Tivemos e temos espaço para usar políticas contracíclicas, diz diretor do BC

Segundo Luiz Awazu, recuperação da economia brasileira está em curso, impulsionada por ‘uma forte dinâmica de demanda interna’ 

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

31 de agosto de 2012 | 16h05

SÃO PAULO - O diretor de regulação do sistema financeiro, Luiz Awazu Pereira da Silva, afirmou nesta sexta-feira que a recuperação da economia brasileira está em curso, impulsionada por "uma forte dinâmica de demanda interna". Esse processo, segundo ele, está sendo sustentado pela criação de empregos, renda em expansão, maior inclusão social, "impulsionada pelo efeito cumulativo da redução de juros e spreads" e reforçada por políticas de oferta de infraestrutura que vão aumentar a produtividade do País.

"E essa recuperação dá-se sem prejuízo da manutenção e fortalecimento de nossos fundamentos", disse. "Tivemos e temos espaço para utilizar políticas contracíclicas de demanda e as estamos reforçando com políticas de oferta", destacou.

"Essa combinação é comum a todas as experiências internacionais exitosas e a sua implementação coordenada garante a sustentabilidade do nosso crescimento e, no médio e longo prazo, o aumento da nossa produtividade", apontou.

Crédito

Awazu deu um recado indireto às avaliações críticas segundo as quais o avanço do crédito no Brasil está ocorrendo de forma muito rápida e pode provocar um processo negativo de alavancagem como já ocorreu com alguns países. "Chegou-se a falar de esgotamento do nosso modelo e questionar a capacidade do nosso crescimento limitado por excesso de endividamento das famílias", disse, para acrescentar: "O Banco Central está permanentemente atento a sinais de risco sistêmico, mas é preciso sempre distinguir as tendências estruturais dos movimentos cíclicos e conjunturais", apontou.

O diretor ilustrou sua tese com a afirmação que o processo de aprofundamento financeiro que ocorreu em outros países, ainda está em curso no Brasil. "O nosso crédito cresce rapidamente, mas ainda representa um porcentual baixo em relação ao nosso PIB e em relação a outros países comparáveis", apontou. Segundo ele, a proporção de concessão de crédito em relação ao PIB indica que "ainda comporta espaço de crescimento com segurança."

Redução de Juros

No dia em que completa um ano o atual ciclo de redução dos juros, que levou a Selic de 12,50% para 7,50% ao ano, Awazu ressaltou que a decisão do BC foi adotada com base em estritos parâmetros técnicos. "Não foi por sorte e nem por aposta que o Banco Central, há exatamente um ano, usando seu julgamento e a sua autonomia operacional, foi capaz de recalibrar tempestivamente sua política de juros para uma deterioração previsível das condições macrofinanceiras globais e implementar com sucesso um ciclo de afrouxamento das nossas condições monetárias", afirmou.

O comentário do diretor do BC é um contraponto às avaliações feitas 24 horas depois do início do ciclo de redução dos juros, em primeiro de setembro de 2011. O ex-presidente do BC, Gustavo Loyola, chegou a afirmar que o Banco Central teria abandonado o regime de metas de inflação, enquanto outro ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, divulgou naquele dia um informe especial para clientes, cujo título dizia: "Metas de inflação: Recquiescat in Pacem", o que, numa tradução livre do latim quer dizer "Descanse em Paz."

Infraestrutura

Para Awazu há espaço para que o País avance em infraestrutura, o que permitirá a elevação dos investimentos e da poupança interna.

"O Brasil tem uma agenda ampla em implementação: estabilidade macroeconômica com inclusão social; solidez do sistema financeiro; aumento da produtividade e da qualidade do capital humano e da infraestrutura; e melhora do nosso arcabouço institucional regulatório", apontou Awazu.

"E temos instrumentos e instituições já exaustivamente testados com sucesso por crises no Brasil: colchões de liquidez apoiando nosso regime de câmbio flutuante, regras fiscais responsáveis institucionalizadas e um bem sucedido regime de metas para a inflação", acrescentou. "Os sucessos no curto prazo fornecem as bases para nossa agenda de médio e longo prazo", disse.

Bancos

Para ele, as instituições bancárias no Brasil estão com condições muito favoráveis, pois são sólidas e apresentam bons parâmetros de liquidez. "Nossas instituições encontram-se bem capitalizadas, permitindo que absorvamos choques extremos de atividade ou de falência de conglomerados econômicos mantendo a conformidade aos padrões internacionais de capital e liquidez", destacou.

De acordo com o diretor do BC, o Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial avaliaram que a supervisão do sistema financeiro no Brasil, sobretudo a relacionada aos conglomerados bancários, foi classificada como "forte e sofisticada, tendo recebido a avaliação mais elevada entre os países do G-20 no que se refere à adequação" às práticas internacionais.

"Como exemplo, destaca-se o amplo poder conferido ao BC pela regulamentação em vigor para fazer alertas preventivos em caso de descumprimento de normas e exigir a correção imediata de problemas identificados pela supervisão, limitando-se o risco da deterioração da saúde financeira de uma instituição", ponderou.

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