Ricardo Teles/Suzano
Um dos compromissos da Suzano é reduzir o consumo de água no processo produtivo  Ricardo Teles/Suzano

Títulos com metas de sustentabilidade têm mais demanda do que oferta

Empresas como Simpar, Klabin e Suzano, que lançaram este ano títulos ligados às preocupações com o tema ESG, viram procura pelos papéis que chegou a superar dez vezes a oferta

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

Reintroduzir espécies extintas ou ameaçadas, reduzir consumo de água e de emissão de poluentes, ter fornecedores livres de desmatamentos e frota de veículos com combustíveis limpos são alguns dos compromissos estabelecidos por companhias brasileiras em recentes emissões de bônus e têm atraído demandas acima da oferta.

Além dos “green bonds”, ou títulos verdes, começam a aparecer no mercado os chamados SLB (títulos de dívidas atrelados a metas de sustentabilidade), que preveem penalidade à empresa que não cumprir o prometido no prazo com acréscimo na remuneração aos investidores. Papéis com esse compromisso têm sido muito atrativos, especialmente no mercado internacional.

Nas emissões feitas do fim de 2020 para cá, a demanda foi até dez vezes maior do que a oferta para esse tipo de título sustentável. Com maior procura os juros são inferiores aos de emissões convencionais. O diretor de Relações com Investidores da Simpar, Denys Marc Ferrez, acredita que há mais disponibilidade de recursos do que negócios com emissões dessa natureza por ser algo ainda uma novidade. “Hoje tem mais dinheiro com esse viés do que oferta de ativos”, diz.

A Simpar - holding que controla seis empresas, entre as quais JSL, Original e Movida -, realizou no mês passado uma emissão internacional em reais de R$ 450 milhões. Segundo Ferrez, foi uma demanda específica pensando em três investidores, mas 12 foram atraídos e não deu para atender a todos.

A empresa assumiu compromisso de reduzir em 7,8% a emissão de gases de efeito estufa em suas operações até 2025. Uma das ações será a substituição da frota de caminhões a diesel para elétricos ou que usem combustíveis mais limpos. Em janeiro o grupo já tinha feito uma captação internacional com selo sustentável em dólar. A oferta inicial era de US$ 500 milhões e teve demanda cinco vezes maior, o que levou o grupo a ampliá-la para US$ 625 milhões e ratear o valor com juros mais baixos.

Dinheiro aplicado de maneira consciente

Para Gustavo Siqueira, do Morgan Stanley, “os produtos disponíveis atualmente versus a quantidade de dinheiro investido em fundos ESG (ambiental, social e governança) é claramente desbalanceada”. Em sua opinião, a maioria dos grandes gestores de dinheiro no mundo estão convergindo para uma preocupação com o meio ambiente. “Eles perceberam que principalmente a população mais jovem, os millennials que estão assumindo os negócios se importam em obter retorno com o dinheiro aplicado, mas usado de maneira mais consciente”.

É com esse pensamento que tem crescido a emissão de bônus sustentáveis pelas empresas mais fortemente na Europa e EUA, e mais recentemente no Brasil. Relatório do Santander com base em dados da plataforma Sitawi indicam que as emissões de títulos com viés ESG somaram US$ 5,3 bilhões em 2020 - o dobro do ano anterior - e, só nos dois primeiros meses deste ano já estão em US$ 5 bilhões. 

Parte desse resultado veio da Klabin que, em janeiro, fez emissões de títulos de dívida (SLB) de US$ 500 milhões, mas a demanda foi dez vezes superior. “Outras emissões da empresa também tiveram demanda forte, mas, nesse caso, certamente foi maior por causa dos compromissos verdes”, diz Gustavo Rocha Garcia, gerente de Tesouraria. “E foi isso que permitiu que conseguíssemos espremer tanto a taxa, para 3,2% ao ano pois, se não fosse verde provavelmente seria 3,6%.”

As metas estabelecidas pela Klabin são de redução do consumo de água no processo produtivo, aumento de reutilização e reciclagem de resíduos sólidos e a reintrodução de duas espécies extintas ou ameaçadas de extinção em áreas florestais da empresa até 2025.

Apesar de o mercado de capitais brasileiro ainda estar pouco amadurecido, Garcia acredita que a “percepção verde é um caminho sem volta”. Para ele, a emissão da Klabin ajudará a mostrar que as empresas podem inclusive perder vantagem competitiva. “Antes não era fácil encontrar um benefício financeiro (nesse tipo de operação) e agora tem; por isso acredito que vai existir uma força maior para que as empresas criem compromissos sustentáveis.”

Em setembro a Suzano emitiu US$ 750 milhões em bônus atrelados a metas de sustentabilidade e também teve demanda dez vezes superior. Diante da oportunidade, a empresa reabriu a emissão dois meses depois e captou mais US$ 500 milhões - e demanda quatro vezes maior -, com um diferencial: os juros pelo SLE ficaram em 3,1% ao ano, a menor taxa para uma empresa brasileira em emissões semelhantes. Na anterior, a taxa foi de 3,95%.

Mais oportunidades

“O mercado está muito demandante de papéis com características desse tipo e a oferta ainda não dá conta, então é uma oportunidade muito grande”, afirma Marcelo Bacci, diretor de finanças e de relações com investidores da Suzano. “Há cinco anos não tínhamos nenhuma transação feita dessa forma e hoje 30% da nossa dívida já é ligada a metas de sustentabilidade”.

Segundo Bacci, a tendência é de crescimento desse tipo de transação no Brasil e no mundo, o que é bom para que se possa premiar com custos de capital menor as empresas com iniciativas sociais e ambientais. As metas da Suzano atreladas ao empréstimo são a redução de emissões de gases de efeito estufa e de captação industrial de água.

A Rumo também realizou emissões nos últimos meses com foco ESG a Rumo, de US$ 500 milhões e demanda quase cinco vezes maior. A empresa se comprometeu a direcionar os recursos captados para o financiamento de “projetos verdes” como substituição e aquisição de material rodante mais moderno e extensão e modernização das vias férreas, além de reduzir em 15% emissões específicas até 2025.

Já a FS, usina de etanol que utiliza milho em 100% de sua produção, captou em janeiro US$ 50 milhões em uma emissão complementar em títulos verdes que teve procura por US$ 300 milhões. Em dezembro, o grupo já tinha feito outra oferta de US$ 550 milhões, elevando então o montante para US$ 600 milhões. 

Segundo o grupo, as metas estabelecidas foram manter-se no ranking das top 10 de etanol anidro do RenovaBio, aumentar a transparência na divulgação de informações e certificação da emissão com base nos padrões do CBI - Climate Bonds Initiative, organismo que faz certificações de títulos voltados ao ESG.

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Fundos verdes ainda são menos de 1% do mercado no Brasil

No entanto, registram crescimento significativo por pressão dos gestores e dos próprios investidores

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2021 | 05h00

Embora ainda represente pequena fração do universo de investimentos no Brasil, fundos verdes registram crescimento significativo em razão de pressões por parte de gestores e do próprio investidor. Segundo especialistas, a pandemia da covid-19 colocou uma lente de aumento para problemas estruturais do País e do mundo por causa das questões social e ambiental.

Com a demanda em alta, as instituições financeiras ampliaram essa modalidade em seus portfólios. A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) identificou até o momento 167 fundos com algum foco em investimento sustentável ou ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança corporativa), embora menos da metade tenha de fato o selo verde. Do total, 44 foram criados no ano passado.

Até fevereiro, os fundos de ações com viés de sustentabilidade e governança somam patrimônio líquido de R$ 1,07 bilhão, 30% a mais do que no fechamento do ano passado e o dobro de 2019, informa Carlos Takahashi, diretor e coordenador do Grupo Consultivo de Sustentabilidade da Anbima.

Outra categoria de investimento, o de ETFs ESG (fundos negociados na Bolsa de Valores) passou de R$ 105,2 milhões em 2019 para R$ 277 milhões no primeiro bimestre deste ano. Esse produto ainda não tem sido muito explorado pelos bancos na versão sustentável, mas a Itaú Asset Management tem duas opções em seu portfólio, além de quatro fundos que, juntos, somam R$ 173,1 milhões.

A Itaú Asset tem sob sua gestão R$ 770 bilhões de ativos de 3,2 milhões de clientes. Renato Eid, responsável pela área de estratégia e integração ESG, afirma que o banco atua com estratégias de sustentabilidade desde 2004, mas admite que o crescimento da demanda só se intensificou nos últimos dois anos.

Segundo Eid, independentemente de ter o selo verde, a gestora de recursos analisa todos os ativos da carteira de olho nos aspectos sociais e de ESG. “O caminho que construímos é de fazer a integração (dos fundos) e aumentar gradativamente a prateleira com selo ESG.”

Enquanto Europa e EUA estão muito avançados na jornada dos investimentos sustentáveis, no Brasil ela ainda é embrionária, mas os gestores de fundos começam a enxergar suas vantagens e a criar produtos dedicados, afirma José Tibães, líder na área de fundos da XP Investimentos. 

A XP entrou no segmento em meados do ano passado e em dez meses lançou 20 fundos com viés ESG, atendendo demanda dos próprios clientes. “É o maior portfólio do mercado e a ideia é ir suprindo toda a lacuna da prateleira de produtos, ter fundos de todas as classes para fazer a transição”, informa Beatriz Vergueiro, responsável pela área. Um dos fundos é o Trend de Liderança Feminina, com portfólio de 170 empresas cujo critério era ter mulheres em suas lideranças.

A linha ESG acumula mais de R$ 800 milhões investidos entre fundos ativos, passivos, internacionais e locais, ou 5% de uma carteira total formada por mais de 400 fundos. “Mas o número deve ser crescente no longo termo”, avisa Beatriz. A corretora também investiu R$ 100 milhões para incentivar novas gestoras a atuarem na segmento ligado à sustentabilidade.

Performance melhor em crises

Takahashi, da Anbima, confirma que o universo de investimentos sustentáveis tem aumentado substancialmente, mas representa hoje menos de 1% do patrimônio líquido total dos fundos de ações no País. Segundo ele, que também preside a BlackRock no Brasil, análises de mercados que operam esse tipo de fundo há vários anos mostram que aqueles com critérios ESG apresentam performances semelhantes aos dos tradicionais. “Porém, eles se comportam muito melhor em períodos de crise, sofrem ou oscilam menos e desvalorizam menos.”

Ele acredita que, no futuro, todos os investimentos serão sustentáveis. “Estamos falando de práticas óbvias, como cuidar das mudanças climáticas adequadamente, e faz mais sentido investir e ajudar empresas a fazer processos que não emitam gases poluentes, que tenham diversidade etc”, diz Takahashi.

Maria Paula Cantusio, analista de ESG da área de Research do Santander, afirma que, até poucos anos, o interesse maior pelos fundos sustentáveis vinha de investidores institucionais, mas hoje há muita procura também por parte de pessoas físicas. “Taxas foram reduzidas para adequação mais ampla do mercado, e tornou-se mais acessível”, afirma.

“Tem crescido muito a procura por clientes principalmente no varejo em razão da pandemia, que colocou luz grande sobre o assunto devido à questão social”, acrescenta Luzia Hirata, analista de Sustentabilidade da Santander Asset Management.

O Santander tem um fundo com a vertente ESG desde 2001, criado na época pelo ABN/Real, que depois foi incorporado pelo banco espanhol. Chamado de Ethical, o fundo de renda variável foi relançado no ano passado com abordagem mais global para atender uma nova demanda no mercado. O banco tem também o Ethical Previdência e mais dois fundos com parceiros internacionais que, segundo Maria Paula, “têm performado 3% a 4% melhor que a Bovespa”. 

Um problema não só no Brasil, mas lá fora também, é que não há regulamento específico sobre critérios para ser considerando fundo ESG. Luzia diz que a Europa está trabalhando nisso e Anbima começa a dar seus passos. Takahashi informa que a associação constituiu no ano passado um grupo consultivo de sustentabilidade com representantes da indústria de fundos e mercados de capitais.

A ideia, diz ele, é fazer um amplo mapeamento sobre os fundos sustentáveis no Brasil pois, os dados de hoje, tanto em quantidade como valores, representam só uma parte dessa indústria. “Ainda é um mercado bastante fragmentado, inclusive lá fora, e há poucas informações, poucos dados e precisa de mais transparência nas informações, mais clareza dos critérios.”

Pandemia acelerou interesse

A Bradesco Asset Management (Bram) tem oito fundos com carimbos ESG, o primeiro deles lançado em 2007, o segundo em 2011 e seis no ano passado. Por enquanto, eles contribuem com apenas R$ 350 milhões de uma carteira que tem R$ 530 bilhões em ativos. 

O superintendente executivo da Bram, Ricardo Eleutério, explica que, apesar do selo verde estar nesses oito fundos, 99,5% dos ativos tem cobertura do tema de sustentabilidade. “Antes de comprar qualquer ativo ele é avaliado por nosso time pelos critérios internos e damos nota de 0 a 100, levando em consideração todos os aspectos do tema ESG.”

Eleutério concorda que a pandemia acelerou o interesse pelos investimentos sustentáveis, pois “despertou a preocupação com o ambiental, governança, com o futuro”. Para ele, há uma demanda difícil de estimar, mas muito forte, de investidores institucionais (fundos de pensão, previdência privada e seguradoras) e pessoas físicas, principalmente a nova geração, preocupada com o que vai deixar aqui.

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