Tim Cook sai da sombra de Steve Jobs

Presidente da Apple impõe estilo de gestão transparente, que pouco lembra a administração 'enigmática' do fundador da empresa

CHRIS OBRIEN , LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h08

Depois de ficar sob a pesada sombra do legado de Steve Jobs por mais de um ano, o presidente da Apple, Tim Cook, deu recentemente um passo adiante rumo aos holofotes na semana passada. Lançando mão de uma transparência quase nunca mostrada por seu enigmática antecessor, Cook concedeu duas longas entrevista que mostraram as diferenças tanto em estilo quanto em substância entre os dois homens.

As entrevistas também serviram como um sinal de que Cook abraçou o slogan "Pense Diferente" da Apple, à medida que ele decidiu repensar a cultura e os negócios da companhia cujo comando ele herdou. "Ele representa uma Apple mais afável, mais gentil", disse Carl Howe, analista que acompanha há anos a ação da Apple pela consultoria International Data Corp.

"É uma grande corporação multinacional. Eu acho que Tim fez um trabalho melhor em reconhecer isso", disse Howe. "Jobs ainda se lembrava quando a empresa se resumia a três pessoas trabalhando em uma garagem. Quando você comanda uma das maiores companhias do mundo, suas habilidades precisam ser diferentes."

Cook aumentou dramaticamente o ritmo de lançamentos de produtos da Apple. Somente nos últimos meses, a empresa apresentou o iPhone 5, o novo iPad, além de mudanças na linha iPod e da criação do iPad Mini, uma hipótese que havia sido descartada por Steve Jobs. Cook também mostrou quem manda na administração: após um confronto, ele demitiu um executivo que foi amigo de Jobs por anos.

Riscos. Tantas mudanças têm atraído aplausos, mas analistas dizem que elas também trazem riscos. E houve tropeços, como a controvérsia sobre o serviço de mapas da Apple, que levantou dúvidas sobre a capacidade técnica de design da companhia. Na quarta-feira à noite, após o fiasco de seu serviço próprio de localização, a Apple voltou a permitir que os usuários de sua loja virtual voltassem a usar o Google Maps adaptado ao sistema operacional iOS.

Analistas também dizem que ainda há dúvidas sobre a capacidade de Cook de fazer algo que Steve Jobs fazia: motivar a criação de produtos que mudam a maneira das pessoas trabalharem e viverem, como foi o caso do iPhone e do iPod.

Nas últimas semanas, as ações da Apple experimentaram uma extraordinária volatilidade em meio a dúvidas sobre suas possibilidades de crescimento e à perda de participação de mercado em algumas categorias. Após atingirem a máxima histórica de US$ 702,10 em setembro, os papéis da companhia acumulam queda de mais de 20% nos últimos dois meses.

Ainda assim, em uma entrevista à Business Week, Cook insistiu que a bênção para modificar a estrutura da Apple e escolher seus próprios caminhos havia partido do próprio Steve Jobs, em conversas nas semanas anteriores à morte do fundador da empresa, em 2011.

"Ele me disse: 'Eu nunca quero que você pense sobre o que eu faria'", lembrou Cook. "'Apenas faça o que é certo'." Segundo analistas que acompanham a Apple, Cook seguiu o conselho à risca, mas tomou as decisões em seu próprio tempo.

Estilo. "Ele não poderia simplesmente começar como o novo presidente da empresa e fazer mudanças radicais imediatamente", disse Regis McKenna, uma lenda do marketing do Vale do Silício que trabalhou na Apple nos primeiros anos de vida da companhia de Steve Jobs. "Ele não tomou decisões precipitadas só para ser diferente. Ele é muito analítico e metódico. E ele só toma decisões quando acredita que elas estejam certas."

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