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Tocando em frente

Dá para ser otimista sobre 2018? Hora é de cumprir a vida e seguir adiante

Cida Damasco *, O Estado de S.Paulo

25 Dezembro 2017 | 05h00

Desafiado a fazer previsões sobre o desempenho da economia, um grande amigo, jornalista experiente, costumava recorrer a uma tirada sarcástica: por via das dúvidas, melhor ser pessimista, porque na economia brasileira não dava certo ser otimista. E ele tinha lá suas razões: durante muito tempo essa “teoria” mostrou-se não apenas uma simples demonstração de humor ácido, mas uma dura realidade. Depois de um longo período em que a economia brasileira parecia finalmente “ter dado certo”, nos últimos anos a ironia voltou a fazer sentido.

Com 2018 virando a esquina – e como esse ano foi esperado! --, a pergunta que mais se ouve agora é: “Será que dá para ser otimista em relação a 2018?” A ideia, aqui, é abdicar de profecias irrealizáveis, apostas bombásticas e reunir uma lista de desejos para a economia brasileira no ano que vem. Alguns mais modestos, outros mais ambiciosos, mas no fundo todos na linha de “cumprir a vida, compreender a marcha e tocar em frente”, nas palavras da inspirada composição de Renato Teixeira e Almir Sater.

Para começar, vamos falar de crescimento. A maioria dos analistas espera que a atividade econômica continue sua marcha de recuperação, mesmo que em ritmo moderado, beneficiada pelo efeito da inflação anêmica sobre a renda dos trabalhadores e por alguns estímulos específicos ao consumo, embora ainda sem a cooperação decisiva dos investimentos – estes à espera dos novos rumos do País, a serem ditados pelos resultados da eleição presidencial. A expectativa do governo é de um crescimento do PIB mais perto de 3% -- o mercado financeiro, por enquanto mais cauteloso, crava em 2,6% --, combinado com uma melhora gradativa do emprego, concentrada em alguns setores e ainda sustentada pela informalidade. Com uma campanha eleitoral que não saia dos eixos e, portanto, sem grandes tremores políticos, é possível até esperar um quadro um pouco mais favorável, que contribua para distensionar a área social.

Inflação e juros? Continuarão baixos, embora a inflação possa avançar para 4%, cerca de um ponto porcentual sobre a deste ano, que promete ficar abaixo do piso da meta, de 3% – a ponto de exigir uma inusitada carta de explicações do presidente do Banco Central (BC) ao ministro da Fazenda. Dá para desejar uma derrapada mais significativa do juro básico, a Selic, hoje na marca de 7%, a mais baixa da história? Talvez não, mas é preciso se empenhar para que os bancos se disponham a cortar para valer as taxas cobradas nas linhas de empréstimos aos consumidores e às empresas, além daqueles pontinhos alardeados pelos departamentos de marketing, a cada reunião do Copom. Já se viu que o voluntarismo do governo nessa direção não funciona, mas não custa sonhar com o voluntarismo das próprias instituições financeiras – que, em vez de enumerar justificativas para não derrubar as taxas de juros, passariam a buscar fórmulas de superar essas justificativas.

O ponto crucial dessa lista de desejos, porém, é o ajuste fiscal. Que a crise de alguns Estados, como a do Rio de Janeiro, não seja o prenúncio de uma crise de todo o País é, em resumo, o desejo de todos. No momento, o governo tenta manter em pé as medidas anunciadas há alguns meses estritamente para garantir o fechamento das contas em 2018, a exemplo do adiamento dos reajustes salariais dos servidores públicos. E nem isso tem conseguido. Mais: o próprio Judiciário, na contramão de suas funções, age para conservar seus privilégios, como os penduricalhos que engordam seus salários e configuram um claro desrespeito à lei do teto – ajudando a esvaziar o ajuste fiscal. E a votação da reforma da Previdência, mesmo na sua versão minimalista, continua cercada de dúvidas. Dá para levar adiante esses temas, em meio à disputa presidencial? Dá para começar um ajuste mais equilibrado, em cima dos privilégios, e não engessado por pressões dos privilegiados? Claro que o passado não pode ser ignorado, mas não deve servir de pretexto para paralisia. A hora é de ir tocando em frente. Como diz a canção, “cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”.

Aos leitores, meu desejo de um Natal feliz e solidário e de um 2018 marcado por muita paz, pela convivência entre os diferentes e pelo esforço conjunto para a construção de um País mais forte, mais justo e menos desigual.

Desafiado a fazer previsões sobre o desempenho da economia, um grande amigo, jornalista experiente, costumava recorrer a uma tirada sarcástica: por via das dúvidas, melhor ser pessimista, porque na economia brasileira não dava certo ser otimista. E ele tinha lá suas razões: durante muito tempo essa “teoria” mostrou-se não apenas uma simples demonstração de humor ácido, mas uma dura realidade. Depois de um longo período em que a economia brasileira parecia finalmente “ter dado certo”, nos últimos anos a ironia voltou a fazer sentido.

Com 2018 virando a esquina – e como esse ano foi esperado! --, a pergunta que mais se ouve agora é: “Será que dá para ser otimista em relação a 2018?” A ideia, aqui, é abdicar de profecias irrealizáveis, apostas bombásticas e reunir uma lista de desejos para a economia brasileira no ano que vem. Alguns mais modestos, outros mais ambiciosos, mas no fundo todos na linha de “cumprir a vida, compreender a marcha e tocar em frente”, nas palavras da inspirada composição de Renato Teixeira e Almir Sater.

Para começar, vamos falar de crescimento. A maioria dos analistas espera que a atividade econômica continue sua marcha de recuperação, mesmo que em ritmo moderado, beneficiada pelo efeito da inflação anêmica sobre a renda dos trabalhadores e por alguns estímulos específicos ao consumo, embora ainda sem a cooperação decisiva dos investimentos – estes à espera dos novos rumos do País, a serem ditados pelos resultados da eleição presidencial. A expectativa do governo é de um crescimento do PIB mais perto de 3% -- o mercado financeiro, por enquanto mais cauteloso, crava em 2,6% --, combinado com uma melhora gradativa do emprego, concentrada em alguns setores e ainda sustentada pela informalidade. Com uma campanha eleitoral que não saia dos eixos e, portanto, sem grandes tremores políticos, é possível até esperar um quadro um pouco mais favorável, que contribua para distensionar a área social.

Inflação e juros? Continuarão baixos, embora a inflação possa avançar para 4%, cerca de um ponto porcentual sobre a deste ano, que promete ficar abaixo do piso da meta, de 3% – a ponto de exigir uma inusitada carta de explicações do presidente do Banco Central (BC) ao ministro da Fazenda. Dá para desejar uma derrapada mais significativa do juro básico, a Selic, hoje na marca de 7%, a mais baixa da história? Talvez não, mas é preciso se empenhar para que os bancos se disponham a cortar para valer as taxas cobradas nas linhas de empréstimos aos consumidores e às empresas, além daqueles pontinhos alardeados pelos departamentos de marketing, a cada reunião do Copom. Já se viu que o voluntarismo do governo nessa direção não funciona, mas não custa sonhar com o voluntarismo das próprias instituições financeiras – que, em vez de enumerar justificativas para não derrubar as taxas de juros, passariam a buscar fórmulas de superar essas justificativas.

O ponto crucial dessa lista de desejos, porém, é o ajuste fiscal. Que a crise de alguns Estados, como a do Rio de Janeiro, não seja o prenúncio de uma crise de todo o País é, em resumo, o desejo de todos. No momento, o governo tenta manter em pé as medidas anunciadas há alguns meses estritamente para garantir o fechamento das contas em 2018, a exemplo do adiamento dos reajustes salariais dos servidores públicos. E nem isso tem conseguido. Mais: o próprio Judiciário, na contramão de suas funções, age para conservar seus privilégios, como os penduricalhos que engordam seus salários e configuram um claro desrespeito à lei do teto – ajudando a esvaziar o ajuste fiscal. E a votação da reforma da Previdência, mesmo na sua versão minimalista, continua cercada de dúvidas. Dá para levar adiante esses temas, em meio à disputa presidencial? Dá para começar um ajuste mais equilibrado, em cima dos privilégios, e não engessado por pressões dos privilegiados? Claro que o passado não pode ser ignorado, mas não deve servir de pretexto para paralisia. A hora é de ir tocando em frente. Como diz a canção, “cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”.

Aos leitores, meu desejo de um Natal feliz e solidário e de um 2018 marcado por muita paz, pela convivência entre os diferentes e pelo esforço conjunto para a construção de um País mais forte, mais justo e menos desigual.

*É JORNALISTA

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