Tirou 10 em álgebra? Isso vale US$ 120

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Startup permite que estudantes consigam incrementar bolsas de estudo em faculdades

NATASHA SINGER, The New York Times

22 Fevereiro 2016 | 20h03

Como a primeira da família a candidatar-se à faculdade, Ashley Ayala-Perez era totalmente "crua" quanto ao processo de admissão. E, mais assustador, tinha ainda que descobrir como pagar as mensalidades - e navegar na burocracia das bolsas de estudo. 

No ano passado, quando era veterana na Northeast High School, em Filadélfia, o orientador da escola postou o anúncio de um novo programa chamado Raise.me. Diferentemente de outras programas de bolsa, este não exigia que os estudantes escrevessem ensaios ou apresentassem recomendações de professores. Bastava que fornecessem detalhes de seu bom desempenho no curso secundário e passariam imediatamente a acumular créditos  - condicionados às vagas - para certas faculdades. 

   

Aos olhos de Ashley,  que nasceu em Porto Rico e mudou-se com a família para Filadélfia aos 13 anos, o programa parecia fácil demais para ser real. 

Rapidamente, ela usou o Raise.me para calcular quanto economizaria se fosse aceita na Universidade Estadual da Pensilvânia, sua primeira escolha. 

Ganhou de cara um crédito de US$ 100 por ter frequentado aulas de pré-álgebra e um de US$ 1.500 pelos "10" obtidos em mais de uma dezena de cursos. Somou ainda um adicional de US$ 250 pela visita ao câmpus local da Penn State.

   

"Fiquei meio viciada. Você começa a somar e descobre quanto dinheiro pode fazer", me disse Ashley. "Aí tudo vai ficando mais concreto."

Para estudantes de primeira geração da família a chegar à faculdade, como Ashley Ayala-Perez, a candidatura e o processo de ajuda financeira podem parecer uma intrincada caixa-preta. Tipicamente, estudantes do secundário só tomam conhecimento dos detalhes dos pacotes  de ajuda oferecidos pelas faculdades depois de admitidos. Mas muitos, de famílias de baixa renda, nem chegam a conhecer as bolsas e facilidades porque decidem não se candidatara à faculdade temendo não poder pagá-la. 

O Raise.me, startup de três anos de São Francisco, visa a tornar os critérios de admissão mais claros e os custos mais acessíveis, particularmente para universitários de "primeira geração". Estudantes secundários podem entrar no site gratuito para incrementar bolsas visando a cerca de cem instituições participantes, entre elas Oberlin, Temple University e, em breve, a Universidade de Iowa. 

Acumular pontos para bolsas de uma faculdade não constitui uma oferta de admissão. Mas, se o candidato for aceito e frequentar uma delas, recebe os créditos do Raise.me - mais os créditos federais ou estaduais a que tenha direito. 

Em média, as faculdades participantes têm concedido bolsas para novos estudantes de quase US$ 5 mil anuais por quatro anos. No passado, essas instituições podem ter proporcionado bolsas similares; ao informar antes os estudantes de sua situação, os administradores esperam que eles possam fazer suas escolhas mais bem informados.

"Isso lhes possibilita estabelecer objetivos imediatos", diz Preston Silverman, executivo e cofundador do Raise.me. "E damos a eles informações para que acompanhem seu avanço."

A abordagem da startup é uma combinação de dois conceitos econômicos populares. Um é o nudging, método para impulsionar as pessoas a fazer as melhores escolhas; outro são as microfinanças - empréstimos para empreendedores que não teriam outras condições de acesso a recursos.

Raise.me cobra das instituições participantes taxas anuais de US$ 4 mil a US$ 20 mil, com base no tamanho da faculdade e seu programa de bolsas. Cada escola estabelece o próprio critério. 

Penn State dá acesso a seu programa Raise.me a estudantes de cinco escolas secundárias da Filadélfia e de seis secundárias rurais da Pensilvânia. Esses estudantes podem ganhar bolsas de acima de US$ 4 mil anuais por quatro anos. Entre outros prêmios, a universidade dá US$ 120 por cada "nota 10" em matérias básicas e US$ 100 por frequência total durante o ano. 

"Vamos acompanhar para ver se os critérios que escolhemos fazem a diferença", diz Jacqueline Edmondson, da Penn State. Uma vez que muitos estudantes de secundário trabalham para ajudar as famílias, a Penn State pode em breve dar reconhecimento a essa variável. "Talvez mudemos os critérios para beneficiar os estudantes", avalia Jacqueline.

A esperança é que, destacando e premiando certas atividades acadêmicas e extracurriculares, Raise.me ajude a equilibrar a situação para estudantes de baixa renda. O risco potencial é que introduzir recompensas financeiras possa prejudicar as motivações básicas para os estudantes se saírem bem no secundário, como leitura, desviando-os para a busca de dólares de bolsas de estudo. 

"Acionar com dólares para premiar microconquistas provavelmente levará um punhado de adolescentes a pensar "como vou ganhar meus próximos US$ 250?" em vez de se concentrar no que realmente importa - que é aprender", diz Suzanne Gurland, da Middlebury College, de Vermont, estudiosa de processos que ajudam crianças a se saírem bem na escola. 

Preston Silverman, do Raise.me, diz que o programa não afasta o entusiasmo natural dos estudantes, mas motiva-os mostrando meios adicionais para preparar-se para a faculdade. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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