vem não leve a uma percepção de descontrole das contas públicas.

“Se a gente tiver uma discussão organizada e propositiva da situação fiscal no processo eleitoral, isso vai ser uma outra forma de blindar a economia ”, diz Berriel, que ocupou o cargo no Banco Central entre 2016 e 2019, num período em que o Brasil também foi pressionado por uma alta de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Leia a seguir os principais trechos da entrevista. 

Como avalia o movimento dos bancos centrais dos países ricos de sinalizar uma alta de juros?

A gente está vendo claramente uma tendência de virada da política monetária nos países avançados. Desde o choque inicial da pandemia, tivemos um período de muito estímulo, tanto fiscal quanto monetário, principalmente no primeiro ano da crise sanitária. Existia a percepção nos países centrais, desde a crise de 2018, que era possível fazer estímulos sem gerar inflação, sem sobreaquecer a economia. Não teria inflação de bens, de serviços, nem de salários, nem nada. Esse era o debate entre os bancos centrais e economistas: por que não tem inflação? Deu uma sensação de que se poderia, ou de que se deveria, fazer mais. E de que o custo de fazer muito estímulo era baixo. Os países avançados aprenderam essa lição e fizeram mais. Até que uma hora bateu. A gente agora tem os efeitos dessa combinação de muito estímulo fiscal e monetário. 

A percepção de que os estímulos não provocariam uma alta de preços estava errada?

É natural que depois desse estímulo todo, a gente tenha uma retirada de estímulos e recomposição de juros, de volta à normalidade da política monetária. E a gente deveria pensar também numa volta à normalidade da política fiscal. Estamos vendo o início desse processo, que tem sido conduzido com muito cuidado, com muita parcimônia. A inflação subiu muito, mas não teve nenhuma reação abrupta dos bancos centrais. Está tentando se fazer de maneira bem sinalizada, bem antecipada. No Fed (Federal Reserve, o banco central americano), o processo começou com a diminuição das compras de títulos. Agora está passando por uma sinalização de aumento de juros no ano que vem. O mercado já precifica uma parte desses aumentos. 

Como o mercado tem reagido?

O mercado ainda precifica um ciclo relativamente pequeno de subida tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra. Ainda tem uma visão positiva de que esse processo inflacionário não vai ser duradouro e vai ser domado sem muita dificuldade, sem uma reação muito forte nesses países centrais. Ainda é um cenário favorável para as economias centrais, mesmo com essa recomposição de juros e essa retirada de estímulos. 

Qual é o impacto para os países emergentes, como o Brasil?

Para todos os países emergentes, a alta dos juros em países avançados é uma situação pior do que sem ela. Não dá para achar que é melhor. Um argumento que alguém poderia fazer é de que a inflação de preço de commodities pode ser arrefecida pela política monetária dos bancos centrais. Essa inflação de commodities menor poderia fazer a inflação nos emergentes cair. Pode até ter um efeito, mas é muito menor do que o efeito dos juros mais altos nesses países, por causa do impacto na depreciação cambial e na necessidade de subir os juros ainda mais nos países emergentes. No geral, o efeito líquido é negativo para países emergentes. É igualmente ruim para todos os países emergentes? Acho que não. 

Por que não?

Países que têm necessidade de financiamento externo maior são mais vulneráveis, o que não é bem o caso do Brasil. Mas países com situação fiscal frágil também estão expostos. Essa parte fiscal é claramente um ponto fraco do Brasil. Em contrapartida, a gente tem um ciclo de política monetária já muito forte, por vários motivos. Em uma reunião a gente sobe 1,5 ponto na taxa de juros, que já é todo o ciclo precificado do Fed nos próximos cinco anos. O nosso ajuste é tão grande que, pelo diferencial de juros, não deveria ser (um problema) tão relevante. Mas quando o mal estar aparece entre os emergentes de uma retirada de estímulos nos países centrais, normalmente pega todo mundo. Mesmo os mais protegidos. A gente viu isso, por exemplo, em 2018, quando o Fed começou a subir os juros. Teve volatilidade, depreciação cambial, necessidade de aumento de juros em vários países emergentes. Na Turquia, na África do Sul, no Brasil. 

Por enquanto ainda não tem sinal de que isso está acontecendo?

A gente não viu um impacto violento desse ajuste de política monetária nos países centrais de forma geral nos emergentes ainda. Mesmo a reação do mercado à decisão do Fed, não foi uma reação de surpresa. Pelo contrário. Foi uma reação bem tranquila. E não teve efeito muito forte nem sobre o mercado de ações. Nos Estados Unidos, nem foi tão mal. Nem sobre moedas emergentes em geral. E nem nos preços de commodities. 

De toda forma, qual o risco desse ambiente de juros mais altos para o Brasil?

Dificulta um pouco a atividade econômica. É sempre melhor ter um ambiente de muita liquidez internacional. Mas tem dois pontos. O ajuste de política monetária é uma maneira de mitigar esses efeitos. E se a gente tiver uma discussão organizada e propositiva da situação fiscal na campanha eleitoral, vai ser uma outra forma de blindar a economia. Nosso dever de casa é encarar com seriedade e ter propostas racionais e responsáveis nas agendas eleitorais dos candidatos. Essa é a maneira de blindar esse efeito. 

É uma situação diferente da que houve em 2018? 

Num certo sentido, o fato de a gente estar num ciclo de aperto nos dá uma certa proteção. Nosso diferencial de juros com relação aos EUA aumentou muito rápido. Quando vier o ajuste da economia americana, essa diferença passa a ser relativamente menos importante. Não era o caso em 2018. Em 2018, a gente tinha acabado um processo de estímulo no Brasil. A gente estava reduzindo os juros quando veio o aumento do Fed. Eram movimentos contrários. Agora, o Fed vai subir depois de a gente ter subido uma enormidade. Nesse sentido, é melhor. É uma certa proteção. 

Alguns analistas falam que os BCs demoraram para reconhecer que a inflação não seria temporária. Qual a sua avaliação sobre isso?

Existiam muitos elementos econômicos para imaginar as pressões inflacionárias como a gente acabou vendo. A gente deveria supor que, com toda a transferência de renda de política fiscal, com a taxa de juros tão baixa, e com a poupança involuntária que as famílias tiveram durante a crise, teria muita demanda num processo de reabertura da economia. E isso a gente está vendo. Nesse sentido, tinha uma previsibilidade. Já os problemas nas cadeias produtivas e dos preços de energia eram difíceis de se prever. Tenho para mim que houve estímulo demais. E a gente está vendo a consequência disso. Existem riscos de não fazer esse ajuste. Nos EUA, porém, apesar de toda essa inflação acumulada, ainda existe confiança no mercado de que um ciclo não muito elevado vai ser capaz de levar a uma trajetória de inflação de volta ao lugar certo. As condições são bem menos desafiadoras para a política monetária do que em países emergentes. Nos países avançados, é possível tomar mais risco, do lado estimulativo, do que em países emergentes. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.