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Jon Berkeley
Jon Berkeley

Todo mundo vai para a universidade

É cada vez maior o volume de recursos investido no ensino superior. Se esse dinheiro está sendo bem gasto, é outra história

THE ECONOMIST

26 de março de 2015 | 18h43

O valor que os americanos dão ao ensino superior desde os primórdios da colonização fez com que os Estados Unidos criassem o melhor e mais afluente sistema universitário do mundo. Não é de surpreender, portanto, que outros países reproduzam seu modelo, possibilitando que um número cada vez maior de jovens chegue à faculdade. No entanto, à medida que o padrão americano se difunde, muitos se indagam se realmente vale a pena investir tanto dinheiro assim nesse tipo de sistema universitário.

O jeito americano. A moderna instituição superior de pesquisa, resultado do casamento entre o modelo de ensino adotado em Oxford e Cambridge e o instituto de pesquisas alemão, foi inventada pelos americanos e se tornou um exemplo a ser seguido no mundo inteiro. A massificação do ensino superior teve início nos Estados Unidos, no século 19, propagou-se pela Europa e pelo Leste Asiático no século 20 e, exceção feita à África subsaariana, hoje ocorre em quase toda parte. A taxa global de matrículas no ensino de 3º grau — percentual da população em idade escolar regularmente matriculado em alguma instituição universitária — passou de 14%, em 1992, para 32%, em 2012; nesse mesmo período, o número de países com taxas de matrícula superiores a 50%, aumentou de cinco para 54. O ritmo de crescimento das matrículas universitárias é superior até que a demanda por este que é bem de consumo por excelência: o automóvel. A fome por diplomas é compreensível: nos dias que correm, os canudos são pré-requisito para que a pessoa consiga um emprego razoável, e é a senha de acesso para a classe média.


Há, grosso modo, duas maneiras de atender essa demanda gigantesca. Uma delas é o modelo adotado pelos países da Europa continental, com financiamento público, em que a maioria das instituições têm recursos e status iguais. A outra é o modelo dos EUA, em que atuam alguns mecanismos de mercado e o financiamento é misto — público e privado —, com instituições maravilhosas, nadando em dinheiro, no topo, e instituições mais pobres na base.

O mundo segue os passos dos americanos. Cada vez mais universidades em um número cada vez maior de países cobra mensalidades de seus alunos. E, à medida em que os políticos se dão conta de que a “economia do conhecimento” depende de pesquisas de primeira linha, os recursos públicos começam a ser canalizados para um número reduzido de instituições privilegiadas, ao mesmo tempo em que se intensifica a corrida pela criação de universidades em condições de concorrer com as melhores instituições do mundo.

De certo modo, isso é excelente. As melhores universidades são responsáveis por muitas das descobertas que tornaram o mundo um lugar mais seguro, mais rico e mais interessante. Acontece que os custos vêm aumentando. O investimento em ensino superior dos países da OCDE atualmente é de 1,6% do PIB; em 2000, era de 1,3%. Se o modelo americano continuar a se difundir, esse percentual tende a aumentar. Os Estados Unidos consomem 2,7% de seu PIB com suas instituições universitárias.

Se a qualidade do sistema universitário dos EUA correspondesse ao volume de recursos que os americanos investem nele, não haveria problema. Na área de pesquisa, isso provavelmente acontece. São americanas 19 das 20 universidades do mundo que produziram os artigos científicos mais citados ao longo de 2014. Mas na área do ensino, as coisas não são tão claras. Os americanos recém-formados não vão bem nas avaliações internacionais de competências em matemática, leitura e escrita, e a posição do país nesse tipo de ranking vem piorando. Em estudo recente sobre desempenho acadêmico 45% dos universitários americanos não registravam aquisição significativa de conhecimentos em seus dois primeiros anos de faculdade. Por outro lado, nos últimos 20 anos, o valor das mensalidades escolares cobradas pelas universidades praticamente dobrou em termos reais. O estoque de crédito estudantil, hoje em quase US$ 1,2 trilhão, já é superior às quantias que os americanos devem em seus cartões de crédito e financiamentos automotivos.

Isso não significa que fazer uma faculdade seja um mau negócio. Nos EUA, o diploma universitário ainda proporciona, em média, retornos de 15%. O que não está tão claro é se esse investimento crescente na educação de 3º grau faz sentido para a sociedade como um todo. Se os salários pagos às pessoas com ensino superior são mais altos porque seus anos a mais de estudo as tornam mais produtivas, então a sociedade faz bem em investir nas universidades. Mas não é bem isso que sugere o fraco desempenho acadêmico dos estudantes americanos. E a desconfiança é reforçada por relatos de empregadores. Estudo recente realizado junto a empresas que costumam contratar jovens formados por universidades prestigiosas mostra que o importante para elas não é o que esses jovens potencialmente aprenderam em seus cursos, mas o fato de terem se submetido aos exigentes processos seletivos dessas instituições. Ou seja, talvez os estudantes estejam pagando mensalidades escolares elevadas apenas para passar por mecanismos seletivos extremamente rigorosos.

Mas se as universidades americanas de fato não oferecem retornos que justifiquem os altos investimentos que recebem, qual seria a razão disso? Um dos principais motivos é que o mercado de ensino superior, como o de saúde, não funciona bem. Os recursos governamentais são alocados levando-se em conta o desempenho das instituições na área de pesquisa, e é nisso que seus corpos docentes se concentram. Por sua vez, os estudantes buscam um diploma que impressione na hora de fazer uma entrevista de emprego; e os empregadores estão mais interessados na seletividade da instituição pela qual o candidato se formou. Como o valor de um diploma emitido por uma universidade prestigiosa depende de sua escassez, não é do interesse da instituição ampliar o número de formados. Na ausência de critérios claros que permitam avaliar o desempenho acadêmico dos estudantes, o preço das mensalidades faz as vezes da qualidade do ensino. Cobrando mais caro, as boas universidades abocanham mais recursos e mais prestígio.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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