Tiros no escuro
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Tiros no escuro

Sem previsão para o fim da guerra na Ucrânia e com soluções políticas em curso para lidar com a alta de preços dos combustíveis, o Banco Central fica sem boas condições de visibilidade para recalibrar a Selic

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2022 | 19h33

Desta vez, tanto o Banco Central do Brasil quanto o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) estão perseguindo o inimigo no escuro.

Nesta quarta-feira, o Banco Central por meio do Comitê de Política Monetária (Copom) elevou os juros básicos (Selic) em 0,5 ponto porcentual, para 13,25% ao ano – o que era esperado. Mas o Fed foi mais agressivo do que se esperava até o início desta semana. Empurrou os juros básicos (Fed funds) em 0,75 ponto porcentual, para faixa entre 1,50% e 1,75% ao ano - maior patamar em 28 anos.

 


A escuridão do nosso Banco Central se deve a não saber para onde vão os preços dos derivados, não em julho ou agosto, mas em janeiro. O ICMS sobre os combustíveis varia de Estado para Estado, de 23% a 34% na gasolina, 13% a 32% no etanol e 13% a 18% no óleo diesel. Vai desabar por decisão do Congresso para 17%. Só nessa mexida os preços podem cair em R$ 1,65 por litro da gasolina e em R$ 0,76 o do diesel, segundo cálculos do relator do projeto, senador Fernando Bezerra (MDB-PE). Mas tem mais. Se aprovada a PEC eleitoreira do governo, o ICMS sobre o diesel será zerado até 31 de dezembro, mas voltará aos 17% dia 1º de janeiro. Como surfar nesses vagalhões carregados de incerteza? Além disso, essas manobras populistas terão enorme custo fiscal ainda não claramente dimensionado que, por sua vez, tende a pressionar a cotação do dólar e também a inflação. 

No comunicado divulgado após a reunião desta quarta-feira, o Copom advertiu para esse provável impacto fiscal, reconheceu que não pode prever com um mínimo de segurança como os preços dos combustíveis incharão a inflação no curto prazo e no início de 2023 e avisou que a economia global corre novo risco de recessão, em consequência da atuação dos grandes bancos centrais no combate à alta da inflação e dos demais impactos da guerra na Ucrânia. É provável que, na reunião de agosto, o Copom tenha condições melhores de visibilidade para recalibrar a Selic.

O Fed parece ter sido repentinamente perseguido pelo fantasma de Paul Volcker. Ele era o presidente do Fed em 1980, quando os choques do petróleo atiraram a inflação dos Estados Unidos para o céu. A decisão de Volcker foi atirar os juros para inéditos 20% ao ano. Os preços, afinal, foram domados, mas à custa de brutal recessão.

Pois, na sexta-feira, o Fed e o resto do mercado foram surpreendidos com um esticão do custo de vida nos Estados Unidos, em maio, para a casa dos 8,6% ao ano. E o presidente do Fed, Jerome Powell, que semanas antes garantira que a alta dos juros se limitaria a 0,5 ponto porcentual ao ano, deu um jeito de vazar para o mercado que teria de ir além, para 0,75 ponto porcentual. Essa foi a razão da turbulência que derrubou os mercados nos dias seguintes.

Ninguém sabe até onde vai a guerra nem qual o limite para os preços da energia e dos alimentos e qual o tamanho da recessão global, que também depende da recuperação da economia da China. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.